Sem bom estoque de cargos, "varejão" de Dilma não reverte o impeachment

Presidente e Lula tentam distribuir ministérios e cargos do primeiro escalão para reverter desvantagem na Câmara dos Deputados

João Batista Natali
31/Mar/2016
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Sem bom estoque de cargos, "varejão" de Dilma não reverte o impeachment

Apesar de um intenso “varejão”, na tentativa de distribuição de ministérios e cargos, a presidente Dilma Rousseff continua com sérias dificuldades para reverter sua atual desvantagem e impedir a aprovação do impeachment pelo plenário da Câmara.

Dilma precisa assegurar o apoio de 172 dos 513 deputados. Mas informantes do Planalto dizem que ela tem com certeza pouco mais que 100.

Outro informante, citado pela Estadão Conteúdo e bem mais otimista, afirma que já são 150, e que a distribuição de cargos no governo poderá trazer outros 30 nos próximos dias.

Mas esses números contrariam o mapeamento do Movimento Pró-Impeachment (parlamentares e entidades), cujas planilhas asseguram que a oposição tem no mínimo 346 dos 340 votos para afastar a presidente.

De qualquer modo, o governo sabe que, na melhor das hipóteses, pode apenas contar com uma parte das bancadas de partidos que aproveitam a crise final do governo para aumentar seus espaços no ministério.

O PP, por exemplo, tem 49 deputados e o Ministério da Integração Nacional. Dilma está desde quarta (30/03) disposta a dar ao partido também o Ministério da Saúde.

Mas corre no Congresso que o partido também vem negociando com o vice-presidente Michel Temer, que substituirá Dilma depois do impeachment.

O PR, com 40 deputados, já tem os Transportes. Quer também o Ministério de Minas e Energia. Dilma e seus operadores pretendem também fazer mimos com o PSD, o PTN e o bloco de pequenas bancadas que traz o Pros, o PHS, o PTdoB e o PSL.

Os governistas acreditam poder contar com a habilidade do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que está em Brasília e tem recebido aliados em potencial em sucessivas reuniões.

Mas o estoque de cargos à disposição dele é limitado. Um exemplo. Ele acertou quarta-feira o apoio de Jader Barbalho (PMDB-PA). A conversa rendeu, no entanto, apenas a nomeação de um aliado dele para a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

E o cidadão, o ex-senador Luiz Otávio Oliveira Campos, tem perfil controverso. Foi condenado a 12 anos de prisão por desviar R$ 12 milhões do Finame (Agência Especial de Financiamento Industrial), em caso que foi depois arquivado.

Dilma e Lula teriam a princípio seis ministérios restantes do PMDB, já que o partido decidiu, terça-feira (29/03), deixar o governo. Mas os seis titulares dessa pasta declararam apoio a Dilma em caráter pessoal.

Ela, com isso, está em situação inconfortável para demiti-los ou pedir os ministérios de volta. No entanto, sem esses ministérios, ela não tem o que negociar com os demais partidos em termos de burocracia mais robusta de estrutura e de verbas.

Dilma e Lula não estão conseguindo fazer milagres. Mesmo porque, com a atmosfera em Brasília de fim de festa, poucos ambicionam participar do governo por apenas poucas semanas. E, se for o caso, caberia perguntar quantos votos contra o impeachment eles atrairiam no plenário da Câmara.

O fato é que essa votação, em meados de abril, deverá seguir o roteiro de um grande espetáculo. Não tanto porque essa seja a vontade pessoal do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas porque a máxima publicidade e o voto aberto estão entre as instruções de roteiro definidas pelo STF (Superior Tribunal Federal).

Com a popularidade baixíssima, confirmada pela última pesquisa Ibope-CNI (Dilma desaprovada por 69%), um apoio à presidente significa também abrir mão de ambições de curto prazo, em pleno ano eleitoral.

É normal que a mídia faça uma cobertura extensiva e destaque declarações de governistas que acreditam ainda existir uma batalha de verdade pela frente. Mas não há apenas uma tendência de mau agouro para a presidente. Há em verdade a contagem regressiva para ela deixar o poder.

 

ILUSTRAÇÃO: Thinkstock

 

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