[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O acordo Mercosul-União Europeia pode virar um risco para a indústria brasileira se o país não avançar em reformas e competitividade, especialmente em um momento de maior salvaguarda comerciais das nações, afirmou o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso. Em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS, o executivo disse esperar crescimento de 5% nas vendas em 2026, após estimativa de alta de 8% em 2025, com desaceleração no ritmo e exportações pressionadas pelo tarifaço nos Estados Unidos. Se confirmado o resultado do ano passado, será a primeira alta em quatro anos.
De janeiro a novembro, a receita líquida total do setor soma R$ 277 bilhões (+8,1%). A receita interna atinge R$ 208,1 bilhões (+10,1%). As exportações devem manter o ritmo do ano passado (+5%), apesar dos efeitos do tarifaço (10% para 40 pontos adicionais), que fez as vendas para os Estados Unidos – principal destino dos produtos brasileiros – caírem em torno de 10%. Velloso, no entanto, disse que os efeitos do tarifaço começaram apenas em setembro. Assim, em termos anualizados, a queda poderia ser de quase 30%. Se as restrições persistirem, ele estima que a retração pode chegar a 50% em relação a 2024. Com problemas no mercado norte-americano, no ano passado o setor viu crescer o comércio para outros países, notadamente Argentina e Singapura. Isso fez as vendas aumentarem em relação a 2024, embora a balança siga deficitária em US$ 17,065 bilhões. De acordo com o executivo, foram US$ 13,8 bilhões em exportações (+5%) e US$ 32 bilhões (+8,5%) em importações em 2025.
Para o setor – que emprega 422 mil pessoas –, a questão estrutural, de longo prazo, é mais preocupante. A indústria vem perdendo mercado interno. O produto nacional tem 54,5% de participação aqui. Dez anos atrás, chegava a 70%. O principal motivo, também nesse caso, é a China. As exportações de máquinas daquele país para o Brasil cresceram 32% em 2024 e 12% no ano passado. “Eles já representam um terço das nossas importações”, disse Velloso. Para ele, medidas de estímulo à indústria são positivas, mas esbarram em limitações macroeconômicas e de infraestrutura. Isso vale para o acordo entre União Europeia e Mercosul, recentemente anunciado. “Se a gente não fizer nossa lição de casa, essa grande oportunidade que é o acordo pode virar um risco.” (Nesta segunda-feira 19, após entrevista à AGÊNCIA DC NEWS, a Abimaq divulgou nota sobre o tema: “A abertura comercial deve caminhar de forma equilibrada com uma agenda consistente de reformas internas e de competitividade”.)
AGÊNCIA DC NEWS – A que se deve a menor presença dos produtos brasileiros no mercado interno?
JOSÉ VELLOSO – O principal é o ataque chinês. Vários setores reclamam da invasão. No caso do automobilístico, basta olhar nas ruas. Confecção, calçados, aço, setor químico têm reclamado. A China tem uma estratégia de agregar valor às suas exportações, coisa que o Brasil não faz. Eles crescem muito no setor automobilístico e no de máquinas. As exportações de máquinas da China cresceram 12% em 2025. E já tinham crescido 32% em 2024. Eles já representam um terço das nossas importações de máquinas.
AGÊNCIA DC NEWS – Programas como o Nova Indústria Brasil (NIB), entre outros, não têm efeito para o setor?
JOSÉ VELLOSO – Os programas são importantes. Alguma coisa ajudou. A gente pode levar em consideração que teria piorado mais. Mas para ter uma política industrial que funcione, que seja efetiva, você precisa de equilíbrio fiscal e macroeconômico, para ter custo de capital compatível.
AGÊNCIA DC NEWS – É questão de custo?
JOSÉ VELLOSO – Por exemplo, eu tenho mais inovação. Posso procurar melhorar o ambiente de exportações, mas isso seria anulado pelo custo do capital. E também da carga tributária. O Brasil é o único país que tributa investimentos.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual será o impacto da Reforma Tributária?
JOSÉ VELLOSO – Tem três pontos importantes. Um é a desoneração do investimento – a transição vai até 2033. O Brasil também vai desonerar as exportações. Haverá mais justiça tributária. Você vai ter mais equilíbrio entre a carga tributária da indústria, dos serviços e do agro. Hoje, no consumo, é a indústria que paga a conta.
