Sim, você pode mudar seu jeito de pensar

Quando um comentarista se torna prisioneiro da paranoia da inflação

Paul Krugman
09/Out/2015
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Matt O'Brien lembrou recentemente, no Washington Post, o pronunciamento feito cinco anos atrás por Michael Kinsley, na Atlantic, de que os EUA estavam à beira da inflação.

Kinsley voltou à carga dois anos depois em uma coluna na Bloomberg. Kinsley não se arrependeu do que disse e ficou muito aborrecido com quem disse que ele não sabia do que estava falando.

É realmente muito triste. Kinsley é um sujeito bastante inteligente. Foi ele, aliás, quem me deu a grande oportunidade de entrar para o jornalismo, em 1996, quando me contratou para escrever na Slate, onde era editor. Agora, porém, como comentarista, tornou-se prisioneiro da paranoia da inflação.

Já presenciei esse fenômeno inúmeras vezes, principalmente em economia, mas também em campos como a ciência do clima, por exemplo.

Alguém com reputação de inteligente olha, digamos, para a macroeconomia, e se imagina entendido o suficiente para comentar o assunto — mas não se dá conta de que essa é uma disciplina técnica, e que ele não tem a mínima ideia do que está falando. Então, não se sabe bem por quê, o sujeito escolhe o lado errado do argumento.

Acho que Kinsley se sentiu, mais do que qualquer outra coisa, motivado por aquele estilo "contrário à intuição" da New Republic/Slate: "Bernanke e Krugman podem até posar de experts, mas vou mostrar minha inteligência indo na direção contrária."

Para Cliff Asness, analista financeiro, a motivação era mais provavelmente de fraude por afinidade: os inflacionistas pareciam esse tipo de gente, e ele não se deu conta de que estavam espalhando a paranoia da inflação.

Portanto, o que fazer quando fica claro que você realmente escolheu o lado errado? Você pode admitir que errou e reavaliar sua visão de mundo, como fez Narayana Kocherlakota, presidente do Fed de Minneapolis.

Esse tipo de humildade, porém, é muito raro. A maior parte das pessoas que um dia defendeu um argumento indefensável reage como Kinsley reagiu: reforçam o que foi dito e tentam defender o que não tem defesa — e com isso ficam cada vez mais iradas com quem as havia advertido de que tinham se equivocado.

Triste.

Jeb Bush dá uma de John Galt*

Vejam que maravilha isso da ThinkProgress: "Acho que a esquerda quer um crescimento lento porque assim as pessoas ficam mais dependentes do governo", disse Jeb Bush a Maria Bartiromo, da Fox Business.

Lembrem-se de que Jeb Bush é o candidato do establishment republicano para a disputa presidencial, e o sujeito acha que vive no mundo de A revolta de Atlas.*
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*John Galt é personagem do romance A revolta de Atlas, de Ayn Rand. No livro, Galt é um empresário que recusa todo tipo de interferência do governo no mercado.

TRADUÇÃO: A.G.MENDES

 

LEIA ABAIXO A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

Paul Krugman 09/10

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