Nada se cria, tudo...

Foi José do Patrocínio quem criou o slogan "Paz e Amor", usado 93 anos depois na campanha presidencial de Lula

Eymar Mascaro
12/Set/2015
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Nilo Peçanha foi presidente da República por 17 meses, entre 1909/1910. Eleito vice-presidente na chapa encabeçada por Afonso Pena, em 1906, Nilo assumiu a presidência com a morte do titular do cargo.

É interessante registrar que Afonso Pena, ex-governador de Minas, construtor da cidade de Belo Horizonte e responsável pela mudança da capital de Outro Preto para BH, foi o primeiro presidente a morrer no Palácio do Catete e não Getúlio Vargas, como chegou a ser noticiado. Getúlio foi o segundo, em 1954. Pena, que foi o primeiro mineiro a chegar à presidência da República, faleceu em 1909, antes, portanto, de completar seu mandato, em 1910.

Nascido em Campos, Estado do Rio e bacharel em Direito pela Faculdade de Recife, Nilo Peçanha fez um governo curto e discreto, sem qualquer empolgação. Logo nos primeiros meses no poder e após as primeiras medidas no governo, ele foi batizado pela imprensa com o apelido de "moleque presepeiro", provavelmente por conduzir a administração do País sem a transparência e lisura necessárias; e, também por praticar algumas presepadas.

Quando assumiu a presidência, Nilo Peçanha tinha 42 anos. Antes de cursar a faculdade, trabalhou com o pai que era comerciante, dono de uma padaria. Ele vendia sobretudo pão.

Quando ainda era vice-presidente, Nilo se tornou um grande amigo do mais famoso jornalista na época, José do Patrocínio. Ambos eram negros. Zé do Patrocínio quis popularizar o governo do amigo, criando interessante slogan para deixar como marca registrada a administração de Nilo Peçanha.

O slogan criado por Patrocínio foi o "Paz e Amor". Os eleitores devem estar familiarizados com o dístico bolado pelo jornalista. É verdade: o slogan "Paz e Amor" foi usado 93 anos depois nas campanhas presidenciais de Lula, em 2002 e 2006. Os marqueteiros do PT tiveram o trabalho de apenas acrescentar à frase o nome do candidato. O slogan, então, ficou assim: "Lula, Paz e Amor" ou "Lulinha, Paz e Amor". Chacrinha cantou a bola nos anos 60 ao afirmar que "nada se cria, tudo se copia".

Nilo Peçanha não escondia que na sua veia corria o sangue de um carioca da gema, fértil na imaginação. A historiadora Isabel Lustosa conta, em um de seus livros que, sabedor de que precisava conquistar mais espaço na imprensa e chamar mais a atenção das pessoas,

Nilo aproveitava os cabides que tinha nas paredes da varanda de sua casa para pendurar quepes de generais que tinha guardado com ele. Seu objetivo era passar a idéia de que os generais estavam reunidos em sua residência, fato que daria nova dimensão e mais importância ao seu governo.

Mas, quando alguém dizia que os generais não estavam em sua casa, Nilo simplesmente respondia que os quepes estavam pendurados na sua varanda porque os militares tinha esquecido o material no último encontro que tiveram em sua moradia.

Deixando o governo em 1910, sem maior repercussão, Nilo Peçanha só veio a tentar ser presidente novamente em 1922, concorrendo com o mineiro Artur Bernardes.

Atribui-se a Nilo Peçanha a autoria de cartas apócrifas que foram distribuídas clandestinamente, com a assinatuura de Bernardes, fazendo severas críticas aos militares.O objetivo era criar uma crise entre o adversário e os quartéis. As cartas irritaram de tal maneira os militares que os tenentes do Forte de Copacabana se rebelaram e tentaram evitar a posse de Artur Bernardes, que havia derrotado Nilo Pençanha.

Bernardes conseguiu tomar posse, mas foi ameaçado constantamente de ser deposto pelos ministros militares. Entre os rebelados se encontrava um tenente-aviador chamado Eduardo Gomes que, mais tarde, se tornou no conhecido brigadeiro Eduardo Gomes.

Ele concorreu e perdeu duas vezes à presidência da República, a primeira vez, foi derrotado pelo marechal Eurico Gaspar Dutra, em 1945, e, a segunda vez, por Getúlio Vargas, em 1950. O governo de Artur Bernardes foi tumultuado, sendo obrigado a governar quatro anos sob Estado de Sítio.

Quando ainda era tenente, Eduardo Gomes decolou em São Paulo em direção ao Rio em um "calhambeque" levando uma bomba a bordo que pretendia atirar sobre o Palácio do Catete, com intenção de atingir o presidente Artur Bernardes.

A aeronave, contudo,  sofreu uma pane e se espatifou contra o solo, mas Eduardo Gomes saiu ileso. Anos mais tarde, Artur Bernardes foi apresentado a Eduardo Gomes em uma solenidade, havendo entre os dois um breve diálogo:

-"Então, o senhor é o maluco que tentou me matar" -ironizou o ex-presidente.

"Coisas da juiventude", justificou Eduardo Gomes.

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