Os bancos são realmente o problema?

Em xeque, o argumento de que a fragilidade deles é o principal obstáculo à recuperação da Europa

Paul Krugman
27/Nov/2015
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Para aqueles de nós que tanto nos preocupávamos com a economia do Japão em fins dos anos 90, o déjà vu acontece com tanta frequência que é déjà vu em cima de déjà vu.

Exemplo disso é a ascensão e a queda da culpa lançada sobre os bancos europeus ? isto é, o argumento de que a fragilidade deles é o principal obstáculo à recuperação da Europa.

No "Alphaville", blog do Financial Times, Matthew Klein analisou recentemente os argumentos por trás dessa ideia e ficou surpreso ao constatar que há pouco respaldo para essa história de malvadez dos bancos, embora todo o mundo a repita por aí (leia aqui).

Retomando meu paper de 1998 para a Brookings Institution em que analiso a situação do Japão, e que foi mais ou menos por onde entrei no debate (aqui), observamos que naquela época quase todo o mundo acreditava que a incapacidade da expansão da base monetária de se infiltrar no crédito bancário era prova de que havia um sistema bancário disfuncional no âmago do problema japonês.

Contudo, eu disse que a ausência de resposta dos agregados monetários era exatamente o que se podia esperar de uma armadilha de liquidez (p. 174-177), e que havia poucos indícios (p. 174-177) de que os problemas bancários fossem decisivos para a fragilidade da economia.

Portanto, é déjà vu sobre déjà vu novamente. 

Busca desesperada de consenso

Tem um pessoal bacana no portal de análises econômicas Vox EU empenhado num esforço louvável de limpeza de terreno para a reforma do euro, a começar pela formulação de uma "narrativa de consenso" acerca das origens da crise da moeda comum (leia o post aqui).

A ideia é ótima: o jeito que você pensa no passado tem um papel muito importante na maneira como você acha que as coisas devem acontecer a seguir.

Além disso, a narrativa dos autores me pareceu correta. Não, o desastre da zona do euro não teve a ver com irresponsabilidade fiscal, ou com a incapacidade de se fazerem reformas estruturais, ou com os efeitos debilitantes do estado de bem-estar, ou com quaisquer outras histórias propostas por analistas entusiasmados.

A crise foi do tipo "parada súbita", em que fluxos imensos de capital nas economias periféricas da zona do euro estancaram abruptamente, o que precipitou uma situação de dificuldades terríveis. As questões fiscais foram consequência, e não causa do desgaste financeiro.

Será que os analistas da Vox EU chegarão ao consenso que estão buscando? É muito importante que eles tentem. É óbvio, porém, que muita gente dentro e fora da zona do euro tem interesses pessoais em outras narrativas.

As autoridades alemãs vão parar de insistir que as dificuldades da Europa se devem todas a um quadro fiscal pródigo?

Será que Osborne [ministro das Finanças do Reino Unido] & Cia. ? ou, a propósito, os ranhetas fiscais dos EUA ? vai aceitar uma narrativa em que a participação na zona do euro foi um elemento crucial da derrocada, pondo por terra suas advertências de que o Reino Unido ou os EUA se transformarão em uma Grécia se não adotarmos uma política de austeridade agora, já, imediatamente?

Tenho minhas dúvidas, para dizer o mínimo.

TRADUÇÃO: A.G.MENDES

CLIQUE ABAIXO PARA LER A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

Paul Krugman 27/11

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