Terceiro protesto contra aumento de tarifa ocupa ruas de SP
Manifestações ocorrem simultaneamente em dois pontos da capital. Na Paulista, grupos de mascarados depredaram entrada do Metrô Consolação

O Movimento Passe Livre (MPL) iniciou, no fim da tarde desta quinta-feira (14/01), dois protestos simultâneos contra o aumento de tarifas do transporte coletivo público em São Paulo.
As manifestações começaram em frente ao Theatro Municipal (centro) até a avenida Paulista. Outro grupo saiu do Largo da Batata sentido estação Butantã do metrô (zona oeste da capital).
A manifestação terminou com oito prisões. À noite, após o final do protesto, houve incidentes entre manifestantes e seguranças da estação de metrô Consolação. Alguns manifestantes decidiram pular as catracas para não pagar a passagem e foram impedidos pelos seguranças.
Rojões espoucaram e vidros foram quebrados. A Polícia Militar deteve oito manifestantes acusados de participar do ato.
O policiamento no entorno do Theatro Municipal foi ostensivo, com a presença de policiais da Tropa de Choque e carros blindados específicos para controle de manifestações, conhecidos popularmente como caveirões.
No Largo da Batata, havia cerca de 50 viaturas. Na estação de metrô Faria Lima, que fica ao lado do Largo da Batata, policiais revistaram quem estava de mochila.
Organizações populares, entre elas os Coletivos Juntos, Rua Juventude Anticapitalista e o Sindicato dos Metroviários, se concentraram na Praça Sé e saíram em caminhada para se juntar ao ato convocado pelo Movimento Passe Livre (MPL), no Theatro Municipal.
Representantes do grupo informaram que a intenção era chamar atenção para a violência policial na repressão à manifestação de terça-feira (12/01).
A mobilização faz parte da série de protestos na capital paulista contra o aumento da tarifa de transporte público, que passou de R$ 3,50 para R$ 3,80.
Eles encontraram uma aglomeração maior de manifestantes na Praça Ramos de Azevedo, onde fica o teatro, por volta das 17h30.
O percurso foi acompanhado por cordões laterais de policiais da Força Tática e do Batalhão de Choque.
A universitária Luana Gurther, do Juntos, informou que os grupos formaram um bloco para agregar outros temas aos protestos. “Lembrar a luta contra o ajuste fiscal, que tende a continuar forte, e pautar as lutas democráticas para dar vazão às de 2013.”
Altino Melo, presidente do Sindicato dos Metroviários, afirmou que são os empresários que devem pagar pelo custo do transporte público e não os trabalhadores.
“Quando nos deslocamos, são eles que ganham. Seja porque vamos trabalhar para eles, seja porque vamos consumir produtos produzidos por eles.” Ele destacou que a entidade participa dos atos e defende a redução da tarifa com a perspectiva de uma tarifa zero.
O deputado estadual Carlos Gianazzi (Psol) também participou da concentração. Segundo ele, o partido entrou com representação no Ministério Público para apurar a ação da Polícia Militar na terça-feira.
“Além disso, como deputado, apresentei requerimento na Assembleia Legislativa para que o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, seja convocado para esclarecer a atuação das forças policiais.”
CUSTO DO TRANSPORTE
Enquanto o grupo caminhava pelas ruas do centro da capital paulista, pessoas que passavam pela região manifestavam apoio ao protesto.
De acordo com o comerciante Gilton Pereira, 50 anos, o valor de R$ 3,80 realmente é abusivo. “Está correto [protestar]. Tem de fazer alguma coisa. Isso é muito caro. É um absurdo um salário mínimo com esse valor e a passagem a R$ 3,80." Pereira, no entanto, discorda que haja o patrimônio público seja danificado. “Quebra-quebra não pode.”
“Uso metrô, trem e ônibus”. Este é o cotidiano da recepcionista Ana Lúcia Galera para se deslocar diariamente ao trabalho. “Eu pagava aproximadamente R$ 10 por dia, mas hoje pago cerca R$ 13.
O patrão banca uma parte, mas a gente também paga. Tem de lembrar isso.” Moradora do Capão Redondo, no extremo sul da cidade, ela disse que o alto custo da passagem fez com que ela deixasse de passear nos fins de semana. “Antes, era R$ 2 e até dava. Com esse valor, se sair de casa não vou ter para trabalhar”, reclamou.
Integrante do MPL, o estudante Matheus Preis afirmou que são exemplos como este que explicam a mobilização do movimento.
“Reforçamos que a primeira violência é o custo da tarifa, que exclui as pessoas do transporte. Os setores mais precarizados da classe trabalhadora muito vezes têm de escolher entre tomar um lanche ou voltar para casa. Cada aumento exclui mais pessoas do acesso à cidade”, concluiu.
De acordo com a Secretaria Municipal de Transportes, responsável pelos ônibus municipais, e a Secretaria Estadual dos Transportes Metropolitanos, que cuida do metrôs e dos trens estaduais, o reajuste ficou abaixo da inflação acumulada desde o último reajuste, em 6 de janeiro de 2015. A inflação acumulada no período foi de 10,49% e o aumento das tarifas foi estipulado em 8,57% para o bilhete unitário.
A tarifa de integração entre ônibus e trilhos [metrô e trens] passará de R$ 5,45 para R$ 5,92. Já os bilhetes temporais 24 horas, madrugador, da hora, semanal e mensal terão seus preços mantidos.
VIOLÊNCIA NA TERÇA-FEIRA
Na manifestação de terça-feira (12/01), o MPL informou à polícia o itinerário da manifestação minutos antes do início da passeata.
A Polícia Militar (PM), no entanto, não aceitou o roteiro. Após parte dos manifestantes tentar driblar o forte policiamento para seguir em direção ao Largo da Batata, em direção contrária ao que foi definido pela PM, policiais começaram a disparar bombas de gás lacrimogêneo, de efeito moral, e a bater com cassetetes nos manifestantes.
A polícia passou a disparar também contra a multidão que permanecia na Praça do Ciclista, o que gerou correria. Os manifestantes ficaram encurralados, tendo de um lado policiais da tropa de choque disparando bombas e, de outro, um cordão de policiais que impedia a saída deles da praça. A polícia chegou a atirar uma bomba em uma sacada de um apartamento na Avenida Paulista.
FOTO: Rovena Rosa / Agência Brasil

