Ricardo Pastore, ESPM: "O Brasil não tem estrutura para suportar uma Selic muito baixa"

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Professor afirma que a desaceleração mostra que a política de contenção tem funcionado
(Andre Lessa/Agência DC News)
  • "O Brasil não tem infraestrutura, não tem produção, [com juro baixo] aí a inflação estoura. Nossa faixa de Selic é 8% a 12%, mais para 8%"
  • "O varejista deve repensar a loja, o atendimento, desenvolver novos processos operacionais e canais e diminuir a dependência da mão de obra"
Por Anna Scudeller

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
No último Relatório Focus do ano, divulgado pelo Banco Central (BC) na segunda-feira (29), a projeção do mercado é que 2026 terá inflação sob controle (4,05%) e Selic ainda na casa dos dois dígitos (12,25%), contendo o avanço do PIB (1,80%). Junte-se a isso uma Copa do Mundo (que mexe com as vendas) e as eleições (ainda polarizadas) e o varejo pode esperar um ano complexo. Ricardo Pastore, professor de Varejo da ESPM, diz que a política contracionista está funcionando. A inflação acumulada fechou em novembro em 4,46% e a projeção do mercado é que encerre 2025 em 4,32%. “Significa que a política de contenção de inflação está funcionando”, afirmou Pastore em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS. “Pelo lado mais dolorido, infelizmente.”

Com resultados do PIB em desaceleração – ao longo de 2025, no acumulado de quatro trimestres, ele saiu de crescimento de 3,5% (começo do ano), para 3,2% (fim do primeiro semestre) e fechou em 2,7% (setembro). A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, também mostra o pé no freio. O Comércio Varejista avançou 2,1% em 12 meses e o Comércio Varejista Ampliado, 0,7%, ambos rodando já abaixo do PIB. Ainda assim, na avaliação de Pastore a taxa de desocupação não irá cair. O desemprego no trimestre encerrado em novembro ficou em 5,2%, menor nível da série histórica.

O que poderia ser boa notícia para o varejo (mais empregos, mais renda, mais vendas), traz uma preocupação recorrente para o setor: encontrar mão de obra. A escassez no varejo, segundo ele, “só vai piorar” em 2026. Segundo Pastore, parte das razões para isso são os novos modelos de trabalho disponíveis, como o de entrega por aplicativos, e ao fato de hoje a demanda por tempo livre ser maior. Com esse cenário, ele diz que as alternativas estão relacionadas à inovação, como o uso de inteligência artificial. “As empresas vão precisar ser mais inteligentes em determinados processos,” disse. “O varejista vai entender que essa necessidade precisa ser revista.” Confira a entrevista.

Escolhas do Editor

AGÊNCIA DC NEWS – O PIB de modo geral e do Comércio em particular já mostra desaceleração. O que isso significa para o varejo no ano que vem?
RICARDO PASTORE –
 A política de contenção de inflação está funcionando. Pelo lado mais dolorido, infelizmente.

AGÊNCIA DC NEWS – O que poderia mudar essa trajetória?
RICARDO PASTORE –
A queda na taxa de juros, que traria uma resposta rápida. Mas ninguém está vendo condições para isso por enquanto. Então, essa política de juros altos deve persistir.

AGÊNCIA DC NEWS – Você vê algumas propostas que contornem ou minimizem os efeitos da Selic alta?
RICARDO PASTORE – 
No setor de Casa & Construção, o governo lançou recentemente um programa de reforma [Reforma Casa Brasil, financiamentos de R$ 5 mil a R$ 30 mil para famílias com renda de até R$ 9,6 mil], com R$ 40 bilhões em créditos. E são enviados diretamente ao consumidor. Não passa pelo agente financeiro. Então, se houver uma boa educação e comunicação, esse dinheiro vai ajudar a população de baixa renda a acelerar os projetos de melhoria em suas moradias. Isso puxa muito o consumo, mas é uma coisa muito isolada nesse setor, que foi um dos que mais sentiu. 

AGÊNCIA DC NEWS – O Consumo das Famílias costuma segurar um pouco o crescimento, não?
RICARDO PASTORE –
 O principal canal é o alimentar. Vimos piorar ainda mais a situação com a guerra tarifária promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Isso elevou o preço de alguns itens da cesta básica, mas agora já baixou. Vamos perceber o reflexo disso, talvez já na próxima publicação da PMC.

AGÊNCIA DC NEWS – Como você avalia a política de juros do BC?
RICARDO PASTORE –
 Acredito que essa política do Banco Central não vai mais funcionar por muito mais tempo. 

AGÊNCIA DC NEWS – Por quê?
RICARDO PASTORE –
 Não é só o fator preço que vai conseguir segurar o consumo. A economia por si só vai criando recursos, vai atrair gente para trabalhar. Essas pessoas que começam a trabalhar recebem, consomem e essa máquina gira de alguma maneira.

AGÊNCIA DC NEWS – Nada de queda na Selic, então?
RICARDO PASTORE – 
O Banco Central não consegue reduzir. Ele dá um fio de esperança de que, talvez, na próxima reunião ou na seguinte, mude. A gente não sabe se vai cair, ou manter como está. Subir não vai. O provável é se manter estável por um tempo para depois começar a cair lentamente. 

AGÊNCIA DC NEWS – O que o varejista, principalmente o de pequeno e médio porte, deve fazer nesse cenário?
RICARDO PASTORE –
 Um bom planejamento. O varejista sente isso diretamente. E se ele não fez um bom planejamento, se está com o estoque parado, as contas estão vencendo, tem de ir ao banco pegar dinheiro para pagar fornecedor… Isso trava o fluxo de caixa de alguns varejistas, e com isso ele não repõe os estoques.

