Ambra Sinkoc, da Abióptica: 106,5 milhões de pares vendidos, mas a metade é pirataria

Uma image de notas de 20 reais
Ambra Sinkoc, presidente da Abióptica diz que tecnologia será chave em 2026
(Divulgação)
  • Em 2025, setor movimenta R$ 32,4 bilhões e cresce 5%. Para 2026, previsão é o mesmo patamar de alta. “O ambiente está mais restritivo"
  • Ambra Sinkoc: “Costumamos dizer que, para cada original vendido, existe uma cópia pirata circulando no mercado”
Por Bruno Cirillo

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Após quase um século com regras praticamente imutáveis, o mercado óptico brasileiro entrou em um período de reorganização estrutural, impulsionado por decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e por mudanças regulatórias internas da área médica que redefiniram os limites de atuação de optometristas e médicos no setor. As interpretações do STF abriram espaço para que estados flexibilizem a atuação dos optometristas, enquanto uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza médicos oftalmologistas a investir e empreender em óticas, algo vedado desde 1932. As mudanças atingem um segmento que faturou cerca de R$ 28,4 bilhões em 2025, com crescimento de 5%, e que também enfrenta pressões externas, como a concorrência chinesa, o avanço do comércio transfronteiriço e a pirataria. “Estamos vivendo uma transformação profunda do modelo de negócios do setor óptico”, disse à AGÊNCIA DC NEWS, Ambra Sinkoc, diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias Ópticas (Abióptica). Segundo ela, que representa 253 redes e grandes empresas do segmento, “as mudanças trazem impacto direto na concorrência, na cadeia produtiva e no ponto de venda”. 

Apesar das transformações regulatórias, o setor de óptica opera em um ambiente econômico mais desafiador. Em 2025 o avanço em relação ao ano anterior foi menor que o ritmo de crescimento registrado em 2024. A expectativa da Abióptica é de uma nova expansão de 5,2% em 2026, refletindo um cenário de consumo mais contido, pressionado pela manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado e pelo alto nível de endividamento das famílias, fatores que têm reduzido a disposição do consumidor para gastos não essenciais. “O ambiente está mais restritivo, tanto para quem produz quanto para quem compra”, afirmou Ambra Sinkoc. “O crédito ficou mais caro, os investimentos recuaram e isso se reflete diretamente no desempenho do varejo óptico.” Outro desafio que persiste ao longos dos anos é a dependência de produtos importados.

Segundo a Abióptica, o Brasil produz hoje cerca de 25 milhões de pares de óculos por ano, diante de um volume total comercializado estimado em 106,5 milhões de unidades, o que faz com que 75% a 80% do mercado sejam abastecidos por importações – concentradas principalmente na China, responsável por cerca de 90% das compras externas, seguida por Itália e Estados Unidos. Esse desequilíbrio, segundo a Abióptica, é agravado pela pirataria, que já representa aproximadamente metade dos óculos vendidos no país. “Costumamos dizer que, para cada óculos original vendido, existe uma cópia pirata circulando no mercado”, afirmou Ambra Sinkoc. “Isso distorce a concorrência, reduz a arrecadação e compromete a sustentabilidade da indústria formal.” Se contabilizados os produtos piratas, o faturamento do setor dobra. Para enfrentar o problema, a entidade atua em parceria com a Receita Federal na destruição de produtos apreendidos, que chegam a cerca de 5 milhões de unidades por ano. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Pode contar um pouco a história da Abióptica?
AMBRA SINKOC – Ela foi fundada por um grupo de empresas fabricantes nacionais que tinham necessidade de representação, ser ouvidas pelo governo, fazer coisas juntas, coletivamente. Com o passar dos anos, se transformou numa entidade de fornecedores. E a gente sabe o porquê: a indústria nacional, de modo geral, mudou para a China. E por isso, temos um setor que importa mais do que produz: temos menos indústria nacional, mais importadores e distribuidores. O mercado ótico se transformou e por consequência, a Abióptica também acompanhou esse movimento. No início, eram 12 fabricantes. Daqui a pouco, já vai fazer 30 anos – foi em 1997.

AGÊNCIA DC NEWS – Hoje são quantos associados?
AMBRA SINKOC – São 253. São lojas autônomas e franquias, que empreendem em nome de uma marca e com todas as regras do franchising. Mas só associamos o franqueador porque nossa regrinha é associar fornecedores, e o franqueador é um fornecedor. Também temos algumas cooperativas associadas. Mas só vamos até essa fronteira do fornecedor.

