Os sociais desenvolvimentistas, os heterodoxos e nós

Será que aqueles que elaboraram o documento da Fundação Perseu Abramo imaginam que não sabemos que foi precisamente a estratégia que estão agora propondo que nos levou à situação em que nos encontramos?

Roberto Fendt
02/Out/2015
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 A Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, lançou segunda-feira passada (28/09) documento em que critica duramente a política econômica da presidente Dilma Rousseff. Para quem não leu, vai aqui um breve resumo.

 No documento, os economistas da Fundação consideram que o diagnóstico que fundamenta as medidas de ajuste adotadas pelo governo -corte de gastos e restrições à expansão do crédito-- é "equivocado" ao analisar a situação da economia do País.

Com a premissa de que o diagnóstico é equivocado, não surpreende que as conclusões do documento apontem que é necessária uma opção ao ajuste em curso.

 Qual seria, então, a alternativa proposta? Para Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, devemos começar repudiando o que chamou de "terrorismo curto-prazista". Seria essa visão equivocada e dominada pelo curto prazo que nos impede de pensar grande e inverter as prioridades. Essas deveriam privilegiar o crescimento, em lugar de sacrificá-lo em prol do ajuste.

 Se assim fizermos e retomarmos o crescimento "na marra", o próprio crescimento geraria o aumento da receita tributária que eliminaria o déficit fiscal e criaria um círculo virtuoso que lavaria à felicidade geral.

 Estariam corretos os mais de cem especialistas que elaboraram o documento? Toda essa sabedoria econômica deveria ser ignorada e sustentada a estratégia de ajuste que querem implantar?

Não deixa de ser pitoresco, para não dizer patético, que a centena de autores do documento julgue que não há cabeças pensantes no País e que somos um povo de cretinos.

Ou será que imaginam que não sabemos que foi precisamente a estratégia que estão agora propondo que nos levou à situação em que nos encontramos?

 A indigência do documento é tal que motivou o professor da UFRJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira a repudiar o conteúdo da análise do documento e suas conclusões.

A Associação é formada por profissionais que são considerados heterodoxos e que divergem de alguns dos fundamentos da orientação do ministro Joaquim Levy e sua equipe, mas cujas competências não estão em questão.

Qual o conteúdo das críticas de Oureiro ao documento elaborado sob a orientação de Márcio Pochmann? Para a Associação Keynesiana Brasileira, há causas estruturais e conjunturais para a crise por que passamos.

A causa estrutural mais importante seria a perda crescente de competitividade da indústria de transformação brasileira: a produtividade está estagnada há pelo menos cinco anos.

A isso soma-se o aumento dos salários acima do aumento da produtividade e a valorização do câmbio durante os governos do PT.

Dessa combinação de fatores resultou a queda da rentabilidade dos investimentos na indústria, que situou-se, na maior parte dos últimos cinco anos, abaixo da taxa básica de juros.áaa

Deveria surpreender alguém que o empresário privado deixasse de investir diante desse quadro? Se adicionarmos as incertezas da política econômica nos últimos cinco anos, o círculo se fecha: a crise e a recessão eram mortes anunciadas.

 Há também causas conjunturais que potencializaram os efeitos dos problemas estruturais que se acumularam ao longo dos últimos 13 anos, como a queda dos preços das preços das commodities.

A tudo isso somaram-se os inúmeros erros de política econômica, o ultimo dos quais levou à perda do grau de invetimento soberano do País por uma das agências de avaliação de risco e que logo será seguida pelo rebaixamento de nossas notas pelas demais agências.

 Por fim, o que ocorreria se o receituário da Fundação Perdeu Abramo fosse adotado pela senhora presidente? Duas consequências são fáceis de prever.

A primeira seria uma forte pressão sobre o câmbio, forçando o Bsnco Central a elevar mais ainda a taxa de juros -- efeito oposto ao desejado pelo senhor Pochmann e seus seguidores.

 A segunda seria uma forte perda de reservas internacionais, sancionando a desvalorização do real. Em decorrência da desvalorização e do aprofundamento da percepção de que a economia estaria à deriva, a inflação aceleraria, trazendo de volta a indexação  generalizada dos preços. Voltaríamos ao mundo pré-Plano Real, com todas as suas consequências.

Diante do que foi dito, qual é a real intenção do documento da Fundação? Estarei vendo fantasmas ou pretendem derrubar a senhora presidente da República?

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