Xadrez complicado
Caso Temer substitua Dilma, o PMDB se fortaleceria de tal maneira que se tornaria mais um adversário difícil para o candidato tucano vencer na eleição de 2018
Apesar de seu nome estar incluído na relação dos políticos acusados de recebimento de propinas no escândalo da Petrobrás, no bojo das investigações da Operação Lava-Jato, o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, poderá assumir a presidência da República, por três meses, caso Dilma Rousseff e o vice Michel Temer tenham seus mandatos impugnados pela justiça eleitoral.
Cunha é o terceiro personagem na linha da sucessão presidencial por ser presidente da Câmara dos Deputados. Mas, se também ele for impedido de substituir a presidente e o vice, caso venha ser indiciado ou condenado, o cargo de presidente da República seria ocupado, então, pelo presidente do Senado, o também peemedebista Renan Calheiros, igualmente envolvido na mesma Operação Lava-Jato presidida pelo juiz Sérgio Moro, pelo mesmo motivo.
O pedido de impugnação do resultado da eleição do ano passado, que o PSDB protocolou no TSE, acusando a chapa Dilma/Temer de ter cometido irregularidades durante a campanha, caso seja acolhido pelo tribunal, abriria a porta para que Eduardo Cunha e Renan Calheiros cheguem à presidência da Repúblioca na maciota, isto é, sem terem recebido um único voto nas urnas. Mas, é o que reza a Constituição.
A apelação do PSDB à justiça eleitoral embute dois objetivos, se ocorresse o impedimento da chapa PT/PMDB: 1- o partido tentaria convencer os ministros do TSE de que o senador Aécio Neves teria o direito de assumir a presidência da República na vacância do cargo, por ter sido o segundo colocado nas eleições de 2014; e 2- falhando essa primeira tentativa, o PSDB pediria ao TSE para marcar uma nova eleição, em 90 dias. Até que a eleição chegue, o presidente interino da República seria Eduardo Cunha ou Renan Calheiros.
(Detalhe: na hipótese de Dilma e Temer serem cassados e de Cunha e Calheiros serem impedidos de assumir a presidência, o cargo seria ocupado, então, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandoviski, como ocorreu após a deposição do ditador Getúlio Vargas pelos militares, em 1945, quando assumiu o cargo o presidente do STF, ministro José Linhares, o primeiro cearense a chegar à presidência da República).
Ao PSDB, no entanto, não interessa o afastamento de Dilma Rousseff, se também o vice Michel Temer não for impedido de assumir a presidência. Caso Temer substitua Dilma, o PMDB se fortaleceria de tal maneira que se tornaria mais um adversário difícil para o candidato tucano vencer na eleição de 2018, principalmente se o senador José Serra aceitar o convite para ser candidato pelo PMDB.
É por isso que Aécio Neves continua em dúvida sobre sua posição em relação ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Sua liderança nas pesquisas decorre sobretudo em função da boa votação que alcançaria em São Paulo. Aécio já mediu a extensão do prejuízo que teria entre os eleitores paulistas, se Serra vier a ser candidato.
O quadro ficaria mais embolado ainda se também o governador Geraldo Alckmin se candidatar ao Planalto pelo PSB. Como o seguro morreu de velho, Aécio quer que Alckmin seja seu vice na próxima eleição, formando a chapa café-com-leite.
Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin, todos ainda integrados ao PSDB, defendem a mesma linha de pensamento: os três acham que vão ganhar a eleição em 2018, devido à fragilidade que tomou conta do PT devido à crise econômica, cujos relexos negativos poderiam contaminar a candidatura de Lula.
Como os três acreditam que serão eleitos, é natutal que todos eles teimam em ser candidatos, mas a vantagem no partido é do senador Aécio, que já assegurou a legenda tucana por ter sido muito bem votado em 2014, alcançando 51 milhões de votos, mesmo sendo derrotado por Dilma Rousseff, que arrancou das urnas 54 milhões de votos.
Além das virtuais candidaturas de Lula, Aécio, Serra e Alckmin, o quadro de candidatos na próxima eleição pode ser enriquecido com mais a participação da ex-ministra Marina Silva, que já conseguiu o registro definitivo de seu partido, o Rede Sustentabilidade, no TSE. O jogo da sucessão de 2018, portanto, está no tabuleiro de xadrez à espera da movimentação da torre, do peão, da rainha e principalmente do rei, para se saber quem dará o xeque-mate nos adversários.
PS: adendo importante: se o TSE cassar Dilma e Temer e convocar nova eleição em 90 dias, os eleitores vão assistir a um duelo interessante nas urnas, Aécio versus Lula.

