TAIPÉ, TAIWAN (FOLHAPRESS) – O edifício Taipei 101, na capital de Taiwan, traz no nome o número de andares que tem. Já foi o prédio mais alto do mundo. Na primeira semana de dezembro, do alto do 85º piso, onde fica um dos restaurantes mais elegantes da cidade, Brian Lee, diretor executivo de marketing do Taitra, o conselho de desenvolvimento de comércio exterior do país, fez um breve discurso para explicar a simbologia daquele momento pelo olhar local.
“Na nossa cultura, o oito é associado à capacidade de criar riqueza. O cinco representa os elementos da natureza –madeira, fogo, terra, metal e água. Isso indica que as pessoas nesta sala têm todas as ferramentas para prosperarem juntas.”
Nas mesas estavam os seis finalistas de um concurso internacional chamado “Go Healthy with Taiwan” (“Venha ser saudável com Taiwan”, em tradução livre). Era a peneira decisiva de 638 propostas, de 55 países, com sugestões nas áreas de saúde e esporte, com destaque para bicicletas.
A Folha foi o único jornal das Américas a acompanhar a final da seleção. O que parece um mero concurso, na verdade, é política pública. O foco de todo mundo é o ecossistema local de inovação conectado às demandas do século 21 –os inscritos querem acesso ao melhor de novas tecnologias, e o governo busca ideias para fomentar e perpetuar a já efervescente economia digital do país.
“Taiwan demonstra compromisso genuíno em trabalhar com inovadores globais para transformar tecnologia avançada em impacto no mundo real”, afirma Winston Yang, fundador e CEO da IdeasLab, startup incubada nos Estados Unidos que ficou entre as três vencedoras do Go Healthy.
O projeto do IdeasLab propõe aumentar o desempenho e a longevidade dos atletas a partir da análise de seus movimentos por meio de inteligência biomecânica sem marcadores –traduzindo, com câmeras e algoritmos de IA (inteligência artificial), sem sensores ou marcadores físicos. O sistema de leitura do corpo vai funcionar num aplicativo de celular. Os testes iniciais foram feitos com golfe, mas o projeto priorizou o beisebol, paixão de taiwaneses e americanos.
O chefe de Desenvolvimento de Negócios da IdeasLab, David Choi, explica que os melhores equipamentos de IA para esse fim estão em Taiwan. Segundo Choi, a ambição é evoluir para fazer a leitura de times, o que levaria o uso do app a seleções de futebol, por exemplo.
Outro projeto vencedor é o SafeNet – Garantindo a conectividade vital dos serviços de saúde em tempos de guerra. Foi apresentado pela ONG Charitable Fund Medical Innovations (Fundo de Caridade para Inovações Médicas) para blindar a internet da First Lviv Territorial Medical Union (Primeira União Médica Territorial de Lviv).
Junto à Polônia, a cidade de Lviv, na Ucrânia, é o porto seguro para refugiados da guerra com a Rússia, e o Medical Union, o maior sistema público municipal de saúde da região. Tem mais de 4.000 profissionais e quase 3.000 leitos distribuídos em três hospitais, dois centros de reabilitação, uma maternidade e um centro especializado para sobreviventes de cativeiro e tortura. Desde o início da guerra, atendeu mais de 1 milhão de pessoas.
A rede inclui o Centro Nacional de Reabilitação, batizado de Unbroken (inquebrável), que oferece cirurgias complexas, tratamento de queimaduras, ortopedia, reabilitação e apoio psicológico. Já ajudou 28 mil ucranianos gravemente feridos a retomarem a rotina, e mais de 800 deles receberam próteses.
Para garantir conectividade ininterrupta, o novo sistema de internet precisa de switches (dispositivos de rede que conectam múltiplos equipamentos) e pontos de acesso Wi-Fi de alta performance, produzidos por Taiwan. Essa conexão mais robusta por terra vai poder trabalhar com internet via satélite.
“O SafeNet não é apenas uma atualização tecnológica. É um investimento em resiliência, segurança do paciente e na capacidade do sistema de saúde da Ucrânia de continuar oferecendo atendimento de alta qualidade nas condições mais desafiadoras”, explica Nadiia Khytra, chefe do Departamento de Arrecadação de Fundos da Medical Union.
A outra proposta vencedora é inovação pura. A startup Perovskia Solar, baseada na Suíça, conquistou sinal verde para fazer uma aliança estratégica tecnológica e comercial com o setor privado de Taiwan e desenvolver dispositivos vestíveis autossustentáveis, sem baterias, que permitam o monitoramento contínuo de sinais vitais.
O sistema usará células solares de perovskita, um tipo de cristal muito sensível, capaz de captar luz natural, e até artificial, com grande eficiência. O insumo começou a ser aplicado numa nova geração de painel fotovoltaico, mas tem potencial para ir além. Possibilita a criação de módulos ultrafinos (menos de 1,6 mm de espessura), leves e flexíveis –características essenciais para um sensor junto ao corpo.