AGÊNCIA DC NEWS – No aspecto macroeconômico…
JOSÉ VELLOSO – Temos o maior juro do mundo e muita volatilidade cambial. Não temos segurança para fazer negócios no Brasil. E você tem uma China buscando novos mercados. O Brasil, diferente da Europa e dos Estados Unidos, é dependente da China. E a questão política não vai deixar o Brasil tomar as medidas necessárias para combater o comércio injusto.
AGÊNCIA DC NEWS – E o tarifaço?
JOSÉ VELLOSO – Fomos o setor mais impactado. Em média, a gente exporta perto de 4 bilhões de dólares para os Estados Unidos. Nenhum produto nosso foi beneficiado pelas exceções. E a gente sempre teve balança comercial negativa. Nós competimos com os norte-americanos e não estamos no índice de inflação deles. Mas o estrago foi menor do que a gente esperava.
AGÊNCIA DC NEWS – Por quê?
JOSÉ VELLOSO – Muitas empresas estavam cumprindo contratos – 82% das nossas exportações são intercompany. E grande parte são componentes de máquinas. Muitas empresas assumiram determinado prejuízo e mantiveram as vendas. Agora, os contratos estão terminando.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual foi o tamanho da queda?
JOSÉ VELLOSO – Exportamos 4 bilhões de dólares em 2023, 3,6 bi em 2024 e 3,2 bilhões agora.
AGÊNCIA DC NEWS – E se a política do governo norte-americano continuar?
JOSÉ VELLOSO – Podemos cair até 50% em relação a 2024.
AGÊNCIA DC NEWS – E com os outros países?
JOSÉ VELLOSO – Apesar da queda dos Estados Unidos, as exportações cresceram 5% no total. O motivo não é substituição de mercado. Quem perdeu venda para os Estados Unidos, perdeu. A participação dos Estados Unidos nas nossas exportações foi de 23%, já chegou a 26%.
AGÊNCIA DC NEWS – Onde cresceu?
JOSÉ VELLOSO – Para a Argentina, as exportações cresceram 38% em 2025, com 12% de participação. Houve melhora da economia argentina. Para Singapura, nosso terceiro destino (10%), o crescimento foi de 74%, com a construção de plataformas continentais. Singapura constrói o casco, mas todos os equipamentos eles compraram do Brasil.
AGÊNCIA DC NEWS – Como o setor vê o acordo Mercosul-União Europeia?
JOSÉ VELLOSO – O acordo era muito bom quando estava sendo discutido lá no passado. Primeiro, abre para nós a expectativa de um mercado de 720 milhões de consumidores. Abre também um mercado que representa um quarto do PIB mundial. E o Brasil vai ter prioridade nesse mercado. Esse é o lado bom.
AGÊNCIA DC NEWS – E o ruim?
JOSÉ VELLOSO – Onde nós somos mais competitivos? No agro, produtos de petróleo, mineração, celulose. Vamos dividir em agro e indústria de transformação. No agro, piorou muito porque aumentaram as salvaguardas.
AGÊNCIA DC NEWS – O que acontece com o setor industrial?
JOSÉ VELLOSO – Quando a gente olha para a indústria, o que aconteceu? O europeu faz mais inovação tecnológica que nós. Não tenho seguro de crédito, tenho uma taxa de juros muito alta, tenho uma infraestrutura ruim. Eles têm um ambiente de negócios melhor, segurança jurídica, infraestrutura. Se o Brasil não fizer as reformas necessárias, não combater o chamado Custo Brasil, resolver o problema fiscal, se a gente não fizer nossa lição de casa, essa grande oportunidade que é o acordo pode virar um risco.
AGÊNCIA DC NEWS – De que maneira pode mexer na balança comercial?
JOSÉ VELLOSO – O resultado final foi pior do que poderia ser para a agropecuária. Na questão industrial, pode ser um risco se o Brasil não fizer as lições de casa. O tempo é mais que suficiente. Precisamos buscar um sistema de financiamento sustentável e atrativo, seguro de crédito. Por outro lado, os empresários vão ter que investir em produtividade. Simplesmente assinar acordo não é garantia que vamos melhorar nossa balança comercial.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual a expectativa para a taxa de juros em 2026?
JOSÉ VELLOSO – No Finame [linha de crédito de BNDES], a taxa vai de 18% a 21%. Isso inibe a vontade de investir dos nossos clientes. A Selic deve terminar o ano em 11%. Ainda é muito alta. Com a inflação em tendência de queda, o juro real no Brasil vai continuar sendo muito elevado. E precisamos investir mais. Vamos terminar o ano com taxa de investimento de 17,2% do PIB. A gente tinha que estar com uma taxa acima de 20%. Em 2013, foi de 21%.