Perdoai-vos, dr. Tancredo

O PSDB está seduzido pela possibilidade de substituir imediatamente a presidente da República, mesmo sem a necessidade de disputar uma nova eleição

Eymar Mascaro
15/Jul/2015
  • btn-whatsapp

As pesquisas Datafolha e Ibope indicam que o senador Aécio Neves venceria Lula no segundo turno e se elegeria presidente da República, se a eleição fosse hoje.

Caso a mesma tendência de voto do eleitor prevaleça até 2018, ano da próxima eleição, o candidato tucano teria motivo de sobra para comemorar, porque seria o sucessor de Dilma Rousseff.

Aécio, portanto, tem cacife eleitoral para galgar o poder pela via democrática, sem necessidade de recorrer a método golpista, como desejam os tucanos que não aprenderam as lições de democracia que o saudoso Tancredo Neves legou ao País.

Aécio não precisaria correr o risco de macular a bela história escrita pela família Neves, sob o comando de seu sábio avô, que foi iniciada na cidade de Ouro Preto, berço da luta dos inconfidentes mineiros, e mártires da nossa Independência.

Os tucanos, que não sabem esperar pelo momento histórico para a realização de um sonho que habita em Aécio desde a adolescência, preferem ler a biografia de Getúlio Vargas, procurando se conscientizar de que o "pulo do gato" ou o golpe pode ser o caminho mais curto para chegar à presidência da República, sem ter de amassar barro na cabala do voto.

Getúlio disputou a eleição de 1930, mas foi derrotado pelo paulista Júlio Prestes. Espalhando pelo País a versão de que havia perdido a eleição graças a um processo fraudulento, o ditador gaúcho conseguiu convencer os ministros militares a sustentá-lo na crista da preparação de um golpe, que desaguou na Revolução de 30 e que acabou por efetivar a deposição do presidente da República na época, Washington Luíz, sua posterior prisão no forte de Copacabana seguida de sua deportação.

O passo seguinte de Getúlio foi impedir a posse de Júlio Prestes (que se encontrava no exterior e lá permaneceu até 1934), até que em novembro do mesmo ano, foi ungido pelos militares à chefia do Estado para exercer um "governo provisório" que – pasmem - durou 15 anos: de 30 a 45, ano em que provou do mesmo veneno, sendo deposto também por militares graças à semente democrática que germinou em solo paulista com a Revolução Constitucionalista de 1932.

Como os acontecimentos históricos costumam se repetir, o PSDB duvidou da lisura das urnas eletrônicas assim que soube que Aécio Neves havia sido derrotado por Dilma Rousseff, em 2014.

O TSE foi obrigado a promover uma revisão nas urnas, nada constatando de anormal, mas que, até hoje, os tucanos não se convenceram que perderam a eleição no voto registrado na urna.

A presidente Dilma Rousseff passou a ser acusada pelos tucanos de "ter mentido" ao eleitor sobre a situação econômica do País durante a campanha e, aproveitando a fala de ministro do TCU de que a presidente poderia ter suas contas rejeitadas pela prática das "pedaladas fiscais", o PSDB entendeu que pode obter do Tribunal o atestado que precisa para fortalecer a votação do pedido de impeachment da petista no Congresso.

Ao partido, no entanto, não interessa apenas cassar o mandato da presidente: seria necessário conseguir, através do TSE, que o vice Michel Temer fosse impedido de assumir a presidência.

Em seguida, os tucanos defenderiam a tese de que Aécio Neves fosse ungido ao cargo de presidente da República, com a justificativa de que foi o segundo colocado na eleição de 2014.

Se nenhuma das duas tentativas vingar, os tucanos reivindicariam da Justiça Eleitoral a convocação de nova eleição, aproveitando o momento em que seu candidato pontua alto nas pesquisas.

Seria o mel na chupeta.

Não interessa ao PSDB cassar o mandato de Dilma, se o vice Michel Temer substituí-la no cargo. Como o PMDB vai lançar candidato próprio ao Palácio do Planalto, em 2018, que deve ser o senador também bom de voto, José Serra, o PSDB chegou à conclusão correta de que, como presidente, Temer fortaleceria seu partido e seu candidato, dificultando ainda mais a eleição para Aécio Neves.

Na presidência, Michel Temer teria nas mãos a chave do cofre e a caneta cheia de tinta, instrumentos poderosos para inchar seu partido e seu candidato.

 

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada