[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Bruno Rossini é diretor sênior de Comunicação da 99. Para ele, o potencial do mercado de entregas “é estrondoso”, disse em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS. “Deveria ser já dez vezes maior do que é e pode crescer 20 vezes no curto prazo.” Segundo dados da Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes (Abrasel), o setor de food service movimentou R$ 455 bilhões em 2024, alta de 9,4% sobre 2023. Ainda não há dados sobre 2025, mas se o ritmo foi mantido estamos falando de um mercado de meio trilhão de reais. Apenas a fatia do delivery já ultrapassou os R$ 100 bilhões, segundo o site de estatísticas Statista. Não à toa dois players chineses (99Food e Keeta) decidiram entrar forte na briga.
O líder iFood tem market share superior a 80%, atua em mais de 1,5 mil cidades brasileiras, traz 400 mil estabelecimentos parceiros, 500 mil entregadores e 55 milhões de clientes. Criada em São Paulo em maio de 2011 (por Eduardo Baer, Felipe Fioravante, Guilherme Bonifácio e Patrick Sigrist), lançou seu serviço em site e aplicativo em 2012. No ano seguinte, recebeu investimentos da Movile, grupo brasileiro criado por Fabricio Bloisi. Desde 2023, pertence integralmente ao conglomerado holandês Prosus – um gigante que também controla Decolar, OLX Brasil e Sympla. Bloisi é CEO global da Prosus.
KEETA – Esse perfil mostra o tamanho da briga e dos investimentos no setor. O mais novo player é a Keeta, que passou a operar oficialmente no Brasil dia 1º de dezembro. Marca de outra corporação gigante, a Meituan, que atua em várias frentes – do food service a plataformas de reserva de hotéis e mobilidade urbana. Em 2024, o grupo faturou o equivalente a US$ 48,3 bilhões (R$ 262 bilhões) e teve lucro anual de aproximadamente R$ 28 bilhões. O delivery de alimentos responde por 29% das receitas totais. Wang Xing, chairman e CEO da Meituan, afirmou no relatório de resultados de 2024, apresentado em março do ano passado, que “o food service tornou-se importante motor de crescimento para o setor de alimentação” e que o varejo sob demanda é “um componente indispensável para todo o segmento varejista”.
Para a Meituan, varejo & tecnologia são uma única palavra. A companhia afirma que expandirá os investimentos em tecnologias de ponta e aplicações como inteligência artificial (IA), entrega aérea não tripulada e veículos de entrega autônomos. “A longo prazo, estamos convencidos de que a tecnologia continuará a transformar o setor varejista”, disse Xing. A empresa afirma também ter forte compromisso com responsabilidades sociais, melhorando o bem-estar dos entregadores e promovendo o desenvolvimento sustentável do ecossistema de serviços locais. “Nosso objetivo não é apenas impulsionar o setor e as inovações tecnológicas, mas também contribuir para a sociedade em geral.”
BRASIL – A programação de investimentos da companhia para o Brasil nos próximos cinco anos envolve R$ 5,6 bilhões, sendo que o primeiro R$ 1 bilhão foi investido no projeto-piloto em Santos e São Vicente (SP), em outubro, e na chegada da marca em dezembro à capital paulista. Segundo a empresa, a operação inicial tem 27 mil restaurantes e 98,2 mil entregadores na região metropolitana de São Paulo. O pacote de boas-vindas da Keeta para os usuários é um cupom de R$ 200 de desconto. Como vantagem, a empresa oferece o horário garantido, reembolsando até R$ 50 quando há atrasos nas entregas.
O negócio trouxe para o Brasil duas tecnologias chinesas: um capacete inteligente com rastreamento via bluetooth e comando de voz e um navegador. Rodrigo Farah, o diretor de Marketing da Keeta, anunciou no LinkedIn a primeira campanha no Brasil, apresentando Fábio Porchat como embaixador da marca. “Mostrando que agora São Paulo tem um delivery mais rápido, mais inteligente e sem nenhuma pegadinha nos cupons e descontos”, escreveu Farah. Em declarações públicas, o CEO Tony Qiu avalia o mercado de delivery brasileiro como supercompetitivo e com potencial de crescimento na ordem de 20% ao ano.
Em entrevista veiculada pela Abrasel, Qiu afirmou que o mercado brasileiro é muito fragmentado, com muitos restaurantes pequenos. “Nos EUA, as grandes redes representam 40% das vendas. Aqui são apenas 10%”, afirmou a José Eduardo Camargo, head de Conteúdo e Inteligência da Abrasel. “Por isso, desenvolvemos ferramentas digitais para ajudar pequenos restaurantes a crescer e melhorar os lucros.” Qiu estima que o Brasil tenha entre 50 milhões e 60 milhões de consumidores ativos de delivery e acredita que o número pode dobrar.
99FOOD – Após uma primeira empreitada entre 2018 e 2022, o delivery da 99 está de volta. Em abril de 2025, a companhia anunciou R$ 1 bilhão em investimento na retomada. E já dobrou a aposta (hoje, e empresa tem R$ 2 bilhões empenhados). Recomeçou a operar em 40 cidades, sendo oito regiões metropolitanas e estabeleceu como meta até junho de 2026 estar em 100 municípios. A 99Food reinaugurou suas atividades com 20 mil restaurantes e 50 mil entregadores cadastrados, mas não informa quais são os números atuais.
Para fazer frente à predominância do iFood, a companhia lança mão de uma estratégia simples, que é não cobrar mensalidades e comissões dos restaurantes. A empresa oferece dois planos para as lojas se cadastrarem. O primeiro com taxa de 0%, com a condição de que os pratos sejam vendidos a preço de balcão. O outro, é de 8,9% sobre cada venda. Rossini, diretor sênior da 99, diz que em ambos os modelos os empresários conseguem reduzir os custos do serviço de entrega em até 30%. O resultado são descontos para o consumidor final.
Rossini diz que a “99Food é a grande aposta da DiDi, globalmente”. O Brasil é o maior mercado da companhia fora do país. A companhia teve receita em 2024 de cerca de US$ 29,6 bilhões (R$ 161 bilhões), com um portfólio de serviços que vai de transporte de bens e passageiros a aluguel de bicicletas. “Entendemos de mobilidade, logística, e somos uma empresa com DNA brasileiro e a maior cobertura territorial que existe”, afirmou Rossini.
CONCORRÊNCIA – Uma característica da concorrência no setor de food delivery é que a decisão do consumidor, entre um aplicativo e outro, acontece numa questão de minutos. Marcelo Toledo, supervisor da área de Marketing da ESPM, diz que “o mesmo restaurante pode ter nas três plataformas preços diferentes”. A escolha, segundo ele, “depende do que aquela plataforma vai dar de condição para que comprem no restaurante”. Quesito em que os descontos são decisivos.
Toledo destaca uma característica dos players asiáticos. “A China tem uma coisa muito interessante: eles não perdem dinheiro, porque não estão pensando em 2027, mas em 2035”, afirmou o especialista. “Acredito que o diferencial deles vai ser preço e tarifa, porque é o que o consumidor entende.”
A briga será pesada. E extrapola investimentos e descontos. Em outubro, a Justiça de São Paulo decidiu em favor da Keeta, que dizia sofrer “barreira ilícita por parte da 99Food com o objetivo de evitar a livre concorrência”, por meio de exclusividade em contratos com restaurantes parceiros. A 99 recorreu da decisão e venceu. No final de novembro, a Keeta voltou a processar a 99Food, desta vez porque a concorrente registrou a palavra Keeta nas buscas do Google, às vésperas da entrada da empresa no país, de modo que quem clicasse em links com a palavra era direcionado para anúncios da 99Food, que prometeu recorrer.
RAPPI – Outro player relevante no país é a Rappi. Fundada em agosto de 2015 em Bogotá (Colômbia), por Simón Borrero, Felipe Villamarín e Sebastian Mejía, era inicialmente um aplicativo que conectava pequenos negócios com usuários próximos. Seu grande diferencial era o botão Rappi Antojo, que permitia aos usuários pedir qualquer coisa. Segundo a empresa, em poucos meses ela incorporava restaurantes, redes de fast-food, farmácias, supermercados, “tornando-se o primeiro SuperApp da América Latina”.
