O mundo de Dilma
Dilma e Cunha polemizam em busca de uma imagem. A História do Brasil, desde o Segundo Império, é rica na caça ao imaginário
A presidente Dilma Rousseff e o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), envolveram-se em controvérsia pessoal sobre as desonestidades.
Dilma disse nesta terça (20/10), em Helsinque, Finlândia, que “meu governo não está envolvido em nenhum escândalo de corrupção”. Na véspera, Cunha afirmara lamentar que esteja “no governo brasileiro o maior escândalo de corrupção no mundo”.
Ele respondia à própria presidente, que no sábado, em Estocolmo, Suécia, dissera lamentar que “um brasileiro”, no caso Eduardo Cunha, estava sendo acusado de ter conta corrente na Suíça, menção a depósitos de propinas apuradas pela Lava Jato.
Comentemos. O caso do deputado é indefensável, mesmo porque, no sábado, os jornais publicaram reproduções em xerox de suas contas, e promotores suíços informaram que ele tinha depósitos de US$ 5 milhões.
Mas Dilma, embora sem ser pessoalmente beneficiada por desvios, só por liberdade poética poderia ter negado corrupção na atual administração.
Ainda na quinta-feira anterior, a Polícia Federal prendeu Clemerson José Pinheiro, ex-secretário-executivo do agora extinto Ministério da Pesca, pela venda ilegal de licenças para pesca em períodos inadequados.
É também possível, sem que se caia na imaginação, vincular o nome da atual presidente à compra da refinaria de Pasadena ou a malfeitos da Petrobras quando ela foi ministra das Minas e Energia, chefe da Casa Civil ou mesmo presidente, cargo no qual prejudicou a estatal com uma política predatória de tarifas para controlar a inflação.
O que está em jogo, em verdade, é o imaginário que o Planalto diariamente alimenta para dissociar a governante de alguma responsabilidade pejorativa. Por esse imaginário, a Lava Jato apenas apurou malfeitos Campos ou de empresários e diretores da Petrobras, sem relação alguma com o orçamento do Partido dos Trabalhadores.
Por mais que o ex-tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, tenha sido sentenciado a 15 anos de prisão, justamente por ter sido um dos operadores de grandes pecados financeiros.
O imaginário é um bem precioso no mercado da política. Foi com base nos ataques injustificados a Marina Silva, então candidata presidencial pelo PSB, que Dilma se reergueu na campanha de 2014 e obteve a reeleição.
E foi também pelo imaginário em outro patamar – o da gerente sensível aos programas sociais e direitos trabalhistas – que ela praticou o que passou a ser chamado, do PSDB ao Psol, de estelionato eleitoral.
UM POUCO DE HISTÓRIA
A História do Brasil é pródiga na geração esquisita de imagens. A começar do Segundo Reinado, quando d. Pedro 2º não conseguiu empolgar os cidadãos – ou o que existia deles – com a Guerra do Paraguai (1874-1870), ou com a campanha republicana, que idealizava de forma excessiva um regime que reduziria as desigualdades econômicas e traria magicamente o progresso social.
Getúlio Vargas foi um excelente produtor de imagens, tanto que morreu como o “pai dos pobres” e inspirador dos direitos do trabalhador urbano, e quase jamais evocado como o grande liberticida do Estado Novo.
Mas vamos adiante. Juscelino Kubitchek gerou um formidável conjunto de imagens que correspondia a seus mais sólidos feitos (Brasília, a indústria automobilística). Jânio tropeçou na renúncia e partiu para a eternidade com uma mistura de idiossincrasias linguísticas e excessos etílicos.
Com a redemocratização, em 1985, o grande fenômeno imagético foi o de Luiz Inácio Lula da Silva, que não apenas criou uma imagem absurdamente exagerada para ele próprio e seu partido (o Bolsa Família nada teria a ver com o Bolsa Escola, de FHC), como também, em seus dois mandatos, fabricou uma imagem que se tornou quase consensual quanto ao PSDB e aos tucanos. Da “herança maldita” à suposta insensibilidade de erradicar a fome e a pobreza.
As imagens têm uma gênese curiosa. Digamos que um partido político discuta com tal intensidade suas propostas que, para efeitos externos, ele é convincente no que diz faz. Foi o que ocorreu entre 1945 e 1954 com a UDN – com as bandeiras simultâneas do liberalismo e da honestidade – ou mesmo com os primeiros anos do PT, com a novidade da ética na política.
Diante de uma galeria com tantos personagens ou momentos de grandeza maior, a troca de acusações entre o decaído Cunha e a decadente Dilma oferece um espetáculo no mínimo vulgar. O imaginário vira uma estopa ensopada em muita água e pouco querosene, o que não dá ignição.
É essa, no fundo, a metáfora mais apropriada para o momento de linguagem empobrecedora que todos agora vivemos.

