Temer e o risco de uma "sarneyzação"
Presidente interino emite recados preocupantes à sociedade ao fazer sucessivas concessões, do radical MTST ao fisiológico PP

Em três semanas de governo completados nesta quinta-feira (02/06), Michel Temer acumula dois diferentes diagnósticos: para os otimistas, perdeu apenas um pouco da confiança que obteve por substituir Dilma Rousseff, mas para os pessimistas ele se aproxima perigosamente da “sarneyzação”.
É uma referência pejorativa ao estilo do então presidente José Sarney (1985-1990), que queimou o capital político como primeiro presidente civil na redemocratização e se curvou aos jogos mesquinhos no varejo do Congresso.
Vejamos. O otimismo que ainda cerca Temer vem dos acertos na escolha da equipe econômica e seu realismo para, por meio de uma votação no Senado, superar a interinidade.
Precisa, para tanto, de ao menos 54 votos. Mas há controvérsias em Brasília sobre a margem de conforto para chegar a isso num plenário de 81 senadores.
Ainda nesta quinta circularam duas previsões contraditórias. Uma blogueira da Globonews disse que Romero Jucá, senador e articulador de Temer depois de defenestrado do Ministério do Planejamento, disse que por seu mapeamento Dilma sofrerá um impeachment definitivo por 60 a 21 votos.
Mas o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, confessou estar sendo pego de surpresa pela desenvoltura dos vira-casacas. “Não estávamos esperando que acontecesse.”
Há um núcleo duro pelo impeachment, com algo em torno de 45 senadores. Mas alguns dos demais – talvez por puro fisiologismo, já que esperam ser compensados pelo governo – passaram a se declarar indecisos.
Não há nisso o mínimo efeito do cenário defendido por uma parcela do Partido dos Trabalhadores que consistiria em recolocar a presidente afastada no Planalto, para que ela encaminhasse ao Congresso emenda de eleição presidencial imediata e, em seguida, renunciasse.
A moral provisória da história é a de que Temer precisa permanecer vigilante, de olho nos desejos menos nobres dos partidos políticos, na mão dos quais é hoje um refém institucional.
Mas a exigência de sensibilidade do presidente interino tem limites que ele ultrapassou sem pestanejar, como a escolha de André Moura (PSC-SE) para a liderança do governo na Câmara dos Deputados – é um personagem com prontuário maior que a biografia – ou a entrega da presidência da Caixa a Gilberto Occhi, uma exigência do PP.
Além de destoar de outras escolhas eminentemente técnicas, como na Petrobras e no BNDES, essa concessão sinalizou para a sociedade que corremos o risco de prosseguir com parte do Estado aparelhado, com todo o comprometimento da ética e da eficiência que isso possa representar.
Digamos que se trate de um sintoma ainda leve da “sarneyzação”. Mas os sintomas passam a pesar de modo preocupante quando Temer transmite a ideia de que é capaz de envergar à mínima pressão barulhenta.
Ele o fez ao recriar o Ministério da Cultura, sem, no entanto, transformar em aliada a elite petista que considerava “um rebaixamento” o funcionamento das atividades sob uma estrutura burocrática mais leve, dentro do Ministério da Educação.
E voltou atrás novamente com relação às 11.500 unidades habitacionais que Dilma prometeu horas antes de deixar o Planalto, por mais que não tivesse para tanto o mínimo fôlego orçamentário.
Esse recuo procurou desarmar o MTST, que na quarta-feira (01/06) tentou invadir o gabinete da Presidência da República em São Paulo, na avenida Paulista, depois de ter acampado nas imediações da casa de Temer no bairro paulistano do Alto de Pinheiros.
O MTST deixou a avenida Paulista aos gritos de “vitória!’. E o pior é que os subordinados de Guilherme Boulos desta vez tinham razão.
Digamos que os efeitos orçamentários dessas unidades do Minha Casa, Minha Vida sejam minúsculos, por mais que sinalizem ao mercado a ideia de que a austeridade fiscal está sujeita a concessões circunstanciais.
O mesmo não ocorre, no entanto, com a generosidade do Executivo, ao empenhar R$ 50 bilhões nos próximos quatro anos, no processo de reajuste dos servidores, aprovado na madrugada de quinta pela Câmara.
O peso do funcionalismo federal na economia dos Estados menores é significativo e funciona em dois sentidos como valor de troca eleitoral:.tanto na votação popular para eleições de deputados e senadores quanto no voto dos congressistas, seja para o impeachment definitivo ou para as mensagens do Executivo naaprovação das reformas.
Mas imaginemos quando chegar o momento de tratar da Previdência, dos direitos trabalhistas ou das reformas política e tributária. Se funcionar o mesmo mecanismo de barganha, a previsão inevitável é que o país não sairá do lugar.
E é justamente isso que ninguém quer. Excetuada a forma incendiária de oposição que é desde já praticada pelo PT e por seus dois ou três partidos aliados.

