O mordomo que sabia demais

O presidente Washington Luís chamou Albino para uma conversa reservada em seu gabinete e, depois de obter do mordomo a palavra de que guardaria segredo de tudo que ouviria...

Eymar Mascaro
15/Out/2015
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A pesquisadora e historiadora Isabel Lustosa registra em um de seus livros a curiosa passagem na vida de um mordomo e zelador do Palácio do Catete, que serviu de sede dos presidentes da República, no Rio, de 1897 a 1960, quando Juscelino Kubistcheck inaugurou Brasília e o gabinete presidencial passaou a ser no Palácio do Planalto.

O mordomo em questão atendia pelo nome de Albino e consta que ele teria sido contratado no governo de Epitácio Pessoa (1919-1922).

Albino era comunicativo e fazia amizades com facilidade com os presidentes, entre os quais, Washington Luís (1926-1930).

Conhecido por "paulista de Macaé", Washington  Luís era do estado do Rio mas fez carreira política em São Paulo, como Fernando Henrique Cardoso. Também foi prefeito  e governador de São Paulo. Foi ele que, como prefeito, criou as feiras-livres na capital. e, na presidência, popularizou a expressão que "governar é construir estradas".

Washington Luis resolveu apoiar o candidato de São Paulo à sua sucessão, Júlio Prestes, contrariando Getúlio Vargas que foi seu Ministro da Fazenda de 1926 a 1928, quando deixou o ministério para assumir o governo do Rio Grande do Sul.

Getúlio tinha sede e fome de poder. Sua ambição era ser presidente e se candidatou esperando pelo apoio de Washington Luís, que acabou não vindo.O paulista Júlio Prestes derrotou Getúlio nas urnas, com facilidade, com  o apoio de 17 estados, enquanto Vargas contou com a ajuda do Rio Grande, de Minas e da Paraíba.

Getúlio não aceitou a derrota e passou a acusar Júlio Prestes de ter fraudado a eleição e não tardou para atrair o apoio dos ministros militares.

Getúlio preparava o golpe, sem se convencer que havia sido derrotado democraticamente. Júlio Prestes continuava apoiado pelos 17 estados, mas RS, Minas e Paraíba, ficaram contra São Paulo e a favor do golpe de Getúlio, golpe este que mais tarde se convencionou chamar de "Revolução de 30".

É aí que entra a história do mordomo Albino.

Pressentindo que seria apeado do poder, o presidente Washington Luís chamou Albino para uma conversa reservada em seu gabinete e, depois de obter do mordomo a palavra de que guardaria segredo de tudo que ouviria, se espantou quando Washington Luís lhe entregou a faixa presidencial com o pedido de que ele só deveria entregá-la a um presidente eleito democraticamente.

Albino, portanto, estava de posse da faxia de presidente da República. Com medo de que alguém visse a faixa com ele, o mordomo chegava a usá-la por baixo da roupa e muitas vezes chegou a  dormir com a faixa por baixo do pijama. O mordomo, portanto, vestiu  mais vezes a faixa presidencial do que os verdadeiros presidentes.

Washington Luís acertou na mosca, pois foi deposto pelos militares, preso do Forte de Copacabana e posteriormente deportado, só voltando ao País depois de 17 anos, em 1947. Getúlio "assaltou" o Poder na marra com o apoio dos militares, de Minas, do Rio Grande do Sul e da Paraíba. Foram os três Estados que trairam São Paulo e o presidente eleito Júlio Prestes.

Durante três anos, o mordomo foi fiel ao juramento feito ao presidente Washington Luís, apesar da amizade que também costurou com Getúlio no Catete.

Mas, em 1933, no trajeto Rio-Petrópolis, o veículo em que Getúlio e a mulher, dona Darci Vargas viajavam, foi abalrroado por uma avalanche de terra e pedras que deslizaram de um morro que ainda hoje inferniza os motoristas que fazem o mesmo trajeto principalmente nos fins de semana.

O acidente provocou fraturas nas pernas do presidente e de sua mulher, obrigando Getúlio a ficar na cama por um longo período.

Até o dia em que o mordomo Albino sentiu pena do presidente e acabou por trair o compromisso qiue havia assumido com  Washington Luís.

Depois de conhecer toda a história relatada pelo mordomo, Getúlio se recusou a receber a faixa das mãos de Albino, dizendo que só ficaria com o mimo presidencial no ano seguinte, em 1934, quando pretendia dar um presente ao país: uma Constituição.

Getúlio cumpriu a promessa e presenteou a popualção com a Constituição de 1934, mas que teve a curta duração de três anos, porque, em 1937, daria outro golpe dentro do golpe, implantaria o Estado Novo, suspendendo todos os direitos individuais e constitucionais, prendeu os adversários políticos, encarcerou o líder comunista Luís Carlos Prestes, entregou a mulher de Prestes, a alemã Olga Benário para a Polícia Secreta da Alemanha, a Gestapo de Hítler, que acabou sendo executada num campo de concentração, depois de ver a filha Anita Leocádia Prestes nascer enquadrada pelas cercas de arame farpado. Tudo isso de posse da faixa presidencial.

PS: Anita Leocádia mora no Rio, é historiadora e professora universitária, está com 80 anos, aproximadamente, e está em fase de lançamento de um livro de memórias de seu pai.

É preciso registrar que num comício que fez em São Paulo, alguns anos depois de ter sido deposto da presidência pelos militares,em 1945, Getúlio recebeu o apoio de seu ex-preso político Luís Carlos Prestes, que esqueceu sua prisão, o assassinato de sua mulher no campo de concentração e do nascimento de sua filha no cárcere.

Prestes apoiou seu algoz, Getúlio Vargas, a mando de Moscou. No comício que fez no Anhangabaú, Getúlio preparava sua volta à presidência, pelo voto direto, em 1950, para se matar no Catete quatro anos depois, em 1954.

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