Varejo aumenta rigor na concessão de crédito em meio a recorde de inadimplência
Com 82 milhões de consumidores negativados, setor de supermercados aposta em análises mais criteriosas do score dos clientes. Para economista, restringir o crédito preserva o caixa no curto prazo, mas reduz vendas futuras

O Brasil atravessa um momento crítico em suas métricas econômicas fundamentais. Segundo o recente "Mapa da Inadimplência do Brasil: 10 Anos", divulgado pela Serasa, o número de brasileiros que não conseguem honrar seus compromissos saltou de 59 milhões para 82 milhões na última década. Hoje, dois terços da população economicamente ativa do país possuem o CPF negativado. O montante das dívidas saltou de R$ 348 bilhões em 2016 para R$ 539 bilhões em 2026, corrigido pela inflação.
Este cenário de sufoco financeiro tem contaminado a percepção do brasileiro sobre a economia, levando o Governo Federal a preparar medidas emergenciais, como programas de renegociação de dívidas com descontos de até 80% e a antecipação de recursos do INSS e FGTS, visando injetar liquidez no mercado até maio. No centro desse debate está o varejo alimentar e o desafio de vender para um público endividado, sem comprometer a saúde financeira da própria empresa.
Para o Grupo Savegnago, com mais de 60 supermercados pelo interior de São Paulo, a resposta não está em parar de oferecer crédito, mas sim em realizar uma análise mais refinada do perfil do consumidor para manter o equilíbrio entre volume de vendas e responsabilidade social. Com 40% das vendas concentradas em seu cartão private label, a rede utiliza bancos de dados e scores de crédito para garantir que o limite oferecido seja compatível com a capacidade de pagamento.
"Nós adotamos critérios baseados na capacidade de compra utilizando o score do cliente, que é um resumo seguro de sua vida financeira. O rigor na análise é, na verdade, um ato de proteção ao consumidor", afirma Alexandre Souza Magro, diretor de serviços financeiros do Grupo Savegnago. De acordo com ele, é cada vez maior a parcela dos clientes que os procuram já carregando dívidas e com um score mais baixo.
Clientes que utilizam o cartão apresentam um consumo 80% maior do que aqueles que não possuem o produto, diz. Desde 2014, mais de 400 mil cartões foram emitidos pela rede. Para garantir que a conveniência dos parcelamentos não se torne um problema, a rede aposta em orientação constante. "Na nossa central de atendimento, a orientação é absoluta: usar o crédito de maneira responsável, priorizar o pagamento integral da fatura, evitar o crédito rotativo e, caso haja dificuldade, buscar opções de parcelamento com juros menores", afirma o diretor.
Segundo Souza Magro, o volume de parcelamentos e o comportamento de pagamento dos clientes da rede têm se mantido lineares. “Não queremos que o cartão se torne uma fonte de angústia, mas sim uma facilidade de conveniência. Mesmo assim, esperamos um ano de equilíbrio na capacidade de pagamento do público e nos índices de inadimplência", ressalta.
Peneira - A abordagem da rede Dalben, com quatro supermercados na Região Metropolitana de Campinas, é parecida. Iniciante na concessão de crédito aos clientes - ela lançou seu cartão próprio em agosto de 2025 -, a supermercadista também diz que tem sido rigorosa na liberação de recursos. A "peneira é estreita", segundo Adilson Roza, gerente financeiro da rede, com taxa de aprovação de crédito em torno de 30%. Embora o novo cartão tenha sido criado para incentivar a recorrência de compras, diz, a barreira da aprovação é alta.
Roza destaca que os clientes não mudaram o hábito de ir ao mercado, mas estão gastando substancialmente menos, o que impediu que a meta inicial de 2,5 mil cartões em seis meses fosse atingida. "A cada mês, o consumo vem piorando e temos menos liberação de crédito. Não é que o cliente não esteja buscando, mas a administradora está cada vez mais criteriosa", explica o gerente.
