Um político e a fé

A relação do cidadão com a política tem muito de irracional, exatamente como ocorre com o sentimento religioso

João Batista Natali
26/Nov/2015
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Episódios como a prisão do senador Delcídio Amaral provocam uma nova erosão na credibilidade do partido dele, mas ao mesmo tempo – e é no caso o mais grave – empurram mais para baixo a reputação dos políticos e a relação dos cidadãos com as instituições.

É um jogo de pêndulos, em que a descrença e o ceticismo, ao subirem na cabeça das pessoas, acabam por provocar a queda de uma mistura muito confusa de racionalidade e fé, que formata as imagens com que representamos a coisa pública.

Creio que na recente história brasileira tal mecanismo não ocorreu apenas durante o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), que estava longe de ser uma unanimidade, mas que irradiava sobre a população a imagem de competência do Estado e de potencial superação da pobreza por meio do progresso.

Depois dele, a sociedade seguiu dividida, com governantes – sobretudo Jânio e Lula – que orquestraram o antagonismo e estimularam a ideia de que pugilismo e política são no fundo a mesma coisa. O regime militar não entra nessa história, mesmo porque só um dos lados da polarização – o daqueles que mandavam – ditava as regras do jogo.

O fato é que a redemocratização, a partir de 1985, sofreu um envelhecimento precoce. Não se confirmou a previsão de que a oposição ao autoritarismo fabricaria gerações de dirigentes com a mesma concepção de democracia para disputar, mesmo como adversárias, o apoio da sociedade.

Qualquer cidadão produz com relação ao governo e ao Estado uma dupla narrativa. A primeira delas identifica, mesmo de modo nebuloso, a racionalidade hegeliana que vigora em cada Poder da República. A segunda já opera com amor e emoções, com a adesão a um partido ou a uma liderança por aquilo que eles inspiram em termos de fé.

Não é uma fé religiosa, teológica. Mas ela funciona segundo as mesmas estruturas pouco controláveis, porque deixam a razão de lado e passam a circular entre as pessoas sem que elas sejam obrigadas a recorrer a modelos mais complicados e que se edifiquem com os andaimes dos argumentos.

Pois esse componente, aquele em que a fé está abrigada, é fundamental para que se produza o engajamento do cidadão com a coisa pública.

E é justamente isso que deixa de existir quando o senso comum levanta os ombros, num gesto de incredulidade, e conclui que, afinal das contas, “todos os políticos são iguais”, já que deles não podemos esperar mais nada.

Não é algo partidarizado. O malufismo morreu em 2005, quando Paulo Maluf passou 40 dias na carceragem da Polícia Federal. O petismo começou a morrer com o mensalão (2005) e prosseguiu com o desencanto em que o petrolão agora o lançou. Não há, nos dois casos, uma atitude apenas racional. É o emocional da fé que vai embora, que se desfaz e deixa de habitar na memória e na vontade das pessoas.

Pois é justamente a reação que a prisão de Delcídio despertou. Seja do lado petista, seja do lado daqueles sem afinidades políticas com o PT. A fé despenca, e com isso os brasileiros passam a gostar um pouquinho menos do Brasil.

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