AGÊNCIA DC NEWS – Em questões de produção, quais são as carências do setor?
AMBRA SINKOC – Temos algumas dores, que acabam trazendo carências e necessidades. A principal é a pirataria imensa de produtos. Regiões populares como a 25 de Março impulsionam o produto pirata, ilegal, sem fiscalização e sobrefaturado em todo o Brasil. Essa é uma dor constante, latente e temos percebido que o Governo Federal, principalmente, não tem dado atenção às nossas fronteiras e cada vez mais produtos piratas entram no Brasil por três fronteiras específicas: o Porto de Santos, a fronteira terrestre do Paraguai, geralmente via Foz do Iguaçu, e muito também em Santa Catarina. O Rio de Janeiro em quarto lugar, também temos muito problema com o Rio. A gente tem algumas parcerias com a Receita Federal e eles pedem para que a gente destrua – faça a destruição das apreensões – porque imagine, eles apreendem e não têm recursos para incinerar.

AGÊNCIA DC NEWS Qual é o nível de pirataria hoje? 
AMBRA SINKOC – Mais de 50% do produto comercializado é pirata. Os nossos associados dizem: “Cada óculos que vendo tem uma cópia”. Mas as redes de ótica mesmo não fazem isso, acaba sendo vendido, enfim, em outros tipos de estabelecimento. Muitas vezes são esses varejistas populares, camelôs, quiosques mais informais. A loja de ótica, onde estamos acostumados a ir lá ver as nossas receitas oftalmológicas, às vezes vende. Só que aí tem um problema.

AGÊNCIA DC NEWS Qual? 
AMBRA SINKOC – A pirataria de marca se caracteriza muito como crime da propriedade intelectual. É um crime administrativo. Não tem uma pena [criminal]. Ninguém tem medo de vender pirataria. Mas provavelmente, se você já viu uns óculos piratas sendo vendidos, claramente a pessoa não vai falar que é pirata, mas que é de segunda linha – vai dizer que é réplica. Se corre ali realmente uma denúncia, vira processo, há só crime administrativo e o cara paga cesta básica. Ninguém tem medo disso. Mas se ele falar que é original, aí sim a pena fica maior, porque cai dentro do Código de Defesa do Consumidor. É crime contra a economia popular, passível de três a cinco anos de prisão.

AGÊNCIA DC NEWS – Quantos pares de óculos vocês incineram por ano?
AMBRA SINKOC – Depende. No Porto do Rio de Janeiro, ano passado, foi 1,8 milhão de peças. Mas a gente chega fácil, somando tudo, a 5 milhões de peças por ano. Tem uma empresa contratada para isso. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quais foram as principais iniciativas da Abióptica em 2025?
AMBRA SINKOC – Temos um portfólio de iniciativas grande. Desde representação institucional até ações de entrega para o associado. Conseguimos destaque na Reforma Tributária para os produtos de saúde ocular. Não isenção de tributo, um destaque importante com relação às lentes de contato e oftálmicas. Também tivemos um projeto de lei aprovado, que foi o reconhecimento do ceratocone como doença. Já nossas entregas para os associados são mais relacionadas a mapeamentos setoriais e pesquisas sobre influenciadores e bioética, além de um tripé muito interessante que são a saúde ocular, moda e tendência.

AGÊNCIA DC NEWS – Como são essas pesquisas?
AMBRA SINKOC – Por exemplo, fizemos pesquisa importante sobre a miopia infantil, com informações do nosso parceiro AIE Intelligence, o maior periódico de ótica do mundo. Os associados, evidentemente, usam essas informações de forma estratégica para fixar os seus produtos. Hoje a gente tem as lentes de regressão de miopia. É possível regredir a miopia infantil a partir das lentes, tanto de contato quanto oftálmicas. Então, o estudo de quanto a miopia infantil está crescendo no Brasil e no mundo é importante para eles.

