Os paradoxos da vida e do seu negócio
Há uma tendência a nos perdermos nos nossos objetivos, sobrevalorizarmos nossa posição e deixar de observar o cenário. Mas é preciso que todos possam fazer planos, projetar um futuro melhor e ter tempo para viver além da empresa. Em todos os níveis. Você está praticando isso?

“Só sei que nada sei”. Segundo Platão, essa era uma frase de Sócrates. Acredito que todo ser humano já a ouviu alguma vez na vida. Quando olho em volta, tendo a acreditar que as pessoas não a levam a sério, ou então, se levam a sério demais. Li 'O julgamento de Sócrates' na década de 1990 e nada lembro. O filósofo foi condenado a beber cicuta porque incitava os jovens e não acreditava nos deuses da cidade. Mesmo sem lembrar do conteúdo do livro, é possível deduzir que houve um lado político em tudo aquilo. Confesso que não sei se a justiça já era cega...
Mas falo de Sócrates para falar do economista Richard Easterlin. Buscava inspiração para a coluna e, depois de duas delas falando sobre o machismo, misoginia e efeitos deletérios do patriarcado, pensei que deveria mudar de assunto, por mais que os acontecimentos me motivassem a ir além. Voltarei a ele porque as coisas regrediram, e quando caminham para frente, o fazem muito devagar. No jornal de hoje, lia o artigo da Marta Watanabe com o professor Flávio Ataliba questionando se dinheiro traz felicidade. Para você traz? Foi pela grana que montou o seu negócio?
É uma seara interessante. Primeiro é preciso acreditar na felicidade. Eu não seria convocado para defender esse time. Sorrio com certa frequência, me divirto, sou mais irônico do que contador de piadas, ou seja, tenho ótimos momentos na vida, mas sou daqueles que classifica a felicidade como uma ilusão, até mesmo um desvio perigoso que impõe consequências mais negativas e pesadas do que soluções para um sorriso. Nisso, sou do time do Contardo Calligaris, que dizia preferir uma vida interessante a uma vida feliz. Mesmo se discordar dele e de mim siga na leitura, tento apresentar pontos concretos.
Ainda na mesma linha, você quer ficar milionário, convenhamos que para se tornar bilionário é necessário uma carga adicional de sorte ou, dependendo do caso, regras morais mais frouxas, ou então eternizar um legado, seja um produto, um nome, o que te fizer sentido? Richard Easterlin viveu até os 98 anos e deixou seu nome no Paradoxo de Easterlin e na Hipótese de Easterlin... Convenhamos, não é pouco. E quase virou centenário produzindo seus livros. Fez mestrado e doutorado na Universidade da Pensilvânia, onde atuou como professor. Lecionou também em Stanford e depois na USC, todas universidades de primeiríssima linha em padrão global.
Não faço a menor ideia se construiu família e se deixou bens para eles. Deduzo que não precisava de show particular do Coldplay para cantarolar: “Eu costumava dominar o mundo / Oceanos se abriam quando eu ordenava / Agora pela manhã durmo sozinho / Varro as ruas que já foram minhas... Nunca houve uma palavra honesta / Mas isso foi quando eu dominava o mundo." O tal Paradoxo de Easterlin diz que, embora os mais ricos sejam geralmente mais felizes que os pobres dentro de um país (renda relativa), o aumento da renda média de uma nação ao longo do tempo não equivale a um aumento correspondente na felicidade média da população (renda absoluta) após um certo nível básico de riqueza.
Ou seja, a partir de um determinado patamar, a grana faz pouca diferença. Não sei se Easterlin andou por aqui ou em outras sociedades com nível de desigualdade equivalente. Sim, ele foi contestado, e como disse, eu nem acredito em felicidade, mas julgo importante esse tipo de dúvida que apresentou e demonstrou.
A psicanálise é cheia de paradoxos, mas não utilizou a palavra para nomear nenhum deles. Com relação ao prazer, Freud descobriu que as pessoas repetem experiências dolorosas. Com relação ao sintoma, observou que, se ele causa sofrimento, também traz um prazer inconsciente. Nós queremos nos livrar dos sintomas, mas também gozamos com ele.
Quem procurar no Vocabulário de Laplanche e Pontallis não encontrará a palavra 'paradoxo', nem no Dicionário da Roudinesco. Mas Jacques Lacan dizia que “o sujeito não é senhor de si”, que “o desejo é o desejo do outro” e a clássica definição de amor: “amar é dar o que não se tem a quem não o quer”.
Ou seja, o buraco é sempre mais embaixo. Há uma tendência a nos perdermos nos nossos objetivos, sobrevalorizarmos nossa posição e deixar de observar o cenário. Por isso muitas vezes fica difícil manter o objetivo: simplesmente porque ele não faz mais sentido. Mas o que fazer se ele foi espalhado, no bom sentido compartilhado, com o restante do time?
A psicanálise olha para o sujeito, tenta encontrar maneiras dele se ver consigo mesmo, assumir suas ações e deixar de responsabilizar os outros. Ser um empreendedor requer muita resiliência, para utilizar uma palavra da moda, requer a disposição de matar um leão por dia. Mesmo que saibamos que não se pode mais destruir a natureza, as nossas metáforas precisam mudar, serem menos violentas e bélicas.
A psicanálise pode fazer pouco contra as guerras, porque os indivíduos que as causam têm absoluta convicção de sua inutilidade. Nós daqui temos convicção contrária, não podemos oferecer promessa de solução, apenas que funciona muito bem para os neuróticos. Foi depois de Freud que ela se expandiu para outras estruturas. Olhar para o Paradoxo de Easterlin nos dias de hoje é questionar o consumo desenfreado, o nível absurdo de desigualdade e a inevitável comparação com o entorno. Ou seja, se prepare para a próxima cerveja com os colegas empreendedores ou a próxima reunião no sindicato.
Nem tudo se compra, por mais que esteja difícil acreditar nisso no Brasil de nossos dias. É preciso entender, como sociedade, que todos os membros, seguranças, carros blindados e filmes escuros não resolvem a questão: são uma falsa proteção. É preciso que todos possam fazer planos, projetar um futuro melhor e ter tempo para viver além da empresa. Em todos os níveis. Você está praticando isso? Já recomendei na coluna o Autoengano do Eduardo Giannetti? Até onde está disposto a ir? É pelo banco, pelo nome, pela realização? Uma confusão aí pode sair muito cara! E não há preço que a pague.
IMAGEM: Freepik
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

