Na defensiva, Dilma afirma que não vai cair
A presidente Dilma Rousseff (na foto, com o vice Temer), reage com muita energia, em entrevista à Folha de S. Paulo, às movimentações que procuram afastá-la da Presidência

A presidente Dilma Rousseff afirmou que não irá "cair" e acusou a oposição de tentar afastá-la da Presidência da República. "Eu não vou cair", afirmou, em entrevista publicada nesta terça (7/7) pelo jornal Folha de S. Paulo.
É a primeira vez que a presidente abandona o silêncio que mantinha depois de movimentações no Congresso e na convenção de domingo do PSDB, em que a hipótese de afastamento passou a ser abertamente levantada.
Ela negou ter se beneficiado pela corrupção e disse que "as pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, e venha tentar."
O Planalto reuniu na noite de segunrda-feira o conselho político do governo para tratar a questão. Segundo o presidente do PT, Rui Falcão, não há razões para que as contas do governo sejam rejeitadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Essa seria um dos cenários para o afastamento de Dilma, por meio de impeachment. O outro cenário seria a sua renúncia, por falta de condições para governar, no momento em que ela perde sucessivamente sua base de apoio no Congresso e está com seu governo aprovado por apenas 9% dos eleitores, segundo a última pesquisa do Datafolha.
O Palácio do Planalto está preocupado com a possibilidade de o TCU condenar as chamadas pedaladas fiscais e rejeitar as contas de 2014 do governo, o que poderia embasar o pedido de impeachment no Congresso.
ARTICULAÇÕES
Os rumores de que lideranças tucanas e peemedebistas discutiam os cenários possíveis em razão de um possível afastamento da presidente circularam com insistência na semana passada.
Evocou-se a possibilidade de afastamento involuntário (impeachment) ou voluntário (renúncia) de Dilma Rousseff, diante de condições francamente desfavoráveis para o cumprimento de seu mandato.
No sábado, a coluna Painel, da Folha de S. Paulo, trazia novos detalhes. Dizia haver previsões divergentes. A primeira delas se referia à possível cassação do mandato de Dilma juntamente com seu vice, diante de denúncias da Operação Lava Jato de que a campanha presidencial do ano passado teria sido financiada com dinheiro desviado da Petrobras.
A segunda alternativa se referia à possível reprovação das contas da Presidência no ano passado, em razão das “pedaladas fiscais”. A questão iria para o Congresso, onde o suposto crime de responsabilidade poderia ser julgado com os procedimentos do impeachment.
O primeiro cenário teria a preferência do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que se beneficiaria da convocação de uma nova eleição presidencial. Durante essa curta campanha, a Presidência da República seria exercida pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pela Constituição o terceiro nome na linha sucessória.
O instituto Datafolha revelara que Aécio teria hoje dez pontos de vantagem, numa disputa presidencial, sobre o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Em caso de impeachment, a Presidência seria assumida por Michel Temer (PMDB), que faria o mesmo que Itamar Franco depois do impeachment de Fernando Collor.
Segundo a Folha, essa hipótese seria a preferida do senador José Serra (PSDB-SP), do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) e se apresentaria como a menos traumática na opinião de “ministros de tribunais superiores”, que o jornal não identificou.
No domingo essas articulações foram noticiadas por outros jornais e recebeu a capa da revista IstoÉ.
A questão voltou à baila também no domingo, com a convenção nacional do PSDB que reconduziu Aécio Neves à chefia do partido. Tanto o senador quanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso evocaram abertamente o afastamento de Dilma, por mais que não usassem a palavra “impeachment”.
Nesta segunda-feira a coluna Radar Online, no site da revista Veja, o jornalista Lauro Jardim afirmou que Dilma e Lula divergiam diante do cenário de impeachment.
Lula, segundo o colunista, estava disposto a mobilizar os movimentos sociais mais radicalizados (MST, MTST e lideranças da CUT) para proteger o mandato ameaçado da presidente.
Esta, no entanto, acreditava ser suficiente dialogar com a base do governo no Congresso. Mas o Radar Online dizia que o desprestígio de Dilma era tão evidente que uma parte dos congressistas convidados para a reunião – em reação atípica para uma convocação de um presidente – não se dispunham a deixar antecipadamente seus Estados e rumarem para o encontro em Brasília.
RESPOSTA
Na noite de segunda-feira, antes mesmo da publicação de sua entrevista à Folha, Dilma classificou como "golpista" a pregação por sua saída do governo e disse que defenderá "com unhas e dentes" o mandato para o qual foi eleita.
Um dia depois da convenção do PSDB, na qual tucanos apostaram em novas eleições antes de 2018, Dilma orientou ministros, presidentes de partidos, deputados e senadores da base aliada a afastarem com vigor a articulação de adversários pelo impeachment, carimbando a iniciativa como "golpe".
"As pessoas que estão fazendo delação premiada vão ter de provar o que estão falando", disse Dilma em conversas reservadas. Foi uma referência a depoimentos de empreiteiros que, presos pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, disseram ter dado dinheiro desviado da Petrobrás para o PT e para as campanhas de Dilma e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Vou defender o meu mandato com unhas e dentes. Nada ficará sem resposta."
"Todos nós achamos que (o impeachment) é algo impensável para o momento atual", afirmou o vice-presidente Michel Temer, que comanda o PMDB e é articulador político do Palácio do Planalto. "Eu vejo essa pregação com muita preocupação. Nós não podemos ter a essa altura, no momento em que o País tem grande repercussão internacional, uma tese dessa natureza sendo patrocinada por diversos setores."
Além do PSDB do senador Aécio Neves (MG), reconduzido no domingo à presidência do partido, uma ala do PMDB flerta com a oposição e também prega o afastamento de Dilma, sob o argumento de que ela não tem mais condições políticas para governar.
Há, porém, divisões em todos os partidos que defendem a interrupção do mandato de Dilma. Setores do PMDB torcem para que o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeite as contas do governo em razão da "pedalada fiscal".
Nesse caso, mesmo se o desfecho no Congresso seja a aprovação do impeachment, Temer assumiria o cargo. Se, no entanto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acatar o pedido feito pelo PSDB e considerar que houve abuso do poder econômico e político nas eleições, como alega o partido de Aécio, a chapa Dilma-Temer perde o mandato.
*Com Estadão Conteúdo

