Quando a opinião elimina o outro

A alteridade sectária não perdoa que o outro seja a incorporação de diferenças; elas se transformam quase em pecados de formação

João Batista Natali
16/Out/2015
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Nada de mais culturalmente aceitável que procurarmos nos diferenciar do “outro”. É uma forma até pronominal de reconstruirmos, e de forma reiterada, nossa identidade amorosa, profissional, política ou religiosa.

Mas as coisas entram no campo um tanto patológico quando o “outro”, por motivos reais ou inventados, precisa ser sistematicamente agredido e quase desumanizado para que possamos nos sentir melhor.

Eis um pequeno exemplo de imensa importância no atual mercado das narrativas. Se eu tenho restrições ao fechamento da avenida Paulista aos domingos e não creio que as ciclofaixas resolvam o problema da mobilidade paulistana, eu serei, para os partidários do prefeito, não apenas o portador de uma opinião diferente. Serei um inimigo da inclusão social e um porta-voz da burguesia rentista, por mais que uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

Um segundo exemplo. Se eu tenho alguma forte restrição ao impeachment da presidente, serei um desmiolado petista, um partidário da sangria no orçamento da Petrobras ou o suspeito de exercer – ou de querer fazê-lo no futuro – um cargo de livre provimento numa administração pública aparelhada por irmãos de ideologia. Mais uma vez, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

A questão, nos dois casos, nos remete à construção da alteridade sob a formatação desnecessária dos conflitos. Não consigo, dentro desse mecanismo, enxergar o outro de outra maneira a não ser como a expressão de meus próprios preconceitos. Preconceitos, é claro, que eu jamais conceberia abertamente, ou para mim mesmo, como tais.

O preconceito não é uma característica psicológica implantada na mente de cada indivíduo. O preconceito é uma forma (ruim) de conhecimento coletivo. E que se apodera dos grupos sociais, sejam eles organizados ou difusos, a partir de conjuntos renováveis de narrativas que são construídas com o mesmo sentido pejorativo.

A história do preconceito é antiga e antecede em alguns séculos a formação da chamada opinião pública, que surgiu na segunda metade do século 18.

O que não ocorreu em razão de algum modelo precocemente industrial da´imprensa, mas justamente por causa de narrativas – e é uma das grandes descobertas do filósofo alemão Jürgen Habermas – que nos traziam o “outro” para o convívio de nosso espaço íntimo de interesses. Nós o trazíamos para perto porque era preciso reiterar o quanto éramos diferentes.

O preconceito, em verdade, surgiu com o antissemitismo elaborado pelos cristãos em busca de uma identidade religiosa e cultural, dentro de um mesmo monoteísmo que eles compartilhavam com os judeus. Mas era preciso que o judeu fosse o “outro”.

O relacionamento com esse “outro” não era necessariamente conflitivo. Mas isso ocorria em períodos nos quais a disputa por posições ou pelo espaço econômico – Portugal no final do século 15, por exemplo – tornavam intolerável a própria existência do “outro”.

Essas formas absolutas de rejeição têm um histórico moralmente muito feio. Joaquim Nabuco já previa no final do século 19 que a escravidão legaria à cultura brasileira das muitas décadas seguintes a impossibilidade de construirmos aquilo que hoje chamamos de cidadania saudável.

Para o branco, o negro não é um (cidadão) igual. Ele é o inferior e por suas supostas características negativas e não poderia ser tão respeitado.

É também o caso do sentimento sobre o inimigo desprovido de ideologia e investido pelo ódio do "outro" que o nacionalismo desenhava, durante a 1a Guerra Mundial.

Voltamos então, e sem a passagem por exemplos extremos, como o Facebook e o 3º Reich – espaços em que a não-unanimidade é imperdoável – a nosso ponto de partida.

A saber: o “outro” não presta, e a única maneira aceitável de meu relacionamento com ele é o desprezo, a destruição, segundo um mecanismo de exclusão de uma consistência (ou inconsistência) quase teológica.

Em outras palavras, não há espaço para o exercício do diálogo, da negociação, da busca por posições intermediárias. Com a lógica dos “anti” transpirando a intolerância e espalhando o vírus do sectarismo feliz consigo mesmo, a alteridade só pode circular com consistência peçonhenta. Nós a admitimos para em seguida descartá-la.

Pouco importa se estamos falando de impeachment ou de ciclovias.
 

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