O Brasil voltou ao mapa — mas o risco ainda cobra caro
O país exibe crescimento de curto prazo e algumas reformas aprovadas. Os números de longo prazo, no entanto, contam uma história radicalmente diferente — e o mercado está lendo a versão longa

O gráfico do EMBI+ conta uma história que nenhum press-release fiscal consegue apagar. De 1994 a 2004, o Brasil oscilou entre 700 e 2,4 mil pontos-base de risco-país — beirando o abismo no pico pré-eleitoral de 2002. De 2006 em diante, o spread comprimiu-se abaixo de 500 bps e ali se acomodou, com dois solavancos relevantes: a crise de 2014–2016 e o choque fiscal de fins de 2024. O movimento de 30 anos do EMBI+ é uma narrativa de descompressão parcial — não de convergência aos pares.
Esse detalhe importa porque o debate corrente parte de uma premissa incorreta. O argumento de que 'o mercado precifica o Brasil como 2002' é exagerado — e refutável com facilidade. Mas a versão oposta, de que o spread atual é injustificado e que o Brasil 'melhorou' o suficiente para merecer precificação de grau de investimento pleno, é uma falácia ainda mais perigosa. Ela confunde melhorias cíclicas de curto prazo com correção estrutural de longo prazo - e os números não sustentam essa conclusão.
Este prognóstico desconstrói o argumento otimista com os dados que o sustentam, examina a armadilha fiscal em sua dimensão real, e desmonta — com aritmética simples — dois equívocos recorrentes no diagnóstico mainstream: a falácia das reservas e a ilusão do superávit primário como âncora de solvência.
Parte I — O que o curto prazo esconde
O crescimento de 3,4% do PIB em 2024 e o desemprego em 6,6% são números reais. Mas o diagnóstico honesto exige que se pergunte: como esse crescimento foi financiado? A resposta é incômoda.
Departamento de Estado dos EUA · Investment Climate 2025. O déficit nominal do governo — incluindo o serviço da dívida — chegou a 8,45% do PIB em 2024, um dos maiores entre economias emergentes. Não 0,4% — que é o déficit primário, o número que o governo exibe nas manchetes e que exclui justamente os juros.
Essa distinção é o centro de toda a análise. O superávit ou déficit primário mede o resultado antes dos juros. Num país onde o serviço da dívida consome 7,76% do PIB ao ano, esse número é quase decorativo. É como celebrar que uma empresa 'gerou caixa operacional' enquanto os encargos financeiros devoram todo o resultado e ainda exigem nova captação.
"O crescimento de 2024 foi forte. Mas parte importante foi comprado a crédito — e a fatura está chegando em forma de dívida crescente, real depreciado e Selic a dois dígitos." Boston Common Asset Management · Análise Brasil, 2025.
Crescimento comprado com déficit fiscal expansionista não é indicador de saúde. É sintoma do problema. Os próprios analistas que apontam o crescimento como prova de melhora reconhecem, no parágrafo seguinte, que as projeções de inflação e de juros subiram junto com o PIB — de 3,9% para 4,6% e de 9% para 11,75% ao longo de 2024, respectivamente.
Os gastos obrigatórios: a camisa de força estrutural. O detalhe que transforma a análise fiscal do Brasil de 'problema gerenciável' em 'armadilha estrutural' é a composição do gasto. Os gastos obrigatórios — previdência, pessoal, saúde, educação, todos indexados por fórmulas automáticas — consumiam 85% do orçamento há uma década. Hoje consomem 93%. Sobra 7% do orçamento para tudo o mais: investimento, custeio discricionário, defesa, infraestrutura.
O arcabouço fiscal aprovado em 2023 limita o crescimento real do gasto. Mas não quebra a lógica dos gatilhos automáticos. Ele gerencia o teto; não corta a fundação. Sem reformar a estrutura previdenciária e os mecanismos de indexação, qualquer regra fiscal é uma corrida contra a corrente — e a corrente está acelerando.
Parte II — A armadilha fiscal em números reais
A trajetória da dívida: o número que não para de subir
Os três números abaixo são a sentença do diagnóstico: a dívida não vai parar de subir.
