|PODCAST| Economista que viveu em SP até a adolescência relata o drama grego
Conheça a história do executivo Michael Panagiotopoulus, que deixou o Brasil aos 13 anos para residir em Atenas, e ouça seu depoimento sobre a crise em que a Grécia está mergulhada

“Caro Amigo Nelson,
Durante estes últimos 5 anos, período que grandes dificuldades vêm gradualmente crescendo aqui na Grécia, e especialmente nestes anos da minha vida em que eu esperava descansar e passar o tempo que me resta um pouquinho mais "folgado" e menos ansiosamente, longe dos problemas do tráfego aéreo, é que os meus pensamentos voltam ao passado, tendo lembranças e saudades da pátria da minha infância. Penso então que talvez meus pais fizeram um grande erro retornando à Grécia...”
No fim de setembro, minha esposa Maria e eu vamos nos aposentar e não sabemos mais em que moeda nos vão pagar e qual será o valor do dinheiro (se receberemos...).”
Foi com essa mensagem via Linkedin que retomei contato, na semana passada, com um de meus melhores amigos de adolescência, Michael Panagiotopoulus, 63 anos, economista e diretor de Finanças e RH da HANSA, congênere de nossa Infraero. Antes disso, ele havia trabalhado durante 25 anos como controlador de voo.
Não o via há exatos 50 anos, quando seu pai, o engenheiro Menelaus, decidiu regressar com a mulher, Helena, e os dois filhos para Atenas, em setembro de 1964.
Formavam uma família adorável e simpática, que sempre nos presenteava, ainda crianças, com o Máscate, uma espécie de goma de mascar proveniente da seiva de uma pequena árvore.
Michael chegou ao Brasil com apenas um ano de idade, tinha 13 naquele tempo e mal conhecia o grego. Seu português é quase fluente, praticamente sem sotaque, uma vez que foi alfabetizado e educado no Colégio Rio Branco. Nós nos sentávamos próximos na sala de aula do primeiro ano do então ginásio. Michael me disse que o retorno à Grécia foi difícil, levou quase três anos para se “adaptar à mentalidade” e aprender o idioma natal.
Jamais retornou ao Brasil, embora sempre tenha alimentado o sonho de mostrar para a mulher e os dois filhos sua “pátria da infância”, como costuma dizer.
Em nossa nova conversa, via Skype [parte do depoimento está no podcast abaixo], Michael revelou preocupação com a possibilidade de o plebiscito, que dividiu a nação grega entre o ‘sim’ e o ‘não’ em relação à receita de austeridade e ajuda da União Europeia possa vir a provocar uma cisão irreversível na população. “Em quase todas as famílias, como na minha própria, o plebiscito dividiu opiniões”, disse.
A propósito da decisão paterna hoje questionada por Michael, argumentei que, embora com outra proporção, o Brasil também está igualmente mergulhado em uma séria crise política e econômica. Fiz isso porque a distância e o tempo poderiam ter cristalizado uma imagem idealizada da pátria da infância.
Mas o economista está bem ciente de que, lá como por aqui e em outros países, crédito fácil, abundante e artificial para o consumo mais dia, menos dia, cobra a conta.
O depoimento de Michael Panagiotopoulus começa exatamente em resposta a uma questão que propus: o que acontecerá se a Grécia abandonar o euro e adotar um novo dracma, a antiga moeda nacional?
Ouça:



