Poupança tem mais saques do que depósitos pelo 11º mês seguido

Apesar da migração de recursos da caderneta para aplicações de maior retorno, o que mais tem pesado sobre o aumento das retiradas é a redução da renda

Redação DC
04/Dez/2015
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Poupança tem mais saques do que depósitos pelo 11º mês seguido

A quantia de saques da poupança superou a de depósitos em R$ 1,302 bilhão em novembro, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (04/12) pelo Banco Central. 

No ano até o mês passado o total resgatado dessa aplicação foi de R$ 58,357 bilhões. Nos dois casos, tratam-se dos maiores volumes de retiradas dos últimos 20 anos para os períodos, desde quando a instituição começou a compilar as informações disponíveis até hoje, em 1995.

Até então, o pior novembro para a caderneta havia sido em 1995. Na ocasião, o resultado ficou negativo em R$ 590,9 milhões. 

O resultado deste ano até agora também é significativo: pela primeira vez se vê um volume de resgates maior do que o de aplicações em todos os meses de um ano de janeiro a novembro.

Com o resultado de novembro, o saldo total da poupança ficou em R$ 647,623 bilhões, já incluindo os rendimentos do período, no valor de R$ 4,079 bilhões. Os depósitos na caderneta somaram R$ 165,582 bilhões no mês passado, enquanto as retiradas foram de R$ 166,885 bilhões.

A situação de novembro só não foi pior porque, no último dia útil do mês, a quantidade de aplicações foi R$ 4,563 bilhões maior do que o das retiradas. Até o dia 29, o saldo da caderneta estava no vermelho em R$ 5,8 bilhões. 

É comum ocorrer um aumento dos depósitos no último dia de cada mês por conta de aplicações programadas já por investidores com seus próprios bancos. Agora ainda mais por causa do adiantamento do pagamento do 13º salário a aposentados e pensionistas.

RENDA MENOR PESA SOBRE OS SAQUES

Essa fuga da poupança tem ocorrido, entre outros motivos, porque, com a recessão econômica, sobram menos recursos dos trabalhadores para investimentos. Além disso, com um cenário de juros e dólar altos, outros investimentos tornam-se mais atrativos.

A remuneração da poupança é formada por uma taxa fixa de 0,50% ao mês mais a Taxa Referencial (TR) - esse cálculo vale para quando a taxa básica de juros (Selic) está acima de 8,5% ao ano e atualmente está em 14,25% ao ano.

Um estudo de Octavio de Barros, Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, testou o impacto da recessão econômica sobre a massa salarial e a atratividade de outras aplicações - por causa da elevação dos juros - para explicar a queda na captação líquida da poupança. 

As duas variáveis foram testadas em períodos de 12 meses desde 2006 - e ambas mostraram influência sobre esse movimento.

As equações, no entanto, mostraram que a massa salarial foi mais forte na comparação. No primeiro semestre deste ano, ficou clara a migração de recursos da caderneta para outras aplicações.

Houve crescimento na captação de outros instrumentos como a Letra de Crédito Imobiliário (LCI), Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), fundos (fundos de varejo, private e alta renda) e tesouro direto

O estudo mostra que até outubro deste ano, com saldo de R$ 185,6 bilhões, o estoque de LCI cresceu 23,3% ante dezembro de 2014. Na mesma base de comparação, o estoque de LCA cresceu 17,9% e alcançou R$ 48,6 bilhões.

No caso dos fundos (as três categorias mencionadas anteriormente) com saldo de R$ 840,1 bilhões, a expansão foi de cerca de 9,5% nos primeiros dez meses do ano.

O Tesouro Direto com estoque de R$ 22,9 bilhões cresceu 50,1% no mesmo período. Entre as principais linhas de captação, apenas o CDB mostrou recuo nesse período, de 3,7%.

"Notamos, portanto, que houve uma migração entre as modalidades: a somatória de CDB, fundos, LCI, LCA e Tesouro Direto mostrou crescimento de 10,4% ante o final de 2014, enquanto a caderneta retraiu 2,7%", explica. 

Apesar disso, Barros avaliou que não é possível desconsiderar o impacto da massa ampliada no desempenho da caderneta. Se somadas todas as captações da pessoa física, ou seja, na poupança e nas demais aplicações citadas, será notado um crescimento de 5,5% no saldo total de dinheiro investido em outubro ante dezembro de 2014.

"Apesar de a variação ser positiva, é menor do que a inflação acumulada no mesmo período, que foi de 8,53%", afirmou.

Segundo Barros, com a trajetória de elevação da taxa básica de juros cessada, a diferença entre a remuneração da caderneta e de outras aplicações financeiras deverá parar de aumentar. "Por outro lado, temos notado piora no desempenho do mercado de trabalho, com elevação da taxa de desemprego e menores reajustes salariais, fato que pode intensificar o impacto da massa salarial na trajetória de saques. Ainda que a expansão dos saques desacelere, não é possível descartar novas captações líquidas negativas para a caderneta de poupança", completa.

FOTO: Thinkstock

*Com informações de Estadão Conteúdo

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