AGÊNCIA DC NEWS – Houve iniciativas para ter melhor concorrência em relação à China?
AMBRA SINKOC – Trabalhamos muito junto a outras entidades via CNI (Confederação Nacional da Indústria) para conseguir a famosa Taxa das Blusinhas. A principal barreira é do imposto. A China já vem com capacidade competitiva muito maior, custos menores e imposto muito menor. Hoje o nosso imposto acumulado chega a 47% entre os elos da cadeia. E a China entra com as plataformas transfronteiriças, que também criam um problema grande. Primeiro porque vendem pirataria e depois porque colocam direto na casa do consumidor. Já dominam o mercado B2B e agora querem dominar o B2C.

AGÊNCIA DC NEWS – E para 2026, quais são os planos?
AMBRA SINKOC – Estamos montando alguns projetos importantes para a área social e vamos ter um Businness Intelligence (BI) porque entendemos que, assim, como tem todas essas questões de pirataria de marca e contrabando, e agora as plataformas colocando produto de baixa qualidade diretamente para o consumidor, entendemos que nossa grande missão é entregar produtos e serviços robustos para o associado.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual o efeito desejado?
AMBRA SINKOC – Que o deixe o mais competitivo e inteligente possível. É nosso grande investimento para 2026. Além disso, estamos discutindo alguns projetos de lei, como a inclusão do exame de vista nos exames admissionais periódicos do trabalhador e a obrigatoriedade de exame de vista nas crianças durante o início do ano letivo, para ser entregue com os demais documentos como a carteira de vacinação. Porque sabemos que a maior causa de repetência escolar é que a criança não enxerga bem.

AGÊNCIA DC NEWS – Como está sendo o impacto da macroeconomia nos negócios?
AMBRA SINKOC – A macroeconomia tem impactado de duas formas importantes. A primeira porque a taxa Selic está muito alta, lá nas nuvens e a maioria dos fornecedores não quer investir. Porque como você vai financiar uma máquina, uma linha de produção, com taxa de juros altíssima? Os empresários estão recuando investimentos, e isso tem prejudicado a economia e muito na questão do investimento – o que impacta no crescimento setorial. E uma questão que pesa muito negativamente são os jogos, as bets. Os jogos têm endividado o consumidor, principalmente de baixa renda. Isso tem impactado muito nas vendas do varejo. Esses dois fatores atrapalham muito, imensamente. 

AGÊNCIA DC NEWS – Em termos de investimentos, quais são os principais focos da indústria?
AMBRA SINKOC – Acho que os principais investimentos realizados serão em tecnologia. Precisamos ser mais competitivos. Cada vez mais entendemos o impacto na nossa indústria dos custos baixos da China. Eles têm tecnologia e mão de obra barata. O Brasil é um país de mão de obra cara e com altíssimos impostos. A mão de obra nunca vai ser barata porque os impostos trabalhistas são altíssimos. É preciso robotizar mais as linhas de produção para tirar mão de obra – o que é péssimo, mas é uma realidade – ou o setor não fica competitivo.

AGÊNCIA DC NEWS – E no varejo. Houve muitas aberturas de lojas e lançamento de novas marcas ou redes?
AMBRA SINKOC O varejo óptico cresce sistematicamente e abre muita loja. Mas à medida que abre, ele também fecha. A vida útil dos nossos varejos é de um ano, um ano e meio. Há a abertura de 4 mil, dependendo do ano, 5 mil pontos de venda, mas 4 mil fecham. Parece um grande crescimento, mas é vegetativo. A maioria das lojas tem uma unidade, 92% de todo o varejo no Brasil têm apenas uma unidade. As redes são muito mais sustentáveis porque elas vêm com um projeto de gestão. Se você vai ser franqueado Óticas Carol, Chilli Beans ou Diniz você tem ali todo um aporte da rede, modelo de gestão, desenvolvimento de produtos, treinamento e capacitação do balcão. Como estão mais preparados, esses fecham menos.

AGÊNCIA DC NEWS O que será tendência no setor?
AMBRA SINKOC As empresas querem competir com mais tecnologia na fabricação e diferenciação. E diria que os smart glasses já são uma realidade. Os primeiros lançados no Brasil foram da própria Óticas Carol, que é a maior: o Rayban Meta. É como se fosse um computador. Os óculos são conectados com o seu smartphone e você não precisa mais usá-lo, suas mãos ficam livres. Você vai fazer vídeos pelas câmeras que ficam na frontal, vai responder o WhatsApp com áudios ou pedir para que o smartphone, que está no seu bolso faça a digitação. Vai ler mensagens nas lentes, e fazer lives com os óculos. Eles fazem uma infinidade de coisas.

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