Sentimento de tempo perdido
“Muitos dos nossos problemas serão melhor resolvidos quando o Estado soltar as rédeas, abrir as portas ao talento empresarial e deixar a produtividade da economia andar”

Pobre país é o que não pode ser medido por alguma fórmula previsível do que seja uma boa função do Estado. Dúvida que deixa espaço para predominar o ciclo em que cidadãos permaneçam irritados e desiludidos. Especialmente porque não é costume entre nós a autoconfiança do poder estar baseada na autocrítica da autoridade que admite equívocos e busca corrigir suas falhas.
A predominância de uma competição estrutural permanente de interpretadores do que seja um bom Estado supera qualquer esforço de modernização, que até se vê de forma diferenciada em alguns Estados federais. No plano nacional temos hoje: o analgésico estático que o Banco Central impõe à economia embalsamada, tirando energia do desenvolvimento; a fervilhante criação sem rumo de leis no parlamento; os paradoxos da política de segurança pública que atiçam todos ao debate como se crime fosse uma questão de pesquisa e opinião. E, agora, na COP30, subestimar a potência climática que somos para pedir dinheiro e a opinião do mundo sobre como assegurar a justa preservação e a exploração da Amazônia.
É preciso consertar o senso de medida do Estado que não vê que construtores, pensadores e realizadores é que fazem a sociedade e a riqueza crescerem. Todos os países precisam de comissários de talentos que possam enfrentar o mau momento por que passa a economia e a política fiscal e tributária. Para não aumentar o sentimento de tempo perdido que pode se tornar o responsável pela perda da simpatia da população pela necessidade moral de termos uma boa perspectiva para os necessitados de uma política social.
Contraditoriamente, a falta de horizonte para definir o alcance e expansão da assistência pode acabar por rebaixar moralmente o assistido e ferir a compreensão moral da importância da justiça social. Como diz Luiz Gonzaga explicando o limite da gratidão diante do auxílio: Mas doutor, uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.
O apogeu de um país é o trabalho e a imaginação criadora. Os inestimáveis benefícios trazidos a cidades e regiões inteiras pela passagem de um metrô, uma nova indústria, o vigor do comércio, a iluminação, o saneamento de toda uma comunidade, uma boa rodovia, uma desbravadora estrada de ferro, de carga e/ou de passageiro, etc., são tão imensos que podem tirar mais gente da miséria do que infindáveis anos de bolsas de caráter filantrópico. Muitos dos nossos problemas serão melhor resolvidos quando o Estado soltar as rédeas, abrir as portas ao talento empresarial, e deixar a produtividade da economia andar.
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IMAGEM: A Persistência da Memória, de Salvador Dalí/reprodução
