O mundo que herdamos

“Dizer a um jovem da periferia que o crime não compensa soa vazio quando ele pode apontar para bancos que socializaram prejuízos bilionários sem que nenhum executivo fosse à cadeia"

Alfredo Behrens
18/Mar/2026
Professor da FIA Business School
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O mundo que herdamos

Há uma pergunta que circula silenciosamente nas mentes de milhões de jovens hoje, aparecendo inclusive nas buscas do Google com frequência crescente: para que estudar? À primeira vista parece preguiça ou imaturidade. Mas quando examinamos o contexto em que essa pergunta surge, ela revela algo muito mais profundo — e muito mais perturbador.

Vivemos um momento em que a desconfiança nas instituições não é paranoia, é resposta racional a uma série de traições documentadas. Os arquivos Epstein, agora parcialmente públicos, sugerem que figuras de liderança global em política, finanças e entretenimento participaram ou foram cúmplices silenciosos de crimes contra os mais vulneráveis — protegidas durante anos pelos mesmos sistemas que deveriam responsabilizá-las. No Brasil, o mecanismo é familiar, embora vista roupas diferentes.

O caso do Banco Master ilustra com precisão cirúrgica como o sistema funciona para quem tem acesso ao andar de cima. Uma instituição que acumulou passivos bilionários vendendo CDBs a investidores de varejo — muitos deles pequenos poupadores que acreditaram nas promessas de rentabilidade — encontrou no Fundo Garantidor de Créditos e nas negociações com o BRB uma tábua de salvação que dificilmente estaria disponível para um devedor comum. A socialização dos riscos enquanto os lucros permanecem privados não é anomalia do sistema financeiro brasileiro. É sua característica estrutural mais duradoura. E os jovens, mesmo sem ler os relatórios do Banco Central, percebem isso visceralmente quando veem seus pais trabalharem décadas com fidelidade e ainda assim não conseguirem pagar moradia digna nas grandes cidades.

Quando esse mesmo jovem olha para o mercado de trabalho e constata que a inteligência artificial está eliminando empregos em ritmo acelerado, que formados universitários acumulam dívidas trabalhando em funções que não exigem seus diplomas, a pergunta "para que estudar?" deixa de ser retórica. Ela se torna existencial.

 

O contrato implícito que sustentou gerações — estude, obtenha credenciais, acesse oportunidades, construa uma vida estável — depende de uma crença de que as oportunidades ainda existem do outro lado. Quando esse contrato se mostra seletivo, válido principalmente para quem já nasceu com conexões e capital, a descrença não é fraqueza de caráter. É lucidez.

E é nesse vácuo de sentido que o crime organizado encontra seu recrutamento mais eficaz. Não porque os jovens brasileiros sejam moralmente inferiores às gerações anteriores, mas porque o tráfico oferece o que a economia legítima cada vez menos proporciona aos que nasceram sem rede de proteção: renda imediata, uma hierarquia clara para escalar, prova visível de que o esforço produz resultado e — talvez o mais sedutor de tudo — um sentido de pertencimento e identidade em comunidades onde o Estado aparece principalmente sob a forma de violência policial.

Dizer a um jovem da periferia que o crime não compensa soa vazio quando ele pode apontar para bancos que socializaram prejuízos bilionários sem que nenhum executivo fosse à cadeia, para um sistema político que atravessou escândalos sucessivos e se reconstituiu praticamente intacto, para uma justiça que age com velocidades muito diferentes dependendo do sobrenome do réu. A hipocrisia é visível. E os adultos que fingem que não é perdem a credibilidade antes mesmo de terminar a frase, quando quase todos souberam que Elon Musk disse recentemente que a IA está pronta para acabar com a metade dos empregos.

O que resta então? Talvez a única conversa honesta possível seja aquela que não promete um mundo justo — porque ele não é — mas que distingue entre a raiva legítima diante da injustiça e as escolhas que essa raiva pode inspirar. A blindagem estrutural que protegeu executivos e políticos em escândalos sucessivos não está disponível no tráfico. O que o crime organizado vende é a estética do poder — o dinheiro rápido, o respeito imediato — sem nenhuma da proteção que mantém os verdadeiramente poderosos relativamente intocáveis. Isso não é justiça. Mas é a realidade de onde as paredes efetivamente estão.

A pergunta mais profunda, porém, não é como convencer jovens a seguir um sistema em que não confiam. É como reconstruir um mundo em que a confiança seja merecida. Enquanto bancos sistemicamente importantes são resgatados e seus credores protegidos, enquanto os arquivos continuam sendo abertos, revelando cumplicidades que atravessam fronteiras e classes sociais, essa reconstrução parece distante. Mas reconhecer honestamente o tamanho do problema é, pelo menos, um começo mais digno do que continuar repetindo roteiros que ninguém mais acredita.

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IMAGEM: Freepik

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