O tempo é o senhor da razão
Na hipótese de Temer se consolidar na presidência, o PMDB se encarregaria de cavar a sepultura para enterrar a candidatura de Aécio em 2018
Duas coisas distintas são notadas por aqueles que fazem a leitura com imparcialidade do quadro político-eleitoral de hoje:
1- a falta de entusiasmo de Lula em defender a presidente Dilma Rousseff do bombardeio diário que sofre, há um ano, das oposições lideradas pelo PSDB e da imprensa;
2- a falta de empolgação do senador Aécio Neves em apoiar com mais ênfase o pedido de impeachment de Dilma.
Lula não deseja que a presidente seja cassada, seja pelo Congresso, TSE ou tapetão; mas, se o impedimento vier com cara de golpe, e o vice Michel Temer assumir a presidência, Lula não se fará de arrogante e, horas depois, vai cair na oposição ao novo governante. Ninguém conhece tanto a arte de fazer oposição, como ele.
Se Michel Temer também for impedido de substituir Dilma na vacância do cargo, caberá ao TSE marcar nova eleição num prazo de 90 dias.
Serão três meses de campanha de Lula e Aécio, candidatos certos em terminar o mandato iniciado por Dilma.
Nesse caso, até que chegue a eleição, o presidente interino da República seria o primeiro na linha da sucessão, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha; na sua falta, tomaria posse no cargo o segundo com direito constitucional, o presidente do Senado, Renan Calheiros. A terceira opção, ainda de acordo com a linha sucessória, é o presidente do STF, ministro Ricardo Levandoviskyi.
Detalhe: o senador Delcídio do Amaral foi preso porque o STF entendeu que ele estava interferindo no julgamento e condenação de presos na Operação Lava-Jato.
Como também está intercedendo no julgamento do Conselho de Ética na Câmara, aproveitando-se do cargo que ocupa, também Eduardo Cunha não está livre de sofrer um pedido semelhante de prisão nos moldes do de Delcídio.
Cunha é acusado de estar interferindo diretamente no julgamento do processo em que é acusado de falta de ética, podendo perder o mandato por ter mentido na CPI da Petrobrás, ao declarar que não tinha depósitos bancários na Suíça.
A falta de empolgação de Aécio em defender o afastamento da presidente Dilma tem lógica: na hipótese de Temer se consolidar na presidência, o PMDB se encarregaria de cavar a sepultura para enterrar a candidatura de Aécio em 2018, porque José Serra seria o candidato ao Palácio do Planalto pelo PMDB, prejudicando sensivelmente a votação do senador mineiro na região Sudeste, principalmente em São Paulo, colégio eleitoral nº 1 do País.
Pior ainda ficaria a situação de Aécio se também o governador Geraldo Alckmin for candidato pelo PSB.Por que Aécio, Serra e Alckmin insistem em ser candidatos em 2018? Porque os três acham que já ganharam a eleição, entendendo que enfrentariam um Lula enfraquecido pela crise e pela perda de pontos nas pesquisas Ibope e Datafolha.
Todos eles acreditam nos colunistas de jornais e revistas e comentaristas de rádio e televisão que abraçaram perigosamente a tese de que Lula "está politicamente morto", esquecendo-se de que eleição se ganha com voto e não com trololó, como diz José Serra.
O cenário político que o País passou a conviver depois de conhecido o resultado da eleição de 2014, é semelhante ao período do pós-eleição em 1930. Os dois episódios tem como principais personagens os candidatos que perderam as duas eleições: Getúlio Vargas e Aécio Neves.
Assim que o paulista Júlio Prestes bateu Getúlio nas urnas, o candidato derrotado começou a denunciar fraude que teria beneficiado o adversário. As denúncias de Getúlio, porém, tinham o respaldo dos ministros militares e minaram tanto a vitória de Júlio Prestes, que o candidato que foi vitorioso democraticamente nas urnas, foi impedido de tomar posse.
Com isso, Getúlio assumiu o governo para exercer um mandato-tampão que acabou tendo a duração 15 anos, com o País se alimentando de uma ditadura que não deixou saudade. Deixou perseguições, mortes e prisões.
Em outubro do ano passado, Dilma Rousseff venceu Aécio Neves na tangente, por uma diferença mínima de votos. Foi o suficiente para o PSDB desconfiar de fraude nas urnas eletrônicas, exigindo que o TSE determinasse uma verificação nos mapas eleitorais. Nada de irregular foi constatado pela Comissão indicada pela justiça eleitoral para rastrear os votos registrados nas urnas.
Em seguida, o PSDB encaminhou representação ao TSE, pedindo anulação da eleição, acusando a chapa de Dilma e Temer de ter feito campanha praticando crime de abuso econômico. O PSDB chegou a pedir à justiça eleitoral que se desse posse a Aécio Neves, por ter sido o segundo colocado na eleição. Mas, essa tese não vingou.
Ao mesmo tempo, os tucanos incentivaram vários pedidos de impeachment da presidente Dilma encaminhados no Congresso, colaborando para "envenenar" mais ainda o ambiente político do País, já tumultuado com as investigações na Operação Lava-Jato que ainda hoje prende políticos e empreiteiros envolvidos sobretudo no escândalo das propinas na Petrobrás, atingindo em cheio os governos de Lula e Dilma.

