Familiares de presos políticos na Venezuela demonstram ceticismo com anúncio de libertação

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BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) – O regime venezuelano anunciou nesta quinta (8) o início da libertação de presos políticos, num movimento apresentado como gesto de boa vontade após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.

A informação foi divulgada por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, que afirmou que o processo de libertação já está em curso e deve alcançar um “número importante” de detidos, sem especificar quantos.

Segundo várias ONGs, o universo de presos políticos no país supera 800 pessoas, entre venezuelanos e estrangeiros. Irmão de Delcy Rodríguez, que assumiu a chefia do regime após a queda de Maduro, Jorge Rodríguez afirmou que a decisão deve ser entendida como um gesto para consolidar a paz e a convivência pacífica na Venezuela.

O anúncio, porém, contrasta com a experiência de familiares que há anos aguardam notícias sobre seus parentes presos. A Folha acompanhou manifestações recentes de reivindicação por informações sobre possíveis liberações.

Entre os manifestantes está Javier Giraldo, venezuelano-colombiano de 40 anos que atua como porta-voz de uma ONG de familiares de colombianos presos na Venezuela. Ele contou a história de seu pai, Javier Giraldo García, hoje com 70 anos, diabético, preso há quase cinco anos sem julgamento.

Nascido em San Cristóbal, no estado de Táchira, Giraldo García foi detido em 2021 após sair de uma consulta médica. Levado inicialmente a um tribunal em San Antonio del Táchira, acabou acusado de atividades contra o Estado.

Segundo o filho, o pai foi coagido a assinar um documento no qual assumia participação em atos de incitação a protestos. Essa confissão teria sido suficiente para que fosse transferido para Caracas e encarcerado na prisão de El Rodeo, onde permanece desde então.

Giraldo afirma que o processo apresenta contradições evidentes, com datas que não coincidem e acusações que considera ilógicas e absurdas. O pai, diz, nunca teve antecedentes criminais. Ainda assim, continua preso, sem julgamento e com contato extremamente limitado com a família. Ele afirma que muitas pessoas comuns sofreram, sem que houvesse grande visibilidade, o tratamento reservado a figuras conhecidas da oposição.

Giraldo relata ter recorrido a diversas instâncias internacionais em busca de apoio. Escreveu ao papa, a artistas e mediadores estrangeiros, como o cantor Bono, o ator Sean Penn e o ex-presidente americano Jimmy Carter, quando ainda vivo.

Outro caso que se impõe pela persistência e pela duração é o de Sonia Angarita, 55, que há mais de dez anos participa de protestos e atos públicos pela libertação do filho, Brandon Castaño, hoje com 26 anos.

Brandon era estudante no estado de Mérida quando foi preso durante uma manifestação contra a ditadura chavista. Nos dias seguintes à detenção, Sonia percorreu hospitais e necrotérios da cidade em busca de notícias. Não encontrou nenhuma. Durante anos, não soube se o filho estava vivo ou morto.

Sonia não tinha qualquer informação concreta sobre o paradeiro de Brandon. Na manifestação pelos presos políticos realizada em Cúcuta na última semana, um jovem que havia estado preso com ele contou à família que Brandon esteve encarcerado em uma prisão de Caracas. Ao ouvir o relato de que o rapaz estava vivo, Myriam, mãe de Sonia e avó do jovem, desmaiou e precisou ser atendida no local.

Em conversa com a Folha, Sonia disse estar cheia de esperança de que o retorno do filho seja em breve, mas não havia recebido nenhuma informação oficial até a tarde de quinta. Ela evita comemorar o momento político: para ela, a Venezuela ainda não é um país normalizado e qualquer coisa pode acontecer.

“Só acredito que algo realmente mudou quando meu filho entrar novamente em casa.” Sonia lamenta ainda que o marido, pai de Brandon, tenha morrido nesse período sem nunca saber se o filho estava vivo.

Ela também critica as contradições do discurso oficial do chavismo. “Delcy Rodríguez sempre se disse anti-imperialista. Agora, celebra a chegada dos dólares do petróleo e colabora com a reaproximação aos EUA”. Enquanto isso, Sonia afirma nunca ter conseguido juntar dinheiro para visitar o filho em Caracas.

Os relatos individuais encontram respaldo nos números consolidados por organizações de direitos humanos. Segundo o Foro Penal, ONG venezuelana que há mais de uma década monitora de forma sistemática os casos de perseguição política no país, havia 806 presos políticos na Venezuela pouco antes do processo eleitoral de 2024. Desse total, 175 eram militares, e 631, civis. Os presos se dividem ainda entre 701 homens e 105 mulheres.

O número cresceu de forma abrupta após os protestos relacionados à eleição presidencial, considerada fraudulenta por organismos internacionais. De acordo com o Foro Penal, ao menos 2.495 pessoas foram presas.

O histórico recente também alimenta o ceticismo de familiares e defensores de direitos humanos diante do anúncio de libertações. O chavismo recorreu em outras ocasiões a excarcerações seletivas como forma de aliviar pressões internas e externas.

Para organizações como o Foro Penal e a Provea, outra ONG venezuelana de direitos humanos, uma eventual libertação ampla só teria credibilidade se viesse acompanhada de garantias mínimas de devido processo legal, acesso aos autos, informação regular às famílias e o compromisso de não reincidir em detenções arbitrárias.

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