Um fiasco épico de gestão política na Europa

O programa da troika era simplesmente impraticável, e continuaria a ser impraticável mesmo que os gregos estivessem dispostos a fazer mais sacrifícios

Paul Krugman
10/Jul/2015
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Seja qual for o desfecho dos eventos na Grécia — e acho difícil que haja alternativa à saída do país da zona do euro — o programa proposto pela troika aos gregos é um fiasco épico de gestão política.

Mesmo que ignoremos o custo humano e econômico desse programa, ele foi um fiasco total em sua tentativa de restaurar a solvência do país. Em 2009, antes de entrarem em vigor as políticas da troika, a dívida da Grécia correspondia a 126% do seu Produto Interno Bruto. Depois de cinco anos, esse percentual havia saltado para 177%.

Como isso aconteceu? Os gregos simplesmente continuaram a tomar emprestado montanhas de dinheiro?

A resposta é um sonoro não. A dívida grega, no final de 2014, era apenas 6% maior do que no final de 2009. É verdade que esse número reflete uma redução significativa da dívida privada, mas isso não tem nada a ver com a orgia de empréstimos que, conforme imaginam algumas pessoas, teriam sido contratados pela Grécia. Em vez disso, o que aconteceu, naturalmente, foi o colapso do PIB.

Tudo isso mostra que o programa da troika era simplesmente impraticável, e continuaria a ser impraticável mesmo que os gregos estivessem dispostos a fazer mais sacrifícios. Quanto mais eles cortassem, pior ficaria a situação.

Talvez pudéssemos dizer que as reformas estruturais teriam dado um impulso na competitividade. Mas a verdade é que são poucas as evidências a favor dessa crença tradicional em reformas desse tipo.

Alguns dos meus contatos mais tradicionais fazem questão de insistir que o caminho da austeridade era inevitável para a Grécia — e é verdade que, de uma forma ou de outra, o país teria de produzir um superávit primário.

SCHOT/De Volksrant/Amsterdã/The New York Times Syndicate

Se fosse possível desvalorizar a moeda, o rigor da austeridade exigida seria bem menor dado o impulso proporcionado por uma política monetária mais flexível. Mas no âmbito do euro, não havia outra alternativa senão uma austeridade implacável.

Contudo, o ponto a destacar aqui é que as medidas de austeridade acabaram sendo não apenas terrivelmente dolorosas, mas completamente inúteis, porque não foram acompanhadas de um perdão significativo da dívida.

Mas será que esse tipo de desfecho é sempre a regra? Não necessariamente — se fizermos as contas, fica claro que muita coisa depende do nível inicial da dívida. Se boa parte da dívida grega tivesse sido perdoada, o país teria tido ao menos o vislumbre de uma saída futura da crise.

Em vez disso, a Grécia foi empurrada para um ciclo de sofrimento cada vez mais agudo e sem esperança.

*Tradução: A.G. Mendes

SAIBA MAIS: Veja o vídeo com o comentário de João Batista Natali

 

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