AGÊNCIA DC NEWS – E num cenário macro, do setor. Como está a expectativa para investimentos em geral?
RICARDO PASTORE –
 Ainda estamos vendo um cenário de certa desestruturação, empresas se recuperando judicialmente, outras com problemas. Por exemplo, se uma grande varejista regional fosse às compras, ele poderia crescer por meio de aquisição. Eu não estou vendo isso. Está havendo só crescimento orgânico. Agora, isso abre uma brecha para varejistas de fora entrarem. Porque há mercado. O Brasil é muito grande, o nosso mercado é muito grande. Talvez seja um bom momento para o lançamento de novas redes.

AGÊNCIA DC NEWS – Na sua opinião, qual seria a Selic ideal para tanto estimular o poder de compra quanto garantir investimento?
RICARDO PASTORE – 
O Brasil não tem estrutura para suportar uma taxa Selic muito baixa.

AGÊNCIA DC NEWS – Por quê?
RICARDO PASTORE – 
Porque a gente não tem infraestrutura, não tem produção e rapidamente a inflação estoura. O Brasil não tem essa capacidade.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual seria nossa capacidade para a faixa de juros?
RICARDO PASTORE – 
Se chegar entre 8% e 12% já é um bom negócio. Mais para 8%.

AGÊNCIA DC NEWS – Agora também há o jogo político. Temos um ano de eleições.
RICARDO PASTORE – 
Vai melhorar. As coisas vão melhorar às vésperas das eleições para ajudar o governo atual a se reeleger, a se apresentar e sair bem na foto. Com muitos méritos, mas esse estilo de fazer política econômica… 

AGÊNCIA DC NEWS – …como assim?
RICARDO PASTORE –
 Na história do governo do PT sempre houve a ação pesada para estimular o mercado, o que gera inflação. E aí, principalmente a classe média sofre, e sofre muito com isso. Mas existe [paralelamente] um consumo represável. Na hora que as coisas melhorarem, sai da frente. Agora, tem muita mudança também, não vamos ver repetição de padrões, porque tem muita mudança nesse meio tempo, novos consumidores chegaram ao mercado.

AGÊNCIA DC NEWS – Com novos comportamentos de compra e consumo…
RICARDO PASTORE –
 Sim. A gente viu recentemente a chegada de duas empresas gigantes do delivery, a 99 Food e agora a Keeta. Porque tem demanda para isso. Assim como tem demanda para alguém competir com Mercado Livre, com Amazon, com Shopee, porque esse pessoal não para de crescer. Eles estão crescendo apesar desse cenário. Então, a gente vai ver mudança no comportamento de compra e novas marcas surgindo.

AGÊNCIA DC NEWS – E estamos com um nível de desemprego recorde no Brasil, que de certa forma tem segurado o varejo. Esse patamar se mantém?
RICARDO PASTORE – 
Tem dois fatores importantes: o crescimento da economia e a escassez de mão de obra. Tem muita gente que não quer saber de trabalhar no varejo. E o público jovem sempre procurou o varejo, que sempre dependeu muito do trabalhador recém-chegado ao mercado. Então, são pessoas que se formam nessas empresas varejistas. E agora há certa rejeição. As pessoas querem ter tempo livre, querem viver bem, fazer outras coisas na vida além de trabalhar.

AGÊNCIA DC NEWS – E há outras alternativas de trabalho…
RICARDO PASTORE – 
Sim, há outras alternativas. As pessoas fazem a conta, vale a pena ser entregador de iFood, ter ou alugar uma moto, e você faz o seu tempo, se você quiser trabalhar de madrugada, de sábado e domingo, mas se quiser tirar o tempo livre para fazer outras coisas é possível.

AGÊNCIA DC NEWS – Tem sido uma reclamação forte do varejista. O que ele deve fazer?
RICARDO PASTORE – 
O varejo, por enquanto, está reclamando, mas precisa encontrar saídas por meio da inovação. 

AGÊNCIA DC NEWS – Como?
RICARDO PASTORE –
 O varejista precisa repensar a loja, o sistema de atendimento, desenvolver novos processos operacionais, novos canais de venda e assim diminuir a necessidade de mão de obra. Estamos vendo um efeito socioeconômico que prejudica e pressiona o varejo, e também tecnológico, com a chegada da inteligência artificial (IA).

AGÊNCIA DC NEWS – Será a solução?
RICARDO PASTORE –
A IA pode ser uma válvula [de escape], porque as empresas vão entender que alguns processos podem ser substituídos. Elas vão precisar ser mais inteligentes em determinados processos. Vimos nos Estados Unidos anúncios de grandes empresas cortando muita gente. E pode ser que isso chegue aqui. Então o varejista vai entender que essa necessidade pode ser revista.

AGÊNCIA DC NEWS – Como você resumiria suas expectativas para 2026?
RICARDO PASTORE –
 Estou sendo bem cauteloso, porque vai ser um ano atípico, com Copa do Mundo, eleições, e o começo dessa curva, espero, descendente de juros. Essa é uma pressão muito grande da sociedade, e o Banco Central vai afrouxar um pouco, porque os empresários querem ter acesso a dinheiro por meio do consumo. Os consumidores querem. Há os políticos que, na véspera da eleição, querem ver os eleitores felizes. Então vai ter muita pressão pelo consumo. E o Banco Central, eu acho que vai acabar cedendo. Será um ano atípico.

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