• Dívida bruta (metodologia FMI) em 2024: 87,3% do PIB
• Projeção dívida bruta em 2026: ~95% do PIB (FMI baseline)
• Projeção dívida bruta em 2030: 99,4% do PIB (FRED / FMI WEO)
AEI · American Enterprise Institute, dez/2024. Economias emergentes tipicamente enfrentam dificuldades quando a dívida atinge a faixa de 80–90% do PIB. O Brasil já está lá — e a trajetória aponta para 99% até 2030.
A matemática impossível do superávit primário
O governo aponta para uma meta de superávit primário de 0,25% do PIB em 2026 como prova de disciplina fiscal. Mas a aritmética expõe a ilusão: com o serviço da dívida consumindo ~7,76% do PIB, alcançar 0,25% de superávit primário ainda resulta em um déficit nominal de mais de 7% do PIB. A dívida continua crescendo.
Para estabilizar a dívida em termos nominais, o Brasil precisaria de um superávit primário sustentado de aproximadamente 5–6% do PIB. Nenhum governo no mundo democrático conseguiu isso por mais de um ou dois anos. Para estabilizar a relação dívida/PIB, bastaria que o crescimento real do PIB superasse a taxa de juros real — mas com Selic a 15% e crescimento projetado abaixo de 2%, o diferencial juro-crescimento é fortemente negativo.
Comparativo: o número que o debate doméstico evita
• Chile: 38% do PIB
• Peru: 34% do PIB
• México: 48% do PIB
• Colômbia: 55% do PIB
• Brasil (2030p): 99,4% do PIB
Parte III — A falácia das reservas internacionais
Um dos argumentos mais recorrentes no otimismo sobre o Brasil é o colchão de reservas internacionais — aproximadamente US$ 330 bilhões, equivalente a 16 meses de importações. Esse argumento, na sua superfície, está correto. No que diz respeito ao risco soberano em análise, é uma falácia de categoria.
Por que as reservas não resolvem o problema fiscal
As reservas internacionais protegem contra um tipo específico de crise: a crise de balanço de pagamentos, onde o país não tem dólares para honrar dívida externa em moeda estrangeira. Esse era o risco de 2002 — quando a dívida externa representava 45% do PIB e as reservas cobriam menos de 6 meses de importações.
O problema errado sendo resolvido. Hoje, a dívida pública brasileira é majoritariamente doméstica, denominada em reais, e detida por residentes e instituições financeiras locais. O risco não é 'o Brasil não tem dólares para pagar credores externos.' O risco é 'o governo não tem reais suficientes para honrar seus compromissos sem emitir moeda ou elevar impostos de forma politicamente insustentável.' Reservas internacionais não resolvem dívida interna em moeda local.
A confusão entre os dois riscos é conveniente para a narrativa otimista, mas é analiticamente inconsistente. O Japão tem dívida de 260% do PIB e não enfrenta crise cambial porque sua dívida é quase integralmente doméstica e denominada em iene. O Brasil está mais próximo do Japão na estrutura da dívida — mas o paralelo termina aí, porque o Japão tem taxas de juros reais negativas, não Selic de 15%.
O que as reservas realmente revelam. O argumento das reservas serve para sinalizar que o Brasil não vai calotear dívida externa. Isso é verdade — e é relevante. Mas o mercado de CDS soberano não está precificando calote explícito em dólares. Está precificando o custo do risco fiscal sistêmico, da inflação acima da meta, da moeda volátil e da incerteza política. Para esses riscos, US$ 330 bilhões em reservas são irrelevantes.
Parte IV — Por que o spread é racional — e pode piorar
Reposicionado o problema — dívida doméstica em trajetória insustentável, serviço de dívida acima de qualquer superávit possível, gastos obrigatórios em expansão automática — o spread de 200–250 bps não parece exagerado. Pode até estar subestimado.
1. Diferencial juro-crescimento — a variável que determina tudo
A relação dívida/PIB se estabiliza quando o crescimento do PIB supera a taxa de juros real. Com Selic a 15%, inflação em 5% e crescimento projetado em 1,5–2%, o diferencial é de aproximadamente 7 a 8 pontos percentuais. A cada ano nesse regime, a dívida sobe automaticamente mesmo com superávit primário.
