Sabor armênio tamanho família conquista gerações em SP
Com 64 anos, a Casa Garabed, especializada em esfiha, mantém desde a fundação a mesma massa, o tempo de preparo e o sabor de alimento fresco sob os olhos sempre atentos do dono, Roberto Deyrmendjian (foto)

A história do fundador de uma das casas mais tradicionais de esfiha da capital daria um filme. E tudo começa na década de 20, quando Garabed Deyrmendjian (1916-1987) desembarcou em São Paulo fugindo do genocídio encampado pelo Império Turco-Otomano, que dizimou milhares de armênios durante a Primeira Guerra Mundial.
Ele poderia ter sido apenas um dos tantos refugiados que encontrou em São Paulo o ambiente ideal para construir uma nova vida com muito trabalho.
No entanto, fez mais do que isso, ao decidir empreender e abrir uma casa de esfihas que leva seu prenome: ergueu um negócio que resistiu ao tempo – mesmo com alguns solavancos pelo caminho.
A Casa Garabed, inaugurada em 1951, guarda hoje as mesmas características da época, mantidas pelas mãos do filho caçula do fundador, Roberto Deyrmendjian, de 58 anos.
Em São Paulo, o imigrante armênio Garabed foi vendedor, engraxate, feirante e sapateiro no bairro da Luz, perto da estação Armênia do metrô, na região central, e tomou a decisão de abrir o próprio negócio depois de se casar.
Ao empreender, como lembra Roberto, o pai fez jus à origem do sobrenome da família, já que “Deyrmendj” significa “moinho de trigo” e “ian” corresponde ao “ofício da família”, no idioma armênio. Ele conta que as lembranças do pai sobre a terra natal não eram nada boas: “Ele dizia que a mãe havia sido decapitada na Armênia”.
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Com uma história assim, o fundador sempre foi rígido com os negócios, que envolviam única e exclusivamente o trabalho em família, ou seja, com a esposa e os quatro filhos na casa onde moravam e produziam as massas.
ESFIHAS SÃO O CARRO-CHEFE DA CASA GARABED/Divulgação
Na época, era comum o cliente levar o recheio de preferência para a família fazer a massa e assar. Se alguém quisesse o da casa, havia apenas o de carne.
Os clientes pediam e o salgado era feito na hora. Garabed também fazia baguetes para vender no bairro todos os dias e atendia a demanda por roscas de um empório sírio da rua 25 de Março.
“Meus irmãos mais velhos trabalharam muito. Eu fui o mais poupado. Por ser caçula, lembro que entrava na máquina de massa que batia 250 kg de farinha de trigo para ajudar a limpar – pois eu era do tamanho dela”, conta.
Naquela época, a produção também era muito superior, já que hoje Roberto atende bem a demanda com uma máquina de 12 kg.
“O movimento era muito maior e havia encomendas de 15 mil esfihas e a família se esforçava para dar conta. Hoje, se eu trabalhar o mês inteiro não vendo a quantidade que ele vendia em apenas um sábado. As empresas promoviam mais confraternizações. Hoje em dia não é mais assim”, diz.
Hoje, dois irmãos trabalham em outras áreas e moram em outras cidades. Mas Roberto resiste na mesma casa de sempre, a primeira a ser erguida na rua José Margarido, em Santana, zona norte da capital.
É quase uma ironia, já que eles nasceram lá mesmo, na casa, enquanto Roberto chegou ao mundo em um hospital. Os azulejos continuam lá, originais, e o forno a lenha de 25 metros quadrados, a todo vapor. A fachada, de uma casa residencial e sem placas, também permanece praticamente a mesma.
A vontade de preservar a história do empreendimento é tão grande que Roberto mantém os velhos hábitos, como não deixar nunca o forno a lenha esfriar, nem mesmo nos dias em que a casa está fechada.
E também é assim com o processo de produção, com o ponto da massa e o tempero da carne. Tanto que o cliente que chega lá tem de esperar mesmo.