Para quem consegue o cartão, Roza explica que o relacionamento começa com cautela: um limite inicial de R$ 300, que só aumenta após dois meses de pagamentos pontuais, sem juros e com recorrência de compra comprovada. "Se houver indicação negativa, não cedemos. A qualquer momento isso pode não dar certo", afirma.
Entre fevereiro e março de 2026, Roza diz que houve um aumento de 6% na adesão ao parcelamento. Para acompanhar a necessidade do público, a rede ampliou o parcelamento padrão de duas para três vezes, podendo chegar a cinco vezes em parcerias pontuais com fornecedores. Um dos pontos de destaque, segundo o diretor, é tentar combater o endividamento estrutural, se posicionando contra o crédito consignado, modalidade de empréstimo que permite descontar parcelas diretamente do salário ou benefício do trabalhador, aposentado e pensionista do INSS.
Refletindo essa postura de controle de riscos, a rede também aboliu o uso de cheques pré-datados desde novembro do ano passado. Olhando para o futuro, o cenário desenhado pelo executivo é de pessimismo moderado. Com a chegada do ano eleitoral, a insegurança e a dúvida devem pautar o mercado. "A perspectiva é de piora, a menos que haja uma participação efetiva do governo em tentar melhorar a situação do povo", diz Roza.
Crise profunda - Com as dívidas se sobrepondo, a população tenta reorganizar as finanças pela via judicial. Nos últimos cinco anos, mais de 140 mil processos pedindo repactuação de débitos ingressaram na Justiça com base na Lei do Superendividamento. A legislação, que visa garantir o "mínimo existencial" de R$ 600, tem sido cada vez mais acionada. Apenas em 2025, foram 60,1 mil ações. No entanto, um estudo da plataforma Juit, com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revela que 63% dos pedidos são negados pelos tribunais.
Para a economista e professora da ESPM, Paula Sauer, esse volume processual é o sintoma de uma crise muito mais profunda, que coloca em xeque a viabilidade do atual modelo de crédito no país. "A resposta não está na renda ou no crédito, mas na interação entre ambos", explica.
A economista observa que, enquanto a renda média do brasileiro cresce de forma lenta e instável, marcada pela informalidade, o crédito passou a ocupar um papel central na sustentação do consumo, funcionando como uma extensão do salário. "Quem não tem dinheiro, passa no cartão, usa o cheque especial e parcela. Sob a ótica comportamental, isso altera a percepção do custo real. O foco deixa de ser o valor total e passa a ser a parcela que cabe no bolso", analisa.
No entanto, ela diz que essa dinâmica ganha um novo componente tecnológico: a inteligência artificial (IA). A economista destaca que, com algoritmos assumindo o papel de analistas de crédito, as decisões tendem a se tornar cada vez mais precisas e podem causar a exclusão sistemática das classes C e D.
Ela lembra que muitas redes vêm abandonando o crediário próprio, que é historicamente mais flexível, e direcionando os clientes para o cartão de crédito bancário. O resultado é um paradoxo econômico perigoso, opina a especialista. Se, por um lado, o rigor da IA limpa os balanços das empresas, por outro, reduz o universo de consumidores elegíveis.
Com um "mundo de consumidores com nome sujo", a economista lembra que a oferta de crédito cai, o consumo despenca e a produção industrial sofre, podendo gerar estoques lotados e demissões. Por essa razão, Paula aponta que as empresas vivem um dilema: restringir demais o crédito preserva o caixa no curto prazo, mas sacrifica a relevância e a escala no futuro.
Para 2026, ela indica um cenário desafiador, com a inadimplência projetada em patamares elevados e a conjuntura global pressionando os preços internos. Diante desse quadro, opina que o setor precisará ser híbrido e adaptativo, combinando vendas à vista com descontos reais e parcerias com fintechs. No entanto, para a economista, a solução definitiva passaria por educar o cliente no ponto de venda — um desafio difícil de se realizar e, por vezes, contraditório para o comércio.
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