O tempo não apaga a história
O coronel Erasmo Dias, um mais fanáticos do regime militar, e o então líder da luta armada Franklin Martins, futuro ministro de Lula
O jornalista Franklin Martins e os petistas José Dirceu e José Genoíno, e mais os líderes estudantis que se destacaram nas promoções das passeatas e manifestações de protestos aos governos militares, nos anos 70 - portanto, após a edição do AI-5 - estavam presos na mesma cela no quartel do Exército do Forte de Itaipu, em Praia Grande, litoral sul de São Paulo.
Considerados presos políticos, estavam todos encarcerados sob a vigilância do coronel Erasmo Dias, que era o comandante do quartel e que se notabilizou, entre militares e civis, como o "mais fanático caçador de comunistas".
O coronel Erasmo caçava comunistas até na bainha da calça dos membros do CCC. Ele era conhecido na cidade de Santos, onde morava, como o principal porta-voz da "revolução" de 64 na Baixada Santista. Santos era considerada pelos militares a "Moscou brasileira".
Erasmo Dias veio a ser Secretário de Segurança no governo Paulo Egídio Martins e foi ele quem ordenou a invasão policial da PUC para desalojar estudantes amotinados que pretendiam realizar um Congresso considerado ilegal pelos militares "revolucionários".
A invasão foi irrigada por bombas atiradas pelos policiais, e diversos estudantes tiveram queimaduras pelo corpo. Anos mais tarde, Erasmo confessou arrependimento por seu gesto tresloucado.
No quartel de Itaipu, o coronel Erasmo Dias deixou registrada sua marca de militar valente e de gozador irreverente.
Sob a liderança de Franklin Martins, os presos se perfilavam em fila indiana todos os dias, às 6 da manhã, assim que eram acordados pelo som do clarim do sentinela de plantão e, num gesto de provocação, cantavam o Hino da Internacional Socialista.
Os presos faziam questão de cantar o hino em louvor aos comunistas em voz alta, para o coronel ouvir em seu gabinete de comando. O objetivo do grupo era o de mexer e irritar Erasmo.
Quando os presos acabavam de cantar o hino socialista, o coronel Erasmo deixava sua sala e, a passos de soldado socando o chão, se dirigia à cela e obrigava Franklin Martins a colocar seus companheiros também em fila indiana para cantar o Hino Nacional com a mão direita cobrindo o peito na altura do coração.
Certa vez, abusando do direito de ser irônico, Erasmo Dias entregou uma metralhadora (desarmada) a Franklin Martins, perguntando se ele era bom de gatilho.
Em seguida, o coronel pediu ao jornalista que atirasse num imenso alvo, um morro mergulhado nas águas azuis do mar. A metralhadora pesou nas mãos trêmulas de Franklin que, imediatamente, devolveu a arma ao coronel, Franklin Martins, anos depois, ocupou o Ministério de Comunicações no governo do presidente Lula.
O coronel Erasmo Dias se notabilizou também por comandar uma expedição de soldados na caça ao capitão Carlos Lamarca, que havia desertado do Exército para integrar a luta armada e que, em fuga, se enfronhara nas matas de Registro, cidade encravada no Vale do Ribeira.
Os soldados que caçavam Lamarca sabiam que o capitão desertor era exímio atirador, capaz de acertar um pequeno alvo a muitos metros de distância. No quartel, Lamarca chegou a ser professor de tiro, tal era sua precisão.
Era natural, portanto, que alguns dos soldados mais inexperientes sentissem medo de enfrentar Lamarca no matagal. Nos relatórios que preparou sobre sua caça ao capitão, que logo se tornou ídolo dos terroristas, Erasmo chegou a contar que um dos soldados se escondeu no mato ao saber que Lamarca estava escondido nas proximidades de seu acampamento.
Detalhe: na pressa de fugir para não entrar na alça de mira de Lamarca, o soldado estava só de cueca.
PS: essa história me foi relatada pelo próprio coronel Erasmo Dias, num encontro fortuito que tivemos na sala do café da Assembleia Legislativa. O coronel Erasmo exercia o mandato de deputado e eu era repórter credenciado na Casa pelo Jornal do Brasil.

