Passado e “presentes”
A memória é uma coisa misteriosa: ganhamos presentes caros, itens da moda, “lembrancinhas”, mas, ao menos no meu caso, quando recordo a minha infância, os presentes de que mais me lembro são os que não ganhei

“Neste Natal, eu trouxe um presente muito especial para você. Um presente um pouco diferente do que você pediu, pois não encontrei todos os materiais para construir seus bonecos. Mas tenho certeza que você vai gostar do novo presente que eu fiz.”
Foi essa a desculpa do Papai Noel por não ter deixado para meu filho de seis anos uns bonecos articulados do Pokémon que ele pediu de Natal e que só são vendidos na China.
Poderíamos ter tentado explicar na carta as dificuldades logísticas, a crise dos Correios, mas, para meu filho, é o próprio Papai Noel que cuida de todo o processo, da compra dos insumos à distribuição dos brinquedos, de forma que, para não gerar suspeitas sobre a existência do bom velhinho, a desculpa da falta de materiais nos pareceu mais convincente (e, de fato, funcionou!).
O incidente acabou me levando de volta ao passado, à tentativa de recordar presentes que ganhei de Natal e também nos Dias das Crianças e aniversários da infância e juventude. A primeira lembrança que me veio, contudo, foi de presentes que não ganhei. Como assim? Explico.
Nas noites de Natal, quase todos os adultos, tios, tias, avós, tinham o hábito de presentear as crianças com “lembrancinhas”. Digo quase todos, pois, logo depois de termos recebido os presentes, uma tia costumava nos chamar de canto e dizer que os presentes dela seriam entregues no Dia de Reis (06 de janeiro), que era o dia certo de presentear, afinal era o dia em que os Três Reis Magos levaram presentes para o recém-nascido Menino Jesus, ora!
Passava o Natal e é claro que não ganhávamos nada no Dia de Reis. Se isso gerou algum tipo de frustração, não me recordo. Lembro, por outro lado, que a história se repetiu por muitos natais, acabou virando uma espécie de anedota familiar e hoje é uma lembrança carinhosa que guardo da infância e da minha tia, já falecida (Das “lembrancinhas, por outro lado, não me lembro de nenhuma).
Tive também um tio que costumava presentear meu irmão, seu afilhado, com itens que podemos classificar, no mínimo, como exóticos (ao menos quando dados a uma criança de quatro ou cinco anos). Em uma ocasião, meu irmão ganhou dele uma bússola de mão. Em outra, uma gaita profissional. Em outra, uma charmosa ampulheta de areia (Hoje, mais velho, esses presentes me parecem carregar uma profunda carga filosófica...).
Por muito tempo, eles ficaram guardados numa gaveta no quarto que eu dividia com meu irmão. E duraram muito mais do que muitos outros brinquedos que rapidamente quebraram ou saíram de moda. Às vezes até arriscávamos umas notas na gaita, saíamos caminhando com a bússola nas mãos. Com certeza meu irmão e eu ganhamos brinquedos mais caros, objetos de desejo das crianças da época, mas, curiosamente, é da bússola e da gaita que mais me lembro quando tento recordar presentes do passado. E elas nem foram dadas para mim, vejam só.
Em termos de recordação, os presentes exóticos do meu tio só perdem para um CD que ganhei de aniversário, já na adolescência, de uma namorada do meu avô. E o que havia, afinal, nesse CD, para ter ficado assim tão gravado na minha memória? Havia, pois, uma boa história!
O ano era 2000, o Djavan tinha lançado há pouco seu famoso álbum duplo ao vivo, que se tornou uma verdadeira febre entre meus amigos e eu. Meu aniversário estava chegando e, pelo que fiquei sabendo depois, a namorada do meu avô ligou para minha mãe dias antes pedindo uma dica de presente, perguntando que tipo de música eu gostava, e minha mãe jura (jura!) que respondeu algo direto e simples como “Ele gosta de Djavan”.
Pois bem. No dia da festa, estava lá eu com meus amigos na sala de casa quando uma senhorinha se aproxima timidamente, me deseja feliz aniversário e entrega um pequeno embrulho. Provavelmente antevendo algo inusitado, todos os meus amigos simplesmente interrompem seja lá o que estavam fazendo para observar a abertura do pacote.
Relembrando a cena em câmera lenta, posso rever a minha cara de irônica incompreensão, “sua mãe disse que você gosta muito”, meu olhar ao redor, meus amigos com lágrimas nos olhos tentando conter as gargalhadas. Pois, por algum problema qualquer de comunicação, do tipo brincadeira “telefone sem fio”, Djavan virou Gian & Giovani, e lá estava eu incompreensivelmente segurando um CD da época em que os cantores dos clássicos “O Grande Amor da Minha Vida (Convite de Casamento)”, “Olha amor” e “1, 2, 3” ainda usavam mullets.
Nunca sequer coloquei aquele CD para tocar, mas esse verdadeiro Bug do Milênio foi provavelmente o presente mais surpreendente que já recebi, uma história que até hoje lembramos entre risadas quando reencontro meus amigos de infância (e se o CD não tivesse se perdido nas idas e vindas da vida, com certeza estaria enquadrado na parede da sala de casa).
Tudo isso para dizer que a memória é uma coisa misteriosa: ganhamos presentes caros, itens da moda, “lembrancinhas”, mas, ao menos no meu caso, quando recordo a minha infância e juventude, os presentes de que mais me lembro são os que não ganhei no Dia de Reis, os itens exóticos que nem eram para mim e um CD da dupla Gian & Giovani de mullets na capa que nunca nem ouvi.
Daqui a um tempo, quando meu filho estiver mais velho, não acreditar mais em Papai Noel e nem ligar mais para os bonecos do Pokémon, provavelmente vamos contar do Natal em que inventamos uma carta do bom velhinho, impressa às pressas na tarde do dia 24, pois os pedidos feitos pelo comércio eletrônico não chegaram a tempo.
Não vou me surpreender se no futuro, entre os muitos presentes que ele já ganhou e ainda vai ganhar, fiquem guardados na sua memória justamente os bonecos do Pokémon que ele não ganhou nesse Natal.
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