Times do Brasileirão alcançam faturamento recorde, mas modelo financeiro expõe riscos

Receitas recordes em 2025 contrastam com aumento de custos e novas regras de sustentabilidade financeira. O equilíbrio entre a competitividade em campo e a saúde do caixa será o diferencial para a sobrevivência no novo ciclo regulatório

Diretor de conteúdo da Máquina do Esporte, professor de pós-graduação na Cásper Líbero, palestrante, autor de livros e especialista em marketing esportivo e comunicação estratégica
  • btn-whatsapp
Times do Brasileirão alcançam faturamento recorde, mas modelo financeiro expõe riscos

brasileirO futebol brasileiro registrou um patamar recorde de arrecadação em 2025. Segundo o Relatório Convocados 2026, divulgado na última quarta-feira (27/05), a receita total dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro chegou a R$ 14,3 bilhões, um crescimento de 32% impulsionado por diferentes frentes comerciais e operacionais.

O mercado de transferência de atletas contribuiu com R$ 3,9 bilhões, apresentando uma alta de 62% em relação ao ano anterior. Além disso, a entrada em vigor do novo contrato de direitos de transmissão, válido de 2025 a 2029, estabeleceu uma distribuição mais equitativa de recursos entre as equipes da elite nacional.

O setor de apostas esportivas consolidou sua presença como pilar das receitas comerciais, que atingiram R$ 3,1 bilhões (crescimento de 36%). No primeiro ano de regulamentação promovida pelo governo federal, as bets passaram a representar 34% de todo o faturamento comercial da Série A.

Preocupações

Apesar do aumento na entrada de recursos, os gastos com a manutenção e qualificação de elencos também atingiram níveis elevados. Os clubes da Série A investiram R$ 4,4 bilhões em contratações de atletas em 2025. A folha salarial acompanhou esse movimento, totalizando R$ 6,5 bilhões - o que representa um aumento de 22% na comparação anual. Esse cenário resultou em um Ebitda recorrente negativo de R$ 0,5 bilhão, sinalizando que a operação do futebol, sem considerar as vendas de jogadores, não se mantém.

Sustentabilidade

A partir de 1º de janeiro, teve início a operação do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), controlado pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf). As regras estabelecem limites rígidos para o endividamento de curto prazo e gastos com pessoal, que não devem ultrapassar 70% das receitas entre as equipes da Série A. Clubes que descumprirem as metas correm o risco de sofrer sanções que vão de multas e proibição de registrar atletas até o rebaixamento.

De acordo com o Relatório Convocados, se tais medidas tivessem sido implantadas em 2025, nove clubes da Série A, ou 45% do total, não seriam aprovados nos critérios finais do SSF.

Em levantamento sobre o mesmo tema, com metodologia e parâmetros diversos, a consultoria BDO apontou que 70% das equipes da primeira divisão desobedeceram a indicadores de sustentabilidade em 2024. O desequilíbrio é refletido na dívida líquida consolidada, que alcançou R$ 17,3 bilhões ao final de 2025.

Gestão

Os desafios financeiros afetam tanto clubes associativos quanto Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs). Atlético-MG, Botafogo e Corinthians concentram 43% de toda a dívida da Série A. Enquanto o Botafogo apresentou crescimento de receita, sua dívida líquida saltou para R$ 2,5 bilhões, com alavancagem considerada acima do ideal.

No modelo associativo, Flamengo e Palmeiras mantêm o predomínio financeiro, com o time carioca apresentando alavancagem confortável e o Palmeiras equilibrando investimentos com a venda de talentos descobertos em suas categorias de base.

Bons exemplos de gestão emergem de estruturas variadas. O Bahia, sob controle do Grupo City, e o Coritiba, que também adotou o modelo de SAF, têm demonstrado esforços para equilibrar receitas e despesas operacionais. Por outro lado, clubes tradicionais como Santos e Vasco da Gama seguem com situações financeiras fragilizadas, mesmo após mudanças em seus modelos jurídicos ou acessos de divisão.susten

A manutenção do patamar de receitas de TV, o endividamento líquido e a retração do mercado de apostas impõem a necessidade de orçamentos mais austeros num futuro próximo. Atualmente, cinco equipes (Grêmio, Internacional, Athletico, Coritiba e Vasco) enfrentam dificuldades para preencher o patrocínio máster após perderem, por motivos diversos, seu parceiro da área de apostas.

Mesmo casos como os de Santos e Bahia ilustram a nova realidade, com trocas de patrocinadores no segmento, mas por valores inferiores aos contratos anteriores. O equilíbrio entre a competitividade em campo e a saúde do caixa será o diferencial para a sobrevivência no novo ciclo regulatório.


**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

IMAGEM: Freepik

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada