Risco de Brasil perder nota de bom pagador aumenta
Bancos calculam o rebaixamento da nota de crédito por agências internacionais. FMI recomenda esforço fiscal e o jornal Financial Times critica a condução da economia

Com o anúncio do corte da meta de superávit primário do setor público para 2015, de 1,1% do PIB para apenas 0,15%, a discussão em torno da nota de classificação de risco de crédito - o rating soberano - volta ao foco dos mercados.
A reação de agentes econômicos internacionais ao corte na meta fiscal brasileira foi do alerta à crítica contundente.
O FMI (Fundo Monetário Internacional) disse em relatório que o país deve continuar, sem interrupção, com o esforço para melhorar as contas fiscais, mesmo com adoção de novas metas.
O Fundo considerou a mudança de meta do governo realista, mas avaliou que o governo do Brasil tem que continuar buscando a restauração da sustentabilidade fiscal e a redução do déficit público.
A avaliação do FMI é que a redução da meta fiscal anunciada na quarta-feira (22/07) pela equipe econômica precisa ser entendida no contexto de uma recessão no Brasil que acabou sendo pior do que o esperado.
"O governo brasileiro tem demonstrado comprometimento com a estratégia de ajuste macroeconômico", afirmou o porta-voz do FMI, Gerry Rice, citando que a equipe econômica vem tomando medidas específicas para melhorar as contas públicas, como reduzir desequilíbrios e subsídios.
EDITORIAL VÊ NO PAÍS UM FILME DE TERROR
Já o jornal Financial Times publicou um duro editorial sobre a crise política e econômica no Brasil. Com o título "Recessão e politicagem: a crescente podridão no Brasil", o texto diz que os recentes fatos levam o Brasil a ser comparado com um "filme de terror sem fim" e que, diante do risco de impeachment da presidente Dilma Rousseff, "tempos piores ainda podem estar por vir".
O FT reconhece, porém, que as instituições brasileiras têm mostrado força e exalta a prisão de executivos das maiores construtoras brasileiras. Mas diz que o quadro pode piorar.
O editorial diz que a presidente Dilma Rousseff voltou atrás na economia após a malsucedida experiência com a "nova matriz econômica". Com o aumento dos juros e corte de gastos, a economia sofre e o apoio político dos aliados diminui, explica o jornal.
O editorial reconhece que, por enquanto, políticos brasileiros têm preferido que a presidente continue no poder. "Mas esse cálculo pode mudar à medida que eles tentam salvar suas peles", cita o texto que lembrar que o "chefe do Congresso" - sem citar o nome de Eduardo Cunha - migrou para a oposição e que Lula pode ser processado.
O texto diz que a presidente Dilma tende a ter três anos solitários como presidente. "Brasileiros são pragmáticos. Então, o pior cenário de um impeachment caótico pode ser evitado. Ainda assim, mercados começam a colocar no preço esse risco. Pode ser muito bem que tempos piores ainda estejam por vir para o Brasil", completa o texto.
O QUE PODE MUDAR NA NOTA BRASILEIRA
Hoje, o Brasil é avaliado por agências internacionais de classificação de risco de crédito com notas que estão na categoria grau do investimento, ou seja, com selo de bom pagador de dívidas.
Mas isso pode mudar, segundo avaliação do banco de investimento norte-americano Brown Brothers Harriman (BBH). O recente corte na meta de superávit primário neste ano pode ser o gatilho para a perda do selo de grau de investimento no terceiro trimestre deste ano, informa o BBH em relatório.
Segundo o estudo da instituição financeira, o perfil econômico do Brasil seria compatível com o rating BB+, que é considerado grau especulativo e abaixo do grau de investimento.
O rating BB+ está um degrau abaixo da nota BBB- conferida ao Brasil pela Standard & Poor's (S&P). No início de 2014, a agência rebaixou o Brasil para BBB-, e alterou a perspectiva de negativa para estável.
Em março deste ano, a S&P manteve a nota e a perspectiva do país, dizendo ter expectativa que o ajuste fiscal tenha apoio da presidente Dilma Rousseff e do Congresso Nacional. Das três principais agências, a nota da S&P para o país é a mais baixa, apenas um degrau acima do nível especulativo.
O rating BB+, avaliado pelo banco norte-americano, estaria dois níveis abaixo da nota BBB creditada pela Fitch, com perspectiva negativa. Em um comentário divulgado nesta quinta-feira (23/07), a Fitch afirmou que a nova meta está abaixo da que havia sido presumida no cenário base de abril, quando fez a última revisão da nota do país.
A Moody's classifica o Brasil como Baa2, com perspectiva negativa, e o rating equivalente ao BB+ também estaria dois degraus baixo deste patamar. A missão regular da Moody's estava no Brasil na semana passada e teve uma série de reuniões com a equipe econômica do governo. A decisão sobre a nota brasileira deve ser anunciada nos próximos dias.
Com as novas metas, o banco UBS avalia que a probabilidade de a dívida bruta superar 70% do PIB é alta e lembra que esse tem sido um patamar importante para a avaliação da Moody's. Assim, cresce a possibilidade de a agência cortar a nota brasileira e ainda assim manter a perspectiva negativa.
"As novas metas não são suficientes para estabilizar a dívida pública no Brasil até 2018. As agências têm dado o benefício da dúvida ao governo, contanto que continuássemos a ver progressos no aperto fiscal e desde que as dinâmicas de dívida se estabilizassem após a piora em 2015/2016", diz o economista-chefe do banco suíço UBS Guilherme Loureiro em relatório.
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