“Pode ser usado em qualquer coisa, como pulseiras, óculos ou até mesmo roupas. Nossa proposta é tornar esses dispositivos, vestíveis no dia a dia, energeticamente autossuficientes”, explica o fundador e CEO da Perovskia Solar, Anand Verma.
O empreendedor Daniel Santín, fundador e CEO da Imatec, pequena empresa do setor de tecnologia do México, único entre os seis finalistas representando países das Américas abaixo dos EUA, contou que, mesmo não ficando entre os escolhidos, abriu portas. A Traita viabilizou contatos com empresas locais.
Santí propôs a criação de uma bicicleta infantil com sensores de acompanhamento de desempenho, para contribuir em programas que combatam a obesidade em crianças.
“Taiwan tem cultura e ecossistema voltados à inovação, algo que infelizmente nossa região não conseguiu desenvolver ainda. Está tão à frente que muitos dos equipamentos que já usam no dia a dia aqui não funcionariam na América Latina”, afirma.
Duas empresas brasileiras ficaram entre as 20 finalistas. A WIT Tecnologia, uma healthtech que desenvolve soluções com IA e automação, e a JR Bicicletas, fornecedora de equipamentos com 30 anos de atuação.
O gerente para desenvolvimento de produtos da JR, Pierre Fiori, tem a mesma percepção do mexicano. “Nosso projeto não tem viabilidade no Brasil. Não temos tecnologia, e o nosso sistema de importação inviabilizaria a compra de insumos. Vamos tentar outra vez”, diz Fiori. Os técnicos da Taitra, explica ele, fizeram um relatório com muitos apontamentos e sugestões que aprimoraram a proposta.
A JR sugeriu a concepção de uma bicicleta elétrica –que gera debates no Brasil, mas é uma tendência em muitos países– movida a energia solar e com sensores para acompanhamento do desempenho físico, especialmente na terceira idade.
A diretora do Taiwan Trade Center do Brasil, Sandra Shih, explica que o entrosamento com esses inovadores faz parte de uma nova abordagem. “Sempre realizamos rodadas de negócios, patrocínios, trocas comerciais, e o país investe muito em pesquisa e desenvolvimento, porque não podemos parar de nos aperfeiçoar”, afirma.
“Mas entendemos que é importante criar e ampliar produtos e serviços por meio do intercâmbio com quem tem ideias promissoras –e é isso que propomos com essa iniciativa.”
Em 2024, outra campanha tinha como bandeira “Go Green with Taiwan” (Venha ser verde com Taiwan) e selecionou projetos sustentáveis. Segundo Shih, a Go Healthy volta em 2026. O país entende, até pelo envelhecimento da população, que saúde é uma das áreas mais promissoras para novas tecnologias.
ILHA CRIA NA NOVA FRONTEIRA TECNOLÓGICA
A Taiwan é uma pequena ilha na Ásia, menor que Cuba e Irlanda, com cerca de 23 milhões de habitantes, o equivalente à região metropolitana de São Paulo. Não se destaca por ser fonte de recursos naturais. No meio do século passado, era um país agrário, com baixa produtividade e muita pobreza.
Um combo, que reuniu modernização agrícola, fomento da industrialização, incentivo à educação e atração de investidores estrangeiros, ao longo de 20 anos, fez Taiwan se tornar um dos países mais prósperos da Ásia. Em meados da década de 1970, o Estado e um grupo de empresários inovadores focaram o país na área de tecnologia.
Taiwan se transformou numa das economias digitais mais prósperas do mundo. Hoje, não há indústria inovadora que não dependa da ilha, especialmente por causa de sua produção de chips –smartphones, tablets, notebooks, veículos, eletrodomésticos, equipamentos médicos.
O atual peso econômico do país é detalhado no Guia Comercial de Taiwan, disponível no site da ITA, sigla em inglês para Administração de Comércio Internacional, a agência do Departamento de Comércio dos EUA que promove as exportações americanas. O documento mostra que o país não para de avançar.
Em 2025, destinou US$ 5 bilhões para setores industriais modernizarem a infraestrutura tecnológica. Em paralelo, apenas no segmento de IA, o país tem a meta de formar 200 mil engenheiros até 2028.
Essa supremacia ganhou tal escala e poder econômico que acirra antigos embates geopolíticos e comerciais.
A China tenta reproduzir, sem sucesso, a capacidade da ilha na produção de semicondutores. Ao mesmo tempo, reafirma que a aquela faixa de terra, a cerca de 150 quilômetros de sua costa, é parte de seu território. Recentemente, voltou a fazer exercícios militares nas proximidades para mandar recado.
Os taiwaneses rechaçam essa versão. Têm apoio do Japão e uma sinalização dúbia dos EUA. O presidente Donald Trump já entendeu, no meio da guerra comercial que ele mesmo fomenta, que o próprio avanço americano trava sem os chips do país asiático.
A repórter viajou a convite do Taiwan Trade Center do Brasil