Região Sul pressente os ventos da economia seis meses antes
Considerados radares dos ciclos econômicos, os consumidores do Sul já vinham antecipando o pessimismo dos brasileiros com o futuro, só agora captado pelo Índice Nacional de Confiança

O brasileiro tem como forte característica ser crítico com o presente e esperançoso com o futuro. Por isso, um dos fatores mais preocupantes evidenciados pelo Índice Nacional de Confiança (INC), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), são as respostas sobre as expectativas para os próximos seis meses. Todas foram invariavelmente negativas e contribuíram para os 75 pontos em janeiro no grau de confiança, o mais baixo no índice.
Dorival Mata-Machado, diretor geral do Ipsos Instituto, responsável pela pesquisa INC, destaca que “o retraimento na percepção positiva do futuro foi encontrado em todas as regiões e em todas as classes sociais acompanhadas pela pesquisa”. A queda se acentuou no final de 2015.
Para o varejo, o resultado tem especial interesse, pois a queda na expectativa de melhora tem um impacto muito mais intenso sobre o comportamento das pessoas do que o pessimismo com o curto prazo. A perda da esperança, explica o executivo, leva à suspensão dos planos de longo prazo e à diminuição do consumo e costuma ser o caminho da estagnação econômica.
O SUL FORA DA CURVA
O resultado, no entanto, não deveria ser uma surpresa. Na pesquisa INC, os dados mostram onde a queda de expectativa foi mais abrupta. A Região Sul surge com respostas completamente fora da curva, um resultado recorrente nos últimos seis meses.
Enquanto 27% dos consumidores brasileiros estavam preocupados em perder o emprego, no Sul, 53% demonstraram esse temor. Entre os pesquisados do Sudeste, 24% definiram sua situação financeira pessoal como ruim; no Sul, foram 60%, um número tão alto que afetou o índice nacional, de 32%.
De acordo com Mata-Machado, desde sempre os consumidores da região, em especial os gaúchos, “têm um papel de termômetro em relação ao futuro. Parece que sentem as coisas antes. Eles costumam antecipar de modo muito nítido a tendência que está em formação”.
O HUMOR DO CONSUMIDOR
As pesquisas de confiança na economia, embora pareçam abstratas para muita gente, trazem dados essenciais para o mercado porque refletem o ânimo do personagem mais importante para um empresário, o consumidor. “Se as pessoas acreditam que as coisas estarão melhores em seis meses, continuam fazendo planos e comprando”, ensina Mata-Machado.
Mas quando o consumidor começa a desconfiar que o cenário vai piorar, tudo é afetado por essa percepção. A estagnação surge porque ele não acredita no hoje e nem no amanhã. “Com os resultados atuais, não estamos vendo melhoras”, lamenta o executivo. Para o consumo, a esperança é gênero de primeira necessidade.
CORTAR UM EMPREGO CANCELA UM CONSUMIDOR
A pergunta mais relevante da pesquisa INC, de acordo com o economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo, trata da expectativa em relação ao trabalho. “Se a pessoa sente segurança em relação ao emprego, não terá medo de se endividar e consumir”, explica. A falta desta segurança foi exatamente o que a pesquisa detectou.
Com o emprego cada vez mais ameaçado, disse Solimeo, “quem está desempregado não compra e quem está com medo de perder o emprego também não”. Trata-se de um indicador antecedente para o varejo, pois baliza outros indicadores utilizados no planejamento do setor.
“Se projetarmos o valor registrado pela pesquisa para os próximos seis meses, a tendência indica muito pessimismo”, disse Solimeo. “Não dá para esperar melhora da confiança se inflação e desemprego continuam se deteriorando e não há diminuição na incerteza política, o maior problema da economia brasileira.”
FUTURO PENHORADO
Na pesquisa INC, três quesitos estão vinculados à percepção de melhora ou piora no futuro, segundo Mata-Machado.
- A intenção de compra de grande porte, como carro ou casa, exige um planejamento de longo prazo
- A decisão de compra de eletrodomésticos, feita no curto prazo, expressa a percepção do consumidor sobre o momento atual
- O investimento no futuro, como estudar, demonstra a esperança de que as coisas serão melhores amanhã
No levantamento apresentado pelo INC de janeiro, os três pontos estão comprometidos na visão dos consumidores. Os três são muito influenciados pela percepção de segurança no emprego, quando a pessoa não sabe onde vai estar daqui a seis meses. “Se o consumidor sente que o desemprego está chegando perto, fica ainda mais inseguro de assumir um gasto”, explica o executivo.
Veja no quadro abaixo como está a disposição para as compras de cada região e classe social no Brasil.
De acordo com o histórico dos pesquisadores, em uma recessão, quando a coisa aperta no curto prazo, o consumidor corta o que está longínquo. “Caem primeiro os planos para o futuro, como planejamento de longo prazo em educação, que já vem acontecendo”, explica Mata-Machado. Quando corta um item médio, ele demonstra estar preocupado com o futuro.
Não é a toa que a compra de carros e casas, itens de grande porte, vem sendo sendo substituída pela de carro usado e reforma de casa.
ANTECIPADORES DE TENDÊNCIA
A premonição da crise, para quem consulta o histórico do INC, acontece na Região Sul desde o final de 2014, enquanto as outras regiões sustentaram o otimismo. A região apresentou uma queda crescente no índice de confiança, chegando a 2016 com uma percepção radicalmente pessimista em relação ao futuro.
Desde julho de 2015, os gráficos mostram uma queda vertical na percepção do pessoal do Sul. Mata-Machado lembra que, enquanto isso, no restante do país, ao ser perguntados sobre o que esperavam do próximo semestre, os entrevistados respondiam que estariam melhor do que hoje.
Nos gráficos se vê uma queda gradativa no Sudeste e Centro Oeste e Norte e quase nenhuma diferença no Nordeste até chegar janeiro de 2016.
Há razões objetivas para o pessimismo no Sul, em especial dos gaúchos, segundo o economista da ACSP. “A região sofreu muito com problemas como o bloqueio das contas do governo estadual pela União, a queda na produção agrícola e as chuvas, que afetaram a produção industrial. Além disso são os três estados mais politizados do Brasil, nos quais a incerteza tem mais peso na confiança.”
Mas segundo o executivo do Ipsos, o fenômeno não significa que o Sul seja pessimista crônico. Ao contrário. O papel sinalizador da Região Sul é dado a extremos também para cima no índice de confiança. Uma confirmação desse papel é o otimismo que passaram a demonstrar desde o final de 2011, em um grau muito acima do restante do país e por mais tempo.
O fenômeno da premonição dos consumidores do Sul, segundo os especialistas, está na população mais escolarizada e profissionalizada. “Eles tendem a ser críticos e racionais e se apóiam mais nas evidências dos fatos do que em mensagens otimistas de marketing”, explica Mata-Machado. “Por isso, estão sempre fora da curva nas pesquisas, seja para cima ou para baixo.”
METODOLOGIA DO INC
No INC, os valores entre 100 e 200 pontos apontam otimismo; o intervalo de zero a 100 indica pessimismo. O índice de janeiro foi elaborado a partir de 1,2 mil entrevistas domiciliares em 72 municípios, por amostra representativa da população brasileira de áreas urbanas (Censo 2010 e PNAD 2013), com seleção probabilística de locais de entrevista e cotas de escolha do entrevistado, ambas baseadas em dados oficiais do IBGE. A pesquisa foi realizada entre os dias 14 e 24 de janeiro.



