SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Imagine a cena: você tem um documento digital que precisa encontrar. Mas não tem certeza de onde armazenou. Pede ao seu agente de inteligência artificial pessoal para encontrá-lo no seu celular. O agente diz que não está no smartphone, mas sim no e-mail. Você acessa o notebook, confirma que o documento é aquele mesmo e, com um toque, migra o arquivo da tela do PC para a do celular.
“Cada vez mais as pessoas querem usar várias telas: você começa a trabalhar no smartphone, durante um deslocamento usa o tablet, em casa pega o notebook. Isso precisa ser uma experiência única, fluida”, diz Ricardo Bloj, 64, presidente da Lenovo Brasil, que prevê esse mundo pessoal hiperconectado no curto prazo, a partir do uso de um agente de IA único, sob medida para cada consumidor.
Também dona da Motorola, a Lenovo investe nesta realidade. Na tradicional feira mundial de tecnologia CES, encerrada nesta sexta (9) em Las Vegas (EUA), a multinacional chinesa apresentou a Qira, plataforma de inteligência artificial embarcada em todos os produtos do grupo: PCs (desktops e notebooks), smartphones e acessórios inteligentes, como relógios e pingentes.
Prevista para chegar ao mercado nos próximos meses, a plataforma tem a proposta de acompanhar o usuário de forma contínua entre os diversos aparelhos das marcas Lenovo e Motorola, sem depender de aplicativos ou chatbots como o ChatGPT. A Qira aprende com informações que os usuários aceitam compartilhar a partir dos seus dispositivos digitais, oferecendo uma assistência contextualizada.
O lançamento coloca a chinesa no páreo com as gigantes globais da inteligência artificial, como as big techs Microsoft (Copilot), OpenAI (ChatGPT) e Google (Gemini). A multinacional já é a maior fabricante de computadores do mundo, em disputa acirrada com a americana Dell, mas explora bem mais do que PCs.
Fundada em 1984 em Pequim pelo empresário Liu Chuanzhi e 10 engenheiros, com capital inicial de US$ 25 mil (R$ 134,2 mil), hoje a Lenovo fatura US$ 69 bilhões (R$ 372 bilhões) ao ano e está presente em 180 mercados, com mais de 30 fábricas e 18 laboratórios de pesquisa e desenvolvimento. No primeiro semestre fiscal 2025-2026, encerrado em setembro, a receita atingiu US$ 41,7 bilhões (R$ 224 bilhões).
O Brasil é o seu nono maior mercado, onde mantém três fábricas, um laboratório de P&D e oito centros de pesquisa. No país, atua nas três divisões globais: PCs, servidores e serviços. “Vamos do bolso até a nuvem”, diz Bloj, em referência aos celulares e servidores, respectivamente.
Em 2024 e 2025, o grupo venceu duas licitações da Petrobras, que somam R$ 650 milhões, para fornecer cluster de computação de alto desempenho (HPC). Trata-se de um conjunto de supercomputadores conectados para processar dados sísmicos brutos, a fim de transformá-los em imagens detalhadas do subsolo, algo fundamental para a exploração do pré-sal.
Em pesquisa, soma 54 patentes registradas no país e tem 36 projetos em andamento. Um deles é o monitor cardíaco desenvolvido em parceria com a Fundação Zerbini, ligada ao InCor (Instituto do Coração). Trata-se de um sensor que não apenas mede a arritmia, mas indica propensão a problemas cardíacos, graças a algoritmos de detecção e predição. “Está em fase final de aprovação junto à Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]”, diz Bloj. Segundo ele, a empresa investe ao ano mais de R$ 200 milhões em P&D no país.
O executivo vê espaço para crescer tanto no mercado corporativo, em especial nas pequenas e médias empresas, quanto junto ao consumidor, uma vez que menos de 50% dos lares contam com PCs. No país, mais de 60% do faturamento (não revelado) vêm de produtos voltados à pessoa física, graças ao peso local da Motorola -diferentemente do resto do mundo, onde produtos e serviços às empresas e governos somam cerca de 70% das vendas da Lenovo. No Brasil, a Motorola é comandada por Rodrigo Vidigal.
O tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, não atrapalhou os negócios, segundo Bloj, uma vez que a empresa não exporta e conta com fábricas no país, inclusive uma terceirizada em Manaus, produtora de componentes. Mas Reinaldo Sarkis, diretor de pesquisa da consultoria IDC, afirma que sobre o mercado global de PCs paira a ameaça de falta de memória, ou HD (hard disk).
“O mundo pode estar vivendo a pior crise de memórias da história da indústria de tecnologia, que tem chances de afetar drasticamente o mercado de computadores”, diz Sarkis. Isso porque os maiores fabricantes de memória vêm direcionando as vendas para a indústria de inteligência artificial, muito mais rentável, o que deixa fabricantes de PCs e tablets desabastecidos.
Nesta conjuntura, porém, multinacionais costumam ser menos afetadas do que competidores locais de tecnologia. “É um cenário que pode voltar a se estabilizar só em 2027”, afirma Sarkis.
A Qira abre à Lenovo a chance de ampliar as vendas com base em um ecossistema, uma ideia já explorada por rivais como Apple e Samsung, inclusive com a venda de serviços adicionais. A Apple, por exemplo, criou o streaming Apple TV+. Mas a iniciativa da Lenovo vai além ao focar no futuro do próprio negócio.
“Até 2028, mais de 90% dos computadores estarão equipados com inteligência artificial”, diz Bloj, citando estudos da Lenovo. “A novidade agora é que os computadores também vêm com o processador neural, o NPU [unidade de processamento neural], projetado para as cargas de trabalho exigidas pela inteligência artificial.”
Bloj prevê que no curto prazo, dentro de quatro anos, haverá a interação da linguagem natural com as máquinas, o que deve dispensar o uso de mouse e teclado.
“Cada vez mais a máquina vai conseguir interpretar seus movimentos e a sua voz”, diz ele. “Daí a importância do agente de IA pessoal, é o seu ‘gêmeo digital’. Ele começa a saber como você pensa, quais as suas preferências e o que você precisa fazer: de manhã, por exemplo, sabe qual sua agenda do dia, quais e-mails precisa responder e como, não é preciso digitar. Se recebe uma mensagem por WhatsApp, ele já dita a resposta”, afirma. ” Os comandos serão por gestos, voz ou até pelo próprio olho.”
RAIO-X LENOVO BRASIL
Fundação: 2013
Sede: Indaiatuba (SP)
Funcionários: 3.000 (com Motorola)
Presença: 3 fábricas: Indaiatuba (SP), Jaguariúna (SP) e Manaus (AM, terceirizada); 8 centros de P&D: Manaus, Fortaleza, Recife, Brasília, Florianópolis, São Paulo, Campinas (SP) e Sorocaba (SP)
Inovação: 54 patentes e 36 projetos de P&D em execução no país
Principais concorrentes: Dell, HP, Apple, Asus e Samsung
Faturamento 2024/2025*: US$ 69 bilhões (R$ 372 bilhões)
*ano fiscal encerrado em 31 de março de 2025; faturamento global
2026, MODO DE USAR
Nova série da Folha traz entrevistas semanais em texto e vídeo, apresentando expectativas, receios e estratégias escolhidas para 2026 pelos principais executivos de dez segmentos diferentes: supermercados, varejo, consórcios, têxtil, calçados e confecções, ar-condicionado, tecnologia, telefonia, serviços financeiros e mobilidade. Todas as empresas da série faturam mais de R$ 1 bilhão ao ano.