A empresa atua no Brasil desde 2017. Segundo postagem feita no LinkedIn por seu CEO no Brasil, Felipe Criniti, a empresa está construindo um novo modelo de como ecossistemas se conectam para gerar mais valor ao consumidor. Assim como o BaaS (Banking as a Service) transformou o setor financeiro, “acreditamos que chegou a hora de um novo movimento: DaaS (Delivery as a Service)”, afirmou Criniti. Ele se refere a soluções como a recém-anunciada parceria com o PicPay, o PicPay Delivery, que permite que a pessoa peça em restaurantes e mercados diretamente pelo app PicPay sem precisar baixar outros aplicativos. Toda a jornada, da escolha dos produtos, passando por pedido, pagamento e acompanhamento da entrega acontece no próprio aplicativo.
IFOOD – Pelo lado da líder iFood, segundo os últimos números divulgados, foram 180 milhões de pedidos entregues. O recorde mensal, destaca a companhia, envolve todas as categorias vendidas na plataforma, além da comida, como farmácia, bebidas, supermercados e pet shop. E os planos vão muito além do mercado de food delivery. O projeto é criar um ecossistema de serviços como as grandes plataformas chinesas cujas subsidiárias são as suas maiores concorrentes hoje. Os aplicativos iFood agora incluem o aluguel de 45 mil bicicletas na América Latina e uma fintech, o iFood Pago. Isso sem falar em novas parcerias com empresas como Decolar e Uber, que convergem no que o CEO do iFood, Diego Barreto, chama de “Nova Economia”.
Em seu LinkedIn, Barreto declarou recentemente que “em 2025, o iFood fez 1,7 bilhão de entregas, teve meio milhão de entregadores nas ruas e ajudou mais de 500 mil comerciantes a crescer”. Em outra postagem, afirmou que “o que empolga de verdade é ver nossa ambição de virar uma plataforma completa tomando forma”. O investimento do iFood atualmente em execução no Brasil é de R$ 17 bilhões entre abril de 2024 e março de 2026 – o maior aporte registrado entre todas as empresas do setor.
E-COMMERCE – A consultoria Wordpanel by Numerator, fusão realizada este ano entre a britânica Kantar e a americana Numerator, avalia o mercado brasileiro de food delivery sob a perspectiva do e-commerce. Nos últimos 12 meses, o e-commerce em alimentação fora do lar (food service) atingiu 77% dos consumidores online no país, com frequência média de uma vez por mês. Segundo os pesquisadores, as transações em dias úteis vêm superando os fins de semana – anteriormente, o brasileiro tendia a consumir mais delivery aos sábados e domingos. Eles ainda dizem que a alimentação já concentra 62,8% do valor movimentado pelo e-commerce. “Com a entrada de novos players”, afirmou David Fiss, diretor comercial da consultoria, “o formato (food delivery) projeta para o futuro um aquecimento significativo”. No Brasil, o e-commerce como um todo movimentou, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), R$ 225 bilhões em 2024. Um salto de 119% em cinco anos: eram R$ 102,7 bilhões em 2020.
Há empresas, no entanto, que preferem atuar fora do sistema dos gigantes do food service. É o caso da Di Blasi Pizzas, rede de 52 franquias e faturamento de R$ 60 milhões por ano, com unidades em todas as regiões do país, que realiza 30% dos pedidos via telefone, WhatsApp ou pelo app Di Blasi, de um total de 60 mil a 70 mil pedidos por mês. “A principal vantagem é financeira: não sofremos com as taxas altas e muitas vezes abusivas cobradas pelas grandes plataformas”, afirmou o CEO da companhia, Arnaldo Di Blasi, que ressalta também que seu aplicativo reforça a relação com o cliente e a fidelização da marca. Os pedidos feitos diretamente à pizzaria têm um preço fixo de R$ 5. Como os aplicativos grandes já fazem parte do hábito do consumidor, Di Blasi diz que “o desafio é educar e migrar esse cliente para nossos canais diretos”.
Outra questão importante nesse mercado é a relação com as frotas de motoboys que circulam pelas grandes cidades. A 99Food está investindo R$ 50 milhões em cinco anos para criar pontos de apoio nos municípios em que atua, onde os entregadores possam estacionar ao longo do dia. Em novembro, já foram instalados pontos em Goiânia e no Rio de Janeiro. A empresa remunera cada motoqueiro em R$ 250 por 20 entregas diárias, sendo cinco de comida. Também no mês passado, a Keeta reuniu-se com o Sindicato dos Motociclistas de São Paulo (Sindimoto-SP) para debater melhorias no setor – uma iniciativa, segundo a entidade, inédita da parte dos aplicativos.