Não confunda nota de risco: samba não se mistura com tango

Mas a Argentina tem uma história bem diferente da brasileira, depois do fracasso da paridade entre o peso e o dólar e a renegociação fracassada com os fundos "abutres"

João Batista Natali
11/Set/2015
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Guardadas as devidas proporções, a Argentina também sofreu com os efeitos do rebaixamento pela Standard & Poor´s. Mas o país não perdeu o grau de investimento, como aconteceu com o Brasil na quarta-feira (09/09),  simplesmente porque não o tinha.

Se o Brasil passou de BBB para BB+, no ano passado, em 30 de junho de 2014, a Argentina já estava num patamar bem mais baixo de classificação. Passou de CCC para a base da pirâmide de avaliação, qualificada como capaz de “calote seletivo”, ou SD, na sigla técnica da agência de avaliação.

E o mundo caiu? Não, porque ele já havia desmoronado desde o início da década de 2000, quando o colapso da paridade cambial entre o peso e o dólar abriu um período de turbulências em que o país passou a ser um parceiro capaz de infidelidade com os grandes bancos credores.

A maior infidelidade aconteceu em 2001, mais precisamente em 30 de dezembro, quando o presidente interino Adolfo Rodriguez Páez Montero – chefe de Estado por apenas sete dias – suspendeu o pagamento de toda a dívida externa, calculada na época em US$ 100 bilhões. Horas depois, renunciou ao cargo.

Há uma relação estreita entre crise econômica e instabilidade política naquele período, um dos mais trágicos e bizarros da recente história do país.

Eis um resumo cronológico. Carlos Menem foi presidente entre 1989 e 1999. Elegeu-se para o primeiro de seus dois mandatos como sucessor de Raúl Alfonsin, presidente imediato pós-ditadura militar, obrigado a renunciar porque a inflação anual se aproximava de 5.000%.

Pois bem. Menem não passará para a história por seu plano radical de privatizações ou pela reconquista da estabilidade do peso argentino. Ele e seu ministro das finanças, Domingo Cavallo, instituíram a paridade e a interconversibilidade do peso com o dólar americano.

A mágica era sedutora. A Argentina abria mão da liberdade de aumentar os juros ou desvalorizar a moeda como medidas momentâneas. Eram coisas que passariam a ser feitas pelo Federal Reserve, nos Estados Unidos. A vantagem era que a inflação argentina seria a mesma que a dos americanos e a moeda local teoricamente poderia circular em escala global como o dólar.

A receita, um tanto na moda naquela época, funcionou e continua a funcionar como no pequeno Equador. Mas não na Argentina, onde taxas espantosas de crescimento – 35% do PIB, entre 1990 e 1994 – coincidiam com o início de uma forte desindustrialização e posterior desemprego.

Cresceu também uma crise fiscal e a capacidade limitada de a Argentina enfrentar as crises do México e da Ásia – ao contrário dos Estados Unidos, “parceiros” da mesma unidade monetária.

A coisa se complicou quando, já no imediato pós-Menem, o Tesouro deixou de ter, em Buenos Aires, a quantidade de dólares equivalente aos pesos em circulação. Era preciso separar uma moeda da outra. Ou, em outras palavras, desvalorizar o peso e fazer com que, dos grandes empresários aos pequenos poupadores, todos perdessem dinheiro.

Em meio à crise, o sucessor de Menem, Fernando de La Rúa, é levado à renúncia no final de 2001. Foram três presidentes antes da passagem do poder a Nestor Kichner, em março de 2003. O único grande mérito do novo presidente foi o de desfazer o nó em que a economia argentina estava atada.

Mas, antes mesmo dele, a solução foi longa e acidentada. Vem daí a insolvência externa do país e a desclassificação que o vitimou em 2014.

O calote nos credores externos de dezembro de 2001 provocou, como esperado, uma queda nos papéis da dívida externa argentina. Em 2005 o governo obteve dos credores uma troca dos antigos títulos por novos títulos de longo prazo, tomando como base de negociação o valor de mercado de cada papel, e não o seu valor nominal. Um dólar de valor nominal chegou a valer apenas 30 centavos. Mas a operação funcionou.

Passaram-se cinco anos e, diante de um risco de insolvência, a Argentina procurou aplicar a mesma receita para um outro lote de papéis com vencimento a curto prazo. Eis que, desta vez, a operação não funcionou.

Uma parte bem minoritária dos fundos credores entraram na Justiça, nos Estados Unidos, para obterem, no pagamento imediato ou na troca por novos papéis, o mesmo valor nominal da época dos empréstimos, anterior a 2001. O caso foi parar nas mãos do juiz Thomas Griesa. Os fundos em questão passaram a ser qualificados de “abutres” dentro da linguagem do kichnerismo.

Uma das decisões de Griesa era a de que a Argentina não poderia efetuar nenhum resgate externo de títulos antes de saldar sua dívida com os agora chamados abutres, que tinham de início US$ 1,33 bilhão e que, com os juros e o passar da carruagem, já haviam chegado a US$ 1,5 bilhão.

Eis que no ano passado a Argentina precisou pagar US$ 539 milhões para os portadores de títulos já renegociados. Ela estava com esse dinheiro no bolso. Foi impedida de fazê-lo pela Justiça americana, que priorizava a decisão judicial de Griesa.

Foi então que, sem efetuar o pagamento, a Standard & Poor´s rebaixou a nota de crédito argentina para um nível vergonhosamente baixo.

Em termos técnicos, a questão até que poderia ser resolvida. Afinal, e apesar de sua crise de insolvência, o Tesouro ainda possuía em Buenos Aires reservas cambiais de US$ 33 bilhões. Mas a questão se tornara basicamente política.

E foi também com o olho na política que, em abril último, investidores compraram US$ 1.425 milhões em títulos da dívida argentina. Foi bem mais que os US$ 500 milhões que a Argentina previa inicialmente vender.

Mas como? Fácil de explicar. Apesar da nota vergonhosa da S&P, o país trocará de presidente até o final do ano, e os investidores calculam que o sucessor de Cristina Kichner não mais terá nos fundos abutres o grande bode expiatório para os problemas econômicos internos.

Esta é a história da dívida. Uma outra história, também conhecida, é a do relacionamento comercial da Argentina com seus parceiros externos. O Brasil pagou o preço de uma política de racionamento implícito de dólares. As exportações brasileiras foram dificultadas, e o Brasil perdeu espaço para a China, a qual, em troca de sua implantação no mercado interno argentino, oferecia créditos em volume e condições que os brasileiros não poderiam oferecer.

Na última quinta-feira (10/09), quando a S&P rebaixou o Brasil, as reações argentinas – do setor público e do privado – estavam todas centradas na questão comercial. Já que o real entrava em tendência endêmica de enfraquecimento, as exportações argentinas para o Brasil ficariam mais caras e, portanto, menos vantajosas.

Mas isso já é uma outra história.

 

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