Não atribuam ao aquecimento global as tragédias em áreas de risco
“A discussão sobre mudanças climáticas é legítima e necessária. Porém, ela não pode se transformar em explicação automática para problemas que, na verdade, são consequência direta de escolhas urbanísticas equivocadas”

A década de 2020 praticamente encerrou o debate sobre a existência do aquecimento global. As evidências científicas reunidas pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mostram que a temperatura média do planeta vem aumentando e que a atividade humana tem participação relevante nesse processo. Trata-se de um fenômeno real, cujas consequências podem ser graves para a humanidade nas próximas décadas.
Reconhecer esse fato, no entanto, não pode servir para confundir diagnósticos ou deslocar responsabilidades. Muitos dos problemas ambientais que afetam diretamente as cidades brasileiras têm origem bem conhecida e anterior ao debate climático global.
É o caso das ocupações em áreas de risco sujeitas a deslizamentos, das enchentes urbanas recorrentes, da degradação de mananciais, da erosão e do assoreamento de cursos d’água, da contaminação de solos e da deficiência histórica de saneamento básico. Esses problemas são antigos e resultam, em grande medida, de falhas de planejamento urbano, ocupação irregular do solo e ausência de políticas públicas consistentes de prevenção.
Quando tragédias associadas a deslizamentos ou enchentes são atribuídas de forma automática às mudanças climáticas, corre-se o risco de desviar o foco das causas reais e das soluções efetivas. Em muitos casos, esses eventos poderiam ser evitados ou significativamente reduzidos por meio de planejamento territorial adequado, obras de contenção quando indispensáveis, drenagem eficiente, preservação de áreas sensíveis e políticas habitacionais responsáveis.
O Brasil dispõe, há décadas, de conhecimento técnico acumulado para enfrentar esses desafios. Instituições de pesquisa, universidades e profissionais da área de geologia e engenharia geotécnica vêm produzindo estudos e recomendações que apontam caminhos claros para a mitigação de riscos em áreas urbanas.
O que frequentemente falta não é diagnóstico ou tecnologia, mas decisão política para priorizar essas ações e implementá-las de forma contínua.
A discussão sobre mudanças climáticas é legítima e necessária. Porém, ela não pode se transformar em explicação automática para problemas que, na verdade, são consequência direta de escolhas urbanísticas equivocadas e da ausência de políticas públicas eficazes.
Enfrentar as tragédias urbanas exige reconhecer essa realidade e assumir responsabilidades. Somente com planejamento urbano sério, gestão territorial responsável e investimentos consistentes em prevenção será possível reduzir os riscos que há décadas atingem as cidades brasileiras e sua população.
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IMAGEM: Rovena Rosa/Agência Brasil