Pelo menos meia hora. Nada fica na estufa à espera de cliente. Se a massa passa demais do ponto de descanso vai para o lixo e, para Roberto, faz parte do processo. O resultado é uma massa crocante e aerada, um diferencial que leva clientes de vários pontos da cidade à casa.
SUCESSÃO
À frente do negócio e de 18 funcionários, Roberto trabalha com o filho mais novo, que cuida da parte de delivery e informática. “Sucessão ainda é uma incógnita”, diz.
Mas isso não é problema, já que a própria sucessão para Roberto não foi discutida e nem planejada. Na verdade, ele decidiu assumir a casa, que permaneceu fechada por mais de dez anos, após a morte do pai, em 1987.
Antes disso, a esfiharia permaneceu fechada por mais de dez anos por causa de um episódio triste. A decisão de Garabed de encerrar a produção ocorreu depois que a filha mais velha, Ester, morreu vitimada por leucemia em 1969, um mês antes de realizar o sonho de se casar.
“Ela foi a pessoa que mais trabalhou na cozinha e morreu um mês depois de descobrir a doença. Meu pai ficou muito triste, minha mãe foi para um hospital psiquiátrico. Ele decidiu encerrar a produção de esfihas em 1971”, conta.
Nos anos em que a Casa Garabed ficou fechada, Roberto fez de tudo: foi cobrador de sanitário no Terminal Rodoviário Tietê e cinco anos mais tarde, após cinco promoções, havia se tornado operador de trem do metrô. Cansado dessa rotina, pediu demissão e precisava encontrar uma alternativa, pois à essa altura já estava casado e com filhos a caminho.
ESFIHA DE QUEIJO COM CEBOLA REFOGADA NA MANTEIGA AVIAÇÃO
Roberto pediu a ajuda de um dos irmãos e usou as receitas da mãe para retomar o negócio.
Primeiro, passou a oferecer novos sabores para os clientes, como a esfiha de queijo que leva um tempero especial e, depois, a de bastrmá, uma espécie de carne seca tradicional. Também colocou mesas em ambientes que antes eram o depósito de alimentos e a garagem da residência.
De sala em sala, Roberto foi expandindo e hoje enche a casa com 50 clientes. O cardápio também cresceu: são 50 pratos, dos quais 15 sabores de esfihas.
“O aumento da clientela foi gradativo até que os críticos de gastronomia descobriram. Ganhamos prêmios e isso ajudou muito”, afirma. Roberto fez cursos e aprendeu a fazer gelato, e também passou a oferecer as esfihas e outros salgados congelados, além de refeições. Mas o carro-chefe ainda é a esfiha, que responde por 80% do faturamento.
KIBE NA COALHADA: OUTRA ATRAÇÃO DA CASA
A casa funciona de quarta-feira a domingo, das 12 às 21h, para não incomodar a vizinhança, com a qual os conflitos são raros e se, ocorrem, são por causa dos carros estacionados na rua, problema que Roberto resolveu ao firmar convênio com um estacionamento.
Hoje, a Casa Garabed abre um dia a menos durante a semana por causa da crise hídrica. Mas mesmo assim, Roberto não desiste dessa cidade que acolheu tão bem o pai e onde a família se fez. “Apesar das dificuldades, não pretendo mudar porque adoro São Paulo”, conclui.
FOTOS: Arquivo pessoal/Divulgação
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Roberto Deyrmendjian trabalhando nos anos 80
O fundador Garabed Deyrmendjian
Roberto Deyrmendjian e sua primeira equipe
O forno a lenha de 25 metros quadrados
Equipe produzindo salgados que são feitos, assados e servidos na hora
Registros do fundador, quando ainda exercia outra profissão
Ambiente com as mesmas características dos anos 50
Ambiente com as mesmas características dos anos 50
Roberto Deyrmendjian na década de 90
Especialidade da casa são as esfihas e salgados

