O pulo do gato
Sem a emenda da reeleição, Mário Covas teria sido o candidato do PSDB. em 1998, e provavelmente teria chegado à Presidência da República
Mário Covas não foi eleito presidente da República, em 1998, quando ele e seu partido eram favoritos para ganhar a eleição, segundo as pesquisas, porque foi vítima do "golpe" da reeleição tramada pela equipe principal que assessorava o presidente Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto, sob a liderança do Ministro de Comunicações, Sérgio Motta, o homem que também cuidava das finanças das campanhas do PSDB.
Havia um acordo no PSDB para que Fernando Henrique fosse o candidato a presidente em 1994, por ser Ministro da Fazenda e beneficiário número um do sucesso do Plano Real, criado pelo presidente Itamar Franco.
O acerto entre tucanos da cúpula garantia a Covas o direito de ser o candidato na eleição seguinte. Talvez por esse motivo, Covas nunca apoiou a ideia de introduzir na Constituição a reeleição de chefes do Executivo, ou seja, prefeitos, governadores e presidente da República.
Ele sabia que, se apoiasse a tese da reeleição, seria enganado pelos fernandistas com fome de Poder.
Com o êxito do Plano Real, o ministro Fernando Henrique foi eleito presidente pela primeira vez em 94, derrotando Lula, e não demorou para que seu Ibope subisse nas nuvens e mexesse com sua vaidade, atiçando seu apego ao poder.
De posse de uma pesquisa amplamente favorável, FHC chamou a sua sala seu ministro político, Sérgio Motta, passando a ele a orientação de que era o momento exato de o Congresso aprovar a Emenda Constitucional da reeleição.
Começava naquele instante a "traição" do partido a Mário Covas, pois Sérgio Motta era um amigo fiel do presidente e não costumava brincar em serviço.
A tarefa de Motta não era de fácil solução, pois a maioria dos congressistas não desejava implantar a reeleição de chefes do Executivo. A resistência maior era a do PT, que sentia na jogada do Palácio do Planalto a criação de um grande empecilho que dificultaria a campanha de Lula à sucessão de Fernando Henrique.
Mal sabiam os petistas, no entanto, que nos anos seguintes a reeleição seria benéfica ao PT e desastrosa ao PSDB.
Para quebrar a resistência de deputados e senadores que eram contrários à reeleição, Sérgio Motta usou métodos variados para virar o jogo no Congresso e satisfazer a volúpia de poder da ala do partido ligada a Fernando Henrique.
Houve muito tititi na Câmara e Senado e muito falatório nos partidos, não tardando para que o eleitorado fosse surpreendido pelas versões maldosas de que o tucanato estaria usando de processo malcheiroso para aprovar a emenda da reeleição.
A denúncia mais grave foi a de que parlamentares estavam vendendo seus votos ao PSDB. Por se tratar de emenda constitucional, o governo precisaria da maioria absoluta de votos dos congressistas se quisesse aprovar a decantada emenda.
A emenda acabou sendo aprovada sob protesto do PT. Anos mais tarde, porém, o PT usaria o direito à reeleição conseguida pelo PSDB para se manter 16 anos no Poder, contra 8 dos tucanos.
Houve investigação sobre a denúncia da compra de votos de parlamentares, mas nenhum tucano foi, uma vez mais, julgado.
Os métodos misteriosos usados por tucanos e partidos aliados para conseguir aprovar a emenda que deu mais quatro anos de poder a Fernando Henrique foram hermeticamente guardados a sete chaves por Sérgio Motta, cuja morte repentina, porém, levou para o túmulo toda a verdade que coroou a trama urdida contra Mário Covas.
Até hoje, Fernando Henrique fica indignado quando os petistas o acusam de ter comprado a reeleição.
Recentemente, o Congresso começou a discutir e a votar timidamente o projeto de reforma política, e uma das principais mudanças foi a de acabar com a reeleição dos prefeitos, governadores e presidente da República.
O fim da reeleição não agradou muito o senador Aécio Neves, que está convencido de que será eleito presidente da República em 2018, devido à perda de popularidade do PT, em função da crise que afoga o País.
Apesar de seu otimismo, Aécio pode ser surpreendido pela decisão de José Serra e Geraldo Alckmin de mudar de partido para serem candidatos ao Planalto.
Os dois tucanos sabem que não terão chance no PSDB, já que a legenda presidencial do partido já foi confiada ao senador mineiro. Serra e Alckmin podem ser candidatos pelo PMDB e PSB, respectivamente.
Se as candidaturas de Serra e Alckmin se confirmarem, a votação de Aécio Neves em São Paulo será implodida.

