PT e bloco do impeachment ainda não têm votos para cantar vitória
Levantamento de O Estado de S. Paulo revela que no plenário da Câmara ainda faltam 81 votos para afastar Dilma

A presidente Dilma Rousseff está ainda longe de obter o número de votos para se manter no poder. Mas, ao mesmo tempo, os partidários do impeachment não têm tampouco os apoios assegurados na Câmara para afastá-la.
É o que revelam dois levantamentos com números coincidentes, publicados neste domingo (03/04). O primeiro deles, pelo colunista de O Globo, Ricardo Noblat. O segundo, pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Segundo esses dois cálculos, os adversários do governo têm 261 votos, ou 81 a menos para atingir os dois terços exigidos pela Constituição. Por sua vez, os governistas têm apenas 117, ou 54 a menos para bloquear o impeachment da presidente.
Esses números sinalizam duas tendências em direções contrárias.
Pela primeira delas, as maciças manifestações de rua do dia 13 de março e as pesquisas de opinião favoráveis ao impeachment não sensibilizaram o Congresso na proporção desejada para que Dilma deixe o Planalto.
Pela segunda tendência, a mágica fisiológica desencadeada pelo governo e pelo ex-presidente Luís Inacio Lula da Silva não surtiu ainda o efeito desejado. A distribuição de cargos do primeiro (ministérios) e segundo (diretorias e agências) escalões tem sido insuficiente para que o PT e seus aliados tenham alguma segurança sobre os resultados da votação.
Ela deverá ocorrer dentro de duas semanas, segundo cronograma ainda oficioso que circula em Brasília. Dilma não tem a mínima esperança de sair vitoriosa na comissão de 65 deputados que formulará o parecer sobre o impeachment.
Mas a instância decisiva será o plenário da câmara, de 513 cadeiras.
Dentro dele, O Estado não localizou 71 deputados, e nove se recusaram a responder como votarão. Entre todos os partidos cujas bancadas estão divididas, é majoritário o grupo que afirma, desde já, que votará pelo afastamento da presidente.
É o caso do PMDB, com 34 favoráveis ao impeachment, cinco contra e 11 que se dizem ainda indecisos. A divisão demonstra que a ruptura do partido com o governo, na terça-feira (29/03), não motivou toda a bancada.
Dentro dela, é também evidente que o fato de os peemedebistas terem ainda cinco ministérios não permitiu que o Planalto provocasse ao menos o embrião de uma rebelião contra o presidente nacional do partido, Michel Temer, que é também o vice-presidente da República e virtual chefe de Estado em caso de impeachment de Dilma.
O PP, partido abertamente cortejado pelo Planalto por meio do convite para receber o Ministério da Saúde ou mesmo o da Educação, não demonstra grande apego à possibilidade de integrar um governo que pode apenas durar algumas semanas.
Pelos números do Estadão, 24 deputados do PP partido apoiam o impeachment, oito são contra e dez estão indecisos.
De qualquer modo, a tensão política persiste, e nada indica que ela poderá baixar antes que a sorte de Dilma seja decidida pela Câmara e tenha seu destino encaminhado ao Senado - onde por maioria simples abre-se o processo formal contra ela, obrigando-a a se afastar por 180 dias, o que seria, na prática, uma saída definitiva.
Um dos fatores recentes com influência direta no roteiro político foi a demonstração de que a Operação Lava Jato continua atuante, com um potencial destrutivo para os planos continuístas do PT. Isso porque, em sua última fase, na sexta-feira (01/04), passou-se a investigar a relação entre a corrupção na Petrobras e o assassinato, em janeiro de 2002, do prefeito petista de Santo André (SP), Celso Daniel.
A seguir, surgiram pela primeira vez sérias dúvidas sobre o equilíbrio emocional da presidente durante o processo que poderá interromper seu mandato. A revista IstoÉ, em reportagem criticada pelos setores do feminismo, revelou que Dilma está precisando consumir medicamentos fortes e apresenta uma preocupante semelhança com Delfim Moreira, o presidente da República afastado do poder por insanidade, em julho de 1919.
Há, por fim, uma série insistente de rumores de que o PT estaria praticando, às escondidas, justamente aquilo que sempre acusou Fernando Henrique Cardoso de ter feito para assegurar a aprovação da emenda constitucional que permitiu a reeleição. Ou seja, a compra de votos. É mero boato, que, se confirmado com um único caso, estouraria como um petardo fatal dentro da atual crise e colocaria um melancólico ponto final na operação destinada a dar sobrevivência ao mandato presidencial.
Dentro desse quadro, já suficientemente confuso, o jornal Folha de S. Paulo publica em primeira página editorial em que pede, diante do agravamento extremo da crise, que Dilma renuncie e que o exemplo seja seguido por Michel Temer. Com isso, a antecipação das eleições presidenciais de 2018 seria a única fórmula para pôr fim à crise política e permitir que o o país saia do buraco da recessão.
A propósito, a mesma Folha revela em manchete, com base em levantamento do economista Carlos Rocca, que no ano passado o governo e as estatais foram agentes de 72% das operações de crédito fechadas no país. Em outras palavras, em razão de pedaladas fiscais, pela queda da arrecadação e pela incapacidade de reduzir suas despesas, o governo "secou" as linhas de crédito que, em condições normais, teriam sido destinadas às empresas e aos consumidores.
FOTO: Agência Câmara

