Shitake: Um negócio que brota no interior de São Paulo
Principal produtor nacional desse tipo de cogumelo, o Estado reúne o maior número de pequenos produtores do Brasil, que se declaram satisfeitos com o retorno do investimento

Na lista de alimentos saudáveis e que melhoram a imunidade, o cogumelo shitake desponta entre as primeiras posições.
Mesmo introduzido há pouco tempo no cardápio dos brasileiros, o fungo já é considerado um queridinho não apenas de quem o consome, mas também de quem o produz.
Vendidos em bandejas de 200 gramas a um valor médio de R$ 16, esses cogumelos agora podem ser encontrados facilmente nas prateleiras de qualquer supermercado.
O estado de São Paulo detém aproximadamente 90% da produção nacional de shitake. O outro é que à medida que o produto é ofertado dentro das lojas, aumenta-se a demanda.
A explicação é de Francisco Soriani, 65 anos, um dos responsáveis pela oferta do item em terras brasileiras.
Há 15 anos, Soriani decidiu abandonar a carreira de publicitário em São Paulo, e se mudou com a mulher, Mariane Collete, para um sítio em Juquitiba, a 74 quilômetros da capital.
Em busca de algum tipo de cultivo com boa rentabilidade para sustentar seu novo estilo de vida, Soriani foi atraído pelo fungo depois de conhecer mais sobre o assunto com um especialista.
Na época o ex-publicitário aprendeu detalhes da cultura como o fato de que é produzido em toras de eucalipto, e que é preciso umidade e pouca luz para seu desenvolvimento.
Com o investimento de R$ 30 mil, Soriani deu início ao manejo de maneira simples, apenas com a ajuda da esposa.
Na época, o produto só era encontrado em restaurantes orientais ou em algumas lojas especializadas nos grandes centros urbanos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Com o passar dos anos, a popularização dos pratos japoneses e a indicação de nutricionistas como um alimento de alto valor nutricional e de baixa caloria fizeram as redes de supermercado enxergá-lo como um produto bem comercial.
Estima-se que o brasileiro consome cerca de 300 gramas de cogumelo shitake e shimeji por ano. Um valor inexpressivo se comparado a média europeia, de dois quilos.
BOM INVESTIMENTO
Na grande maioria, o cultivo nacional ainda é considerado muito rústico e caseiro, mas Soriani acredita que o cenário que deve mudar nos próximos anos, de acordo com Soriani.
Enquanto a produção mundial cresce na ordem de 3%, a brasileira evolui 7,1% ao ano, de acordo com a ANPC (Associação Nacional dos Produtores de Cogumelos).
Foi o que ocorreu com Soriani. Ao perceber que tratava-se de um nicho ainda pouco explorado e de um mercado com muito potencial, ele decidiu investir mais.
"O que era bom, poderia ficar ainda melhor se eu aumentasse a minha produção".
Para produzir em larga escala e preservar a qualidade do cogumelo que produz, Soriani foi desvendar os segredos do cultivo axênico, considerado bem inovador.
Feita em blocos de substrato enriquecido, com serragem, bagaço de cana-de-açúcar e farelos de trigo, essa é a alternativa de cultivo mais profissional que existe para o fungo.
Apesar do alto custo de instalação -no caso do empresário, R$ 300 mil-, para a contrução de um galpão e compra de maquinário, o formato permite um custo de produção mais baixo e frutificação mais rápida.
O cogumelo produzido em blocos está bom para colheita em 80 dias, enquanto a produção em toras leva 300 dias.
Hoje, ele produz 1,5 tonelada de shitakes por mês e emprega nove funcionários no negócio, que também conta com a ajuda de seus dois filhos, que moram em Cotia, e deixaram para trás o trabalho com carteira assinada para investir na agricultura familiar.
Diferente da maioria dos outros produtores, Soriani não atende o consumidor final e tem como cliente fiel há 15 anos, o distribuidor Kaol Nagasawa.
"Prefiro assim. Vendo e recebo. Sou um pequeno produtor e prefiro evitar a burocracia de grandes estabelecimentos", diz.
De acordo com o empresário, esse tipo de cogumelo começou a ser cultivado no Brasil há três décadas, e é considerado um dos produtos agrícolas mais rentáveis.
Ainda não há dados formais sobre quantos e quem são os responsáveis pelo aumento da oferta do produto nos supermercados e restaurantes.
Em Juquitiba, Soriani conhece outros 23 produtores do cogumelo japonês. Piedade, Mogi das Cruzes e Campos do Jordão são outras cidades do interior do Estado, onde também há um movimento grande nesse sentido.
Sem revelar quanto fatura com o negócio, Soriani afirma que não se arrepende da escolha, e que só pensaria em se arriscar novamente por um cultivo até então, inédito no Brasil, as supervalorizadas trufas.
"Todos os anos viajo à Itália com o desejo de aprender mais, e quem sabe me tornar o primeiro produtor brasileiro de trufas".
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