Só a retomada dos investimentos ajudaria a sair da crise, diz Raul Velloso

Para o consultor econômico e especialista em finanças públicas, a crise política contamina o debate econômico, mas uma reação só é possível se o governo destravar os investimentos

Rejane Tamoto
12/Ago/2015
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Só a retomada dos investimentos ajudaria a sair da crise, diz Raul Velloso

O rebaixamento da nota de classificação de risco de crédito pela agência Moody’s na noite desta terça-feira (11/08) não deve provocar efeito sobre o processo de ajuste das contas públicas pelo governo. Até porque esta decisão já era esperada, segundo o consultor econômico e especialista em finanças públicas Raul Velloso, que nesta semana recebeu o prêmio Economista do Ano pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB)

Para ele, um efeito negativo sobre a economia ocorrerá com a perda do grau de investimento do país, que pode ser definida na próxima revisão da nota pela Standard & Poor’s (S&P).

O economista avalia que o ajuste nas contas dependerá mais de o país encontrar uma saída para a atual recessão econômica, que deverá ser por meio da solução para a crise política e a retomada dos investimentos.

O grande drama, diz, é que a crise política tomou conta da cena econômica. “É quase pregar no deserto insistir em reformas econômicas quando a parte política está bastante conturbada. Ainda assim, não devemos deixar o debate econômico cair e desaparecer. É preciso continuar insistindo nas coisas que precisam ser feitas, seja com esse governo ou com outro”, afirma. 

Ao receber a homenagem da OEB , na segunda-feira (10/08), Velloso disse durante o discurso que, embora uma outra agência de risco, a Standard & Poor's, tenha colocado a nota brasileira sob perspectiva negativa, ela informou que a condição pode melhorar se perceber que o governo retomou o controle do processo de aprovação de medidas no Congresso. 

Em entrevista ao Diário do Comércio, ele falou sobre o que considera uma prioridade para acabar com o atual marasmo na economia brasileira e de projetos de longo prazo, que não devem ser esquecidos.


A crise política tem tomado o debate econômico. O que o senhor pensa sobre isso?

Algo terá de ser feito para retomar o comando da economia. O que eu sinto hoje é que a questão da sobrevivência do governo ganhou uma importância muito grande para o próprio governo. 

Antes, parecia estar empenhado de corpo e alma em não perder o grau de investimento e, de repente, esse parece ser um objetivo que ficou em segundo plano, diante do temor da perda do próprio mandato. Não adianta querer segurar o grau de investimento se o próprio governo não estiver lá. 

Assim, temos que pensar em como o governo vai agir enquanto ainda estiver trabalhando para manter o mandato. Acredito que certamente fará concessões, algumas das quais antes não quisesse fazer na área de gastos.

Tanto é assim que a redução da meta fiscal (de superávit primário para 0,15% do PIB) foi feita sem pestanejar. A prioridade foi estabelecer uma linha de partida com a qual o governo não faria mais nenhum esforço de ajuste. O que não pode é um governo tão enfraquecido como este está, que não consegue aprovar nada e fazer nada. 

Mas a dificuldade é só do governo?

Não. Depois tem a dificuldade do próprio sistema político. Os políticos também estão na ordem do dia. O presidente da Câmara e do Senado, de alguma maneira, estão envolvidos em suspeitas. O que vai acontecer com eles? Esse não é um problema só do Executivo, mas também do Legislativo.

Ambos passam por um momento de grande fragilidade para tomar decisões. Enquanto ninguém toma decisões, o setor privado está sem norte. As entidades empresariais já estão se manifestando e pedindo a volta da regularidade. A discussão está menos centrada na economia e mais na transição para um governo mais forte e com um legislativo em ordem. 

O ajuste fiscal deixou de ser prioridade?

Agora, a prioridade é menos o ajuste fiscal e mais a retomada dos investimentos.  Isto porque o ajuste depende da recuperação da economia, ou seja, da recuperação da arrecadação de forma natural. 

Mas o problema é só político ou também depende de outras iniciativas do governo para a retomada do crescimento?

A questão política tomou toda a cena econômica. Assim, discutir a questão econômica sem levar isso em consideração soa artificial. De qualquer maneira, temos de fazer os ajustes. A questão fundamental é como vamos retomar os investimentos nesse quadro. 
 

E como os investimentos podem ser retomados?

Se você consultar o setor privado, verá que, em geral, ele está ressabiado e reticente. O governo tem de entrar em segmentos nos quais os investimentos deveriam naturalmente estar ocorrendo e que dependem dele, como no de infraestrutura. 

O grande desafio do governo será lidar com a crise política e ao mesmo tempo fazer um esforço para retomar os investimentos em infraestrutura.  No recente programa de concessões, há vários entraves que o próprio governo criou e que não foram removidos. 

Exemplo é essa insistência em querer que as tarifas e pedágios sejam os menores imagináveis. Ou seja, que os retornos sejam artificialmente baixos. Isto vai ter que mudar. É um comando que veio de cima e terá de ser desfeito porque essa é bola da vez. Novas soluções na área de investimento público e outras formas de parceria com o setor privado terão de ser testadas

O senhor sempre alerta para a necessidade de uma reforma no gasto público no longo prazo. Mas isso é uma pauta para o período pós recessão?

Sim. Nesse momento precisamos sair do marasmo na economia. Mas será preciso que se faça uma reforma no longo prazo. Em um estudo, verificamos que, mantidas as regras atuais de gastos com a Previdência e assistência, a percentagem sobre o PIB dobra até 2040 (de 75% para 150%). E isso não tem como financiar.

Seria preciso uma carga tributária desproporcional, uma possibilidade que não existe. Em uma economia que funcionasse para desfazer esse cenário, teria que haver hiperinflação, o que já ocorreu no passado e ninguém quer de volta. Mas essa discussão é para depois. Agora, nem pensar, pois o governo não tem apoio. 
 

E o que o senhor acha das medidas de combate à inflação atualmente?

É um problema que não parece tão difícil de resolver porque o Banco Central resolveu abraçar a causa da redução da inflação mais do que vinha abraçando antes. Além disso, quando a economia está desaquecida, fica mais fácil combater a inflação. O nosso maior problema é a recessão. 

FOTO: Jane Amorim/Divulgação OEB

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