2. O ciclo político 2026 como acelerador do risco
A administração Lula dobrou o déficit nominal de 4,6% para 9,5% do PIB nos primeiros três anos do mandato. Em ano eleitoral, o incentivo fiscal é invariavelmente expansionista. A concentração de risco político em outubro de 2026 é um fator de prêmio de risco, não uma hipótese pessimista.
3. A meta fiscal é uma ficção de compliance
O arcabouço fiscal permite exclusões ad hoc que tornam o cumprimento das metas menos informativo do que parece. Em 2024, gastos com o desastre do Rio Grande do Sul e os precatórios foram excluídos da avaliação. O déficit primário 'dentro da meta' de 2024 foi, na prática, de ?0,73% sem as exclusões — já fora da banda de ±0,25%.
4. A armadilha da dependência: crescimento via gasto público
O crescimento de 2024 foi impulsionado por consumo sustentado por transferências governamentais, salário mínimo acima da inflação e crédito. Esse modelo é dependente de gastos que agravam o déficit. A desaceleração já começou: o PIB cresceu apenas 0,1% entre Q2 e Q3 de 2025.
5. Real depreciado e inflação estrutural
O real perdeu 27% frente ao dólar em 2024. Moeda fraca eleva o custo dos insumos importados, sustenta a inflação acima da meta e obriga o Banco Central a manter juros altos. Juros altos aumentam o custo da dívida. O ciclo se retroalimenta — e a solução exige consolidação fiscal crível, exatamente o que o cenário político de 2026 torna improvável.
Conclusão — Veredicto: não é 2002, mas o problema é seu próprio
O Brasil de 2026 não está à beira do abismo de 2002. Mas esse não é o parâmetro relevante. O parâmetro relevante é: a trajetória atual é sustentável? E a resposta dos dados é não.
A dívida caminha para 99% do PIB em 2030 sem quebra de tendência. O serviço da dívida consome mais de 60% da receita tributária. Os gastos obrigatórios ocupam 93% do orçamento. O diferencial juro-crescimento é fortemente negativo.
O ano eleitoral de 2026 reduz a probabilidade de ajuste estrutural. E as reservas internacionais — o principal argumento otimista — respondem a um risco que não é o risco em questão.
Tese Central: O mercado não precifica o Brasil como 2002. Precifica o Brasil como o que ele é: uma economia emergente de grande porte presa numa armadilha fiscal doméstica — dívida crescente, juros estruturalmente altos, gasto rígido e ciclo político adverso ao ajuste. O spread de 200–250 bps não reflete memória histórica irracional. Reflete o cálculo presente de uma trajetória que não fecha. Os indicadores de curto prazo que o otimismo exibe são reais, mas são comprados com endividamento e financiados por um modelo de gasto que acelera o problema estrutural. Celebrar o resultado de 2024 sem ler a projeção de 2030 é analisar a foto sem o laudo.
O Brasil voltou ao mapa. Mas o mapa mostra que a estrada que escolheu leva, em velocidade lenta, na direção errada. E o mercado enxerga o destino — não o ponto de partida.
Fontes e Referências
FMI — Article IV Consultations 2023, 2024, 2025; World Economic Outlook (FRED/St. Louis Fed: GGGDTPBRA188N) · IBGE — Contas Nacionais; PNAD Contínua · Departamento de Estado dos EUA — Investment Climate Statements 2025 · Deloitte Insights — Brazil Economic Outlook, fev/2026 · Boston Common Asset Management — Brazil Analysis 2025 · American Enterprise Institute — A Wake-Up Call from Brazil, dez/2024 · RANE/Stratfor — Brazil Faces an Inevitable Fiscal Reckoning, set/2025 · Global Policy Watch — Brazil's Fiscal Framework in Peril, dez/2024 · Banco Central do Brasil — Notas de Política Monetária; Focus Relatório de Mercado · CEIC Data — Brazil Government Debt % of GDP · J.P. Morgan EMBI+ Index
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