BC diz ao TCU que acionou MPF por indícios de fraudes do Master com Reag, investigada por elo com PCC

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O Banco Central enviou ao TCU (Tribunal de Contas da União) um relatório sobre operações suspeitas atribuídas ao Banco Master. Segundo informações do documento obtidas pela Folha de S.Paulo, o regulador acionou o Ministério Público Federal após identificar indícios de fraude em negócios do banco de Daniel Vorcaro com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.

O relatório do BC em poder do TCU aponta que, entre julho de 2023 e julho de 2024, Master e Reag estruturaram operações com falhas graves, em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional.

Essas transações fazem parte de um conjunto de operações estruturadas do Master com fundos no montante de R$ 11,5 bilhões, sendo dois ligados à Reag. É a segunda denúncia feita pelo BC ao MPF apontando indícios de irregularidades na atuação do Master – a primeira foi a revenda de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, segundo os investigadores, ao BRB.

O BC indicou ao TCU inadequado gerenciamento de capital e risco, negócios sem garantia, liquidez, e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, em fase de instrução.

A Reag foi um dos alvos da Carbono Oculto -operação realizada em agosto, que mira a relação entre setor de combustíveis, PCC e empresas financeiras. Procurada pela reportagem na tarde desta terça-feira (30), a empresa negou, em nota, elo com o PCC e informou que não teve acesso ao relatório do BC e , “por isso, não responde ao questionamento sobre a relação com o Master”.

Uma das suspeitas, segundo pessoas a par das informações do Banco Central, é que os fundos teriam sido usados para pulverizar recursos em nome de terceiros, “laranjas”. Entre os fundos citados, estariam o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, administrados pela Reag. Em outra frente, esses recursos teriam sido realocados na tentativa de venda do Master para o BRB (Banco de Brasília).

A suspeita é que um dos beneficiários desses fundos seria o próprio Vorcaro, segundo os achados entregues ao MPF. Procurado, Vorcaro e o Master não se manifestaram.

O documento do BC afirma que o gerenciamento dos riscos de crédito e de liquidez pelo Master nesses fundos foi considerado “inadequado ou inexistente”. Não havia, segundo o BC, um acompanhamento real da composição dos ativos líquidos nos fundos.

“Adicionalmente, o Banco Master operou, por determinado período, com insuficiência de capital, devido à adoção incorreta de Fatores de Ponderação de Risco (FPRs) dessas operações”, verificou o BC.

As inconsistências e irregularidades narradas foram reportadas ao TCU, onde o processo corre sob sigilo por determinação do relator, Jhonatan de Jesus.

Em outro trecho, o BC informa a data da comunicação ao MPF. Foi na véspera de decretar a liquidação do Master, anunciada em 18 de novembro.

“Em 17 de novembro de 2025, houve nova comunicação ao MPF por indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta. Tratava-se de operações estruturadas no montante de R$ 11,5 bilhões, que revelaram inadequado gerenciamento de capital e risco, com negócios sem garantia, liquidez, e diversfiicação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, que se encontram em fase de instrução”, diz o documento enviado pelo BC ao TCU.

O processo em andamento no TCU apura falhas e omissões do Banco Central no caso Master e, como mostrou a Folha, pode se transformar em trunfo para Vorcaro escapar de uma eventual condenação criminal e evitar ser forçado a fechar uma delação premiada no futuro.

Ministros e técnicos do tribunal de contas, ouvidos pela reportagem na condição de anonimato, avaliam que a corte tem poder legal para investigar a atuação do BC, mas há uma divisão entre eles sobre a força do TCU para anular a liquidação do Master, decretada pelo órgão regulador do sistema bancário brasileiro em novembro passado.

Nesta terça, Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, foram ouvidos pela Polícia Federal. Vorcaro e Costa foram depois submetidos a uma acareação por causa de versões conflitantes.

Os depoimentos ocorreram presencialmente na sede do STF (Supremo Tribunal Federal) e foram acompanhados por um membro do Ministério Público e por um juiz auxiliar do gabinete do ministro Dias Toffoli, relator das apurações sobre o Master na corte.

O processo no qual ocorreram os depoimentos é sigiloso. Desde o começo de dezembro, diligências e medidas ligadas à investigação sobre o Master e Vorcaro têm que passar pelo crivo de Toffoli, por decisão do próprio magistrado.

A investigação sobre a tentativa de venda do Master apontou que, antes mesmo da formalização do negócio, o banco teria forjado e vendido cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado para o BRB -R$ 6,7 bilhões em contratos falsos e R$ 5,5 bilhões em prêmios, o valor que supostamente a carteira valeria, mais um bônus.

Em nota, enviada na noite desta quarta-feira (31), a Reag negou conexão com o PCC.

“Não existe, em nenhuma das milhares de páginas produzidas e encaminhadas à Justiça pelo Ministério Público, pela Receita Federal ou pela Polícia Federal, qualquer menção que estabeleça conexão entre a Reag e o PCC”, afirmou.

“Desde o início das apurações relacionadas à Operação Carbono Oculto, a Reag tem colaborado integralmente com as autoridades, fornecendo informações, documentos e acesso aos seus sistemas sempre que solicitado”, acrescentou.

“Essa postura transparente já é de conhecimento do Ministério Público e da Polícia Federal. A Reag permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais, reafirmando seu compromisso com a conformidade regulatória e a integridade de suas operações.”

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