Por que não voltamos aos anos 30

Em 2008, os bancos centrais fizeram de tudo para que os mercados não deixassem de funcionar, ao passo que nos anos 30 eles assistiram imóveis ao colapso do sistema financeiro

Paul Krugman
16/Out/2015
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Ainda não terminei de ler o novo livro de Ben Bernanke, “A coragem de agir”, mas gostaria de bancar aqui o advogado do diabo em relação à sua tese central ? não para criticar o ex-presidente do Federal Reserve, ou para questionar o trabalho que ele fez, mas como forma de provocar uma reflexão sobre as lições que podemos aprender com a crise financeira de 2008. 

Nas memórias de Bernanke, o tema básico são os choques de 2008, que foram sérios o suficiente, segundo o autor, para deflagrar toda uma nova Grande Depressão.

BERNANKE: MEMÓRIAS/Foto:Doug Mills/The New York Times

A razão pela qual isso não aconteceu se explica pelo fato de que, em 2008, os bancos centrais fizeram de tudo para que os mercados não deixassem de funcionar, ao passo que nos anos 30 eles assistiram imóveis ao colapso do sistema financeiro. Dá para acreditar nessa história?

Parece uma ideia sensata, e eu concordo plenamente com Bernanke que tínhamos mesmo de usar todos os meios possíveis para estancar a crise.

Ninguém brinca numa hora dessas. No entanto, não estou convencido de que a diferença de fato entre 2008 e 1930-1931 (ocasião em que a Depressão se tornou Grande) foi a ação do banco central, ou mesmo o socorro financeiro viabilizado na época.

É verdade que os anos 30 foram marcados por uma grande ruptura financeira medida, entre outras coisas (conforme aprendi nos trabalhos acadêmicos de Bernanke), pelo spread acentuado entre os títulos corporativos ligeiramente arriscados e a dívida do governo.

Contudo, houve também uma grande ruptura financeira em 2008-2009 cujas dimensões, se tomarmos como referência a mesma medida, foi de magnitude comparável. Não durou tanto, mas pode ter sido tanto o efeito quanto a causa de não termos tido um ambiente de depressão total.

Por que a ruptura de 2008 foi tão grande apesar do socorro financeiro e dos empréstimos de emergência? Bem, os bancos, de modo geral, não ruíram, mas os bancos paralelos encolheram rapidamente.

A liquidez sumiu, exceto no caso dos ativos mais seguros, embora as instituições financeiras de grande porte não tivessem desaparecido. 

Ao analisarmos os efeitos da restrição do crédito, é bom lembrar que a política do setor geralmente repercute mais no segmento de moradia ? o investimento em imóveis caiu mais de 60% em relação ao PIB nos EUA durante a última crise.

No entanto, mesmo que houvesse um colapso total no setor de empréstimos imobiliários, isso não teria subtraído mais de um ponto ou dois na demanda agregada.

Portanto, será que os limites impostos à crise financeira foram o motivo de não repetirmos integralmente os anos 30? Ou será que foi outra coisa?

Há uma diferença enorme entre o mundo de 2008 e o mundo de 1930: o governo hoje é maior, não tanto no que diz respeito aos estímulos deliberados, embora isso tenha ajudado, mas em termos de estabilizadores automáticos (é só pensar no seguro-desemprego).

O déficit do orçamento nos EUA cresceu muito mais em 2007-2010 do que em 1930-1933, embora a queda tenha sido mais suave simplesmente porque impostos e gastos representavam uma fração muito maior do PIB. Aquele déficit orçamentário foi uma coisa boa porque sustentou a demanda num momento crucial.

Repito: Bernanke e companhia acertaram ao intervir com rigor. No entanto, não estou convencido de que o ambiente fiscal tenha sido, provavelmente, mais importante do que as ações monetárias para conter os estragos.

E antes que eu me esqueça, desde 2010 as autoridades do mundo inteiro, principalmente na Europa, têm feito todo o possível para acabar com os efeitos positivos dos estabilizadores automáticos. O resultado disso foi que o desempenho econômico da Europa é hoje muito pior do que era a esta altura em 1930.    

 

TRADUÇÃO: A.G.MENDES

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Paul Krugman 10/16

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