O relógio invisível da sociedade brasileira

Por 12 anos seguidos, os brasileiros buscam as mesmas palavras de solidariedade nos mesmos momentos do ano — e isso pode mudar como você toma decisões

Alfredo Behrens
14/Abr/2026
Professor da FIA Business School
  • btn-whatsapp
O relógio invisível da sociedade brasileira

Imagine que você descobre que a disposição das pessoas para pensar coletivamente — para agir juntas, apoiar causas, construir vínculos — não é aleatória. Que ela sobe e desce como a maré, com uma periodicidade surpreendentemente estável. E que esse ritmo atravessa governos, crises econômicas e pandemias sem se alterar.

É exatamente o que uma análise de dados do Google Trends para o Brasil sugere. Pesquisadores examinaram como os brasileiros buscam palavras do campo da solidariedade — termos como solidariedade, participação, relação e inclusão — ao longo de dois anos separados por uma década: 2013 e 2025. O resultado foi desconcertante pela sua regularidade.

O ritmo coletivo dos brasileiros não mudou em 12 anos. Ele pulsa a cada 25 semanas — independente de quem governa ou do que acontece nas ruas.

O que os dados mostram

Em ambos os anos, as quatro palavras exibiram o mesmo ciclo dominante: aproximadamente 25 semanas — cerca de seis meses. A sociedade brasileira parece oscilar entre dois momentos de maior abertura coletiva por ano, separados por um vale no meio do caminho. A análise estatística confirma que isso não é coincidência: a probabilidade de o padrão ser aleatório é inferior a 5% em todos os casos testados.

O pico da primavera cívica ocorre tipicamente entre março e maio. O vale de junho-julho é consistente em ambos os anos — as buscas caem 30 a 40 pontos no índice. A retomada do outono emerge entre agosto e novembro, frequentemente superando o primeiro pico em intensidade.

O que mudou entre 2013 e 2025 não foi o ritmo, mas o patamar: os brasileiros de 2025 usam essas palavras com frequência permanentemente mais alta do que em 2013. O piso subiu cerca de 20 pontos. As Jornadas de Junho podem não ter criado o ciclo, mas parecem ter elevado definitivamente o nível em que ele oscila. 

Por que isso acontece?

A hipótese mais intrigante aponta para fatores astronômicos. O período de 25 semanas coincide com aproximadamente metade do ano solar e com o espaçamento entre as duas estações de maior atividade geomagnética — fenômenos ligados ao comportamento do Sol e ao campo magnético da Terra. Pesquisas anteriores, publicadas em periódicos de epidemiologia e neurociência, sugerem que variações geomagnéticas podem influenciar o comportamento humano por mecanismos biológicos relacionados à melatonina e à atividade do sistema nervoso.

A ideia não é nova nem fringe: o efeito do ambiente geomagnético sobre organismos vivos — de pássaros migratórios a baleias— está documentado na literatura científica. O que é novo aqui é a sugestão de que esse efeito pode modular estados coletivos de predisposição à cooperação em escala populacional.

O que isso significa na prática

Se o ciclo é real e estável, ele tem implicações diretas para quem precisa mobilizar pessoas. Para empresas e marcas:  campanhas que dependem de engajamento coletivo — causas sociais, lançamentos comunitários, programas de fidelidade baseados em pertencimento — têm desempenho estruturalmente melhor quando lançadas durante os picos de março-maio ou agosto-outubro. O vale de junho-julho é, historicamente, o pior momento para pedir às pessoas que pensem e ajam juntas.

Para a política e movimentos sociais: mobilizações, petições, campanhas de filiação e narrativas de unidade nacional encontram terreno mais fértil nos períodos de cima. As Jornadas de Junho de 2013 eclodiram exatamente quando o ciclo começava a descer — o que pode explicar parcialmente por que a explosão inicial não se converteu em organização duradoura.

Para negociações e decisões coletivas: reestruturações organizacionais, acordos coletivos de trabalho, consultas comunitárias e fusões com forte componente cultural têm maior probabilidade de obter adesão genuína quando propostas durante os períodos de alta — e maior resistência quando impostas no vale de julho.

Junho e julho são, historicamente, o pior momento para pedir às pessoas que pensem e ajam juntas.

O que ainda não sabemos

Os dados não permitem ainda separar o efeito do calendário institucional — ano letivo, calendário fiscal, festas religiosas — do efeito geomagnético. Ambos podem estar contribuindo, e podem até se reforçar mutuamente. O que a análise demonstra com clareza é que o padrão é robusto demais para ser explicado apenas pela política do momento.

A próxima etapa da pesquisa é testar se o mesmo ciclo aparece em outros países e se ele prediz não apenas buscas na internet, mas comportamentos mensuráveis: doações, participação eleitoral, adesão a movimentos, decisões de consumo colaborativo. Por enquanto, o relógio existe. E ele parece estar funcionando há pelo menos doze anos — silenciosamente, independente de quem está no poder.


Nota metodológica

A análise utilizou o periodograma de Lomb-Scargle (biblioteca astropy) sobre séries semanais do Google Trends para o Brasil, cobrindo os anos de 2013 e 2025. Foram testadas as palavras solidariedade, participação, relação e inclusão. A significância estatística foi avaliada por bootstrap (n=500 permutações). Todas as dez séries analisadas apresentaram p < 0,05, com período dominante entre 24,1 e 25,3 semanas (média: 25,0 ± 0,3 semanas). A palavra reconhecimento foi excluída por não atingir significância em nenhum dos dois anos.


IMAGEM: Freepik gerada por IA

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada