Turbulências de julho derrubam real ao pior valor em 2015

Frente ao dólar, a moeda brasileira lidera o ranking de perda de valor entre 47 moedas no acumulado do ano. Analistas atribuem a queda à influência do ambiente interno

Estadão Conteúdo
01/Ago/2015
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Turbulências de julho derrubam real ao pior valor em 2015

O mês de julho foi de forte pressão para o real. Com a elevação do dólar na sexta (31/07) de 1,09%, a cotação chegou a R$ 3,417, a maior desde 20 de março de 2003. Em julho, a moeda americana subiu quase 10% em relação ao real e, em 2015, perto de 30%.

Em meio às disputas entre o Planalto e o Congresso, às mudanças nas metas fiscais pelo governo e a ameaça de perda do grau de investimento do país, o real despencou.

Embora o movimento de queda também tenha ocorrido no exterior, com as moedas de países exportadores de commodities, o real foi uma das três divisas que mais cederam no mês passado. No resultado acumulado de 2015, o real lidera o ranking de perdas.

"Não há como negar que o dólar reina hoje absoluto no mundo, contra todas as moedas e, particularmente, ante as divisas de emergentes e exportadores de commodities. Mas a queda está sendo maior no Brasil porque há um aumento da percepção de risco em relação ao país", disse José Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos.

Entre as 47 divisas negociadas à vista, o dólar subiu 10,09% ante o real, o que coloca a moeda na terceira posição de perdas no mês. A moeda americana subiu 10,54% comparada ao peso colombiano em julho e 10,91% em relação ao rublo russo, as duas piores.

No ranking do ano, o real é a pior moeda, sendo que a alta acumulada do dólar está em 28,57%.

O fato de os preços das commodities estarem caindo em todo o mundo, incluindo as matérias primas da pauta de exportação do Brasil, tem pressionado as divisas de vários países desde o início do ano.

 A proximidade do início do processo de alta de juros nos Estados Unidos é outro fator de alta para o dólar, com investidores já se antecipando a este movimento do Federal Reserve (FED, o banco central americano).

O Brasil, no entanto, passa por um agravante devido ao ambiente interno, com reflexo no aumento da busca por dólares.

Em julho, houve o rompimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, com o governo, o corte da meta fiscal para 2015, 2016 e 2017 e o rebaixamento, pela S&P, da perspectiva do crédito do País. São fatores que levaram a uma corrida em busca da segurança do dólar.

Para o economista da MCM Consultores Associados, Mauro Schneider, "se olharmos um histórico mais longo para comparar o real frente ao dólar, e uma cesta de países contra a moeda americana, em vários momentos se verá que a moeda brasileira se descolou. Isso acontece, tipicamente, em situações de aumento do risco doméstico." 

COTAÇÕES DISPARAM

Com as cotações encerrando julho acima dos R$ 3,40, parece claro que os tempos de dólar mais baixo, na faixa dos R$ 3,15, como visto no início do mês, ficaram para trás. Schneider disse que a consultoria revisará as projeções nos próximos dias. "Os R$ 3,15 previstos para o fim do ano ficaram obsoletos", comentou. "Há muito tempo não vejo tamanha frequência na revisão de projeções."

A opinião é compartilhada por Faria Júnior, da consultoria Wagner. "Na virada de julho, já imaginávamos que o dólar ficaria mais forte. Só que o movimento foi potencializado pelo horrível comportamento fiscal do governo", comentou. "A chance de perda de grau de investimento é enorme." 

Ele prevê para o fim de março de 2016, quando o primeiro trimestre já estará fechado, como data chave para a avaliação do grau de investimento. "A S&P costuma levar em média nove meses para fazer uma nova avaliação sobre o País", esclarece. 

Nessas condições, segundo o analista, fica difícil "recomendar venda de dólar", ainda mais em um ambiente de indefinição política e até possibilidade de impeachment da presidente.

Imagem: AE Conteúdo

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