Síndrome do tapetão

A possibilidade do afastamento de Dilma refaz os cenários da sucessão presidencial

Eymar Mascaro
08/Jul/2015
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Se o impeachment de Dilma Rousseff levar o vice Michel Temer ao cargo de presidente, a oposição dificilmente vai poder contar com o apoio do senador Aécio Neves; mas se o afastamento da presidente for acompanhado pelo impedimento de Temer assumir o posto, Aécio topa engrossar o coro da oposição e a cassar o mandato da presidente e também do vice.

O jogo está claro: Aécio não tem interesse em fortalecer Michel Temer porque sabe que o PMDB vai lançar candidato próprio ao Planalto em 2018, que pode ser José Serra, fazendo frente ao candidato tucano, que deve ser o próprio senador mineiro.

Como presidente da República, Temer vai dispor da chave do cofre e da caneta cheia de tinta, instrumentos poderosos que serão usados para fortalecer o PMDB e seu candidato.

Por quê Aécio aceitaria cassar o mandato de Dilma e impedir a posse de Temer na presidência? Porque seu partido está preparado para reivindicar no TSE o direito de Aécio Neves virar presidente, com o argumento de que foi o segundo colocado nas eleições de 2014. Outra hipótese é o PSDB pedir que o TSE marque nova eleição.

Esse verdadeiro jogo de xadrez já foi detectado pelo PT, que está denunciando o que chama de montagem no PSDB de um intrincado "esquema golpista", que pretende levar o senador tucano ao poder "no tapetão" e "na marra".

Os tucanos reagem, lembrando que apenas cumpririam a legislação eleitoral. Acontece que, se Temer não for beneficiado, o PMDB não apoiaria o impeachment de Dilma e, sem os votos dos peemedebistas, dificilmente a oposição conseguiria aprovar o afastamento da presidente.

Mas, enquanto o enigma envolvendo Dilma, Aécio e a tese do impeachment não é decifrado, outro senador interessado no jogo da sucessão de 2018, José Serra, chega à conclusão que a próxima eleição será sua derradeira oportunidade de tentar, pela terceira vez, ocupar o Palácio do Planalto, sonho que acalenta desde que presidiu a UNE e quando se elegeu deputado federal pela primeira vez, em 1982.

O tempo avança e a idade também: Serra está com 74 anos e terá 77 em 2018, ano da eleição.

Serra já declarou que é o político brasileiro que mais se preparou para ser presidente. Convencido de que Aécio Neves já é o "dono" da legenda presidencial do PSDB, para concorrer em 2018, o senador paulista está intensificando conversações com Michel Temer para ser candidato ao Planalto pelo PMDB.

Nesse caso, a candidatura de Serra ganharia musculatura se Temer substituir Dilma no cargo de presidente. Esse é o fantasma que assombra Aécio e o PSDB.

Aécio não está preocupado apenas com a hipótese de Serra ser candidato pelo PMDB. Sua preocupação inclui Geraldo Alckmin, que deseja ser candidato ao Planalto, mas, sentindo que também não teria a legenda no PSDB, estaria disposto a disputar a eleição pelo PSB, partido que participa de seu governo em São Paulo, inclusive com o vice-governador Márcio França.

Como o seguro morreu de velho, Aécio vai acenar para Alckmin, no momento oportuno, oferecendo a ele ser o seu vice. O sonho de Aécio é formalizar a chapa puro-sangue "café-com-leite", unindo os dois maiores colégios eleitorais do País, São Paulo e Minas.

Em tempo: Geraldo Alckmin chegou ao governo de São Paulo depois de ter sido vice de Mário Covas. Alckmin pode querer repetir a fórmula e aceitar o convite de Aécio para ser candidato a vice, pensando em se tornar o candidato do partido ao Planalto em 2022.

Mas, para que seu esquema funcione, é preciso que Aécio se eleja em 2018. Não esquecer, porém, que Aécio pode enfrentar Lula e Serra na próxima eleição, dois adversários "carne de pescoço".

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