Transporte e alimentação fora pressionam inflação do verão; ar-condicionado e ventilador aliviam

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Usar um carro de aplicativo ou táxi, fazer um lanche fora de casa, ir a uma sorveteria ou a um clube de recreação, comprar uma passagem de avião e reservar uma hospedagem.

Todos esses serviços tendem a ser consumidos no verão, em viagens ou outros momentos de lazer, mas essa não é a única semelhança entre eles.

Todos também ficaram mais caros no Brasil, com altas de preços superiores a outros serviços ou bens que podem ser demandados ao longo da estação de calor.

Nos 12 meses de 2025, o transporte por aplicativo acumulou inflação de 56,08%, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Lanche fora do domicílio (11,35%), sorvete fora de casa (10,22%) e clube de recreação (10,07%) também registraram altas de preços de dois dígitos no ano passado.

Hospedagem (9,61%), táxi (9,46%) e passagem aérea (7,85%) vieram na sequência. Todos esses componentes aceleraram em 2025 –ou seja, tiveram variações de preço acima das verificadas em 2024.

Enquanto os serviços pressionam fora do lar, alguns bens industriais encontrados no varejo podem aliviar o bolso do consumidor em casa no verão.

É o caso do ar-condicionado (-9,82%), do ventilador (-7,24%) e do refrigerador (-6,79%), que acumularam queda de preços (deflação) nos 12 meses de 2025.

Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), os dados estão “contando uma história”.

Se de um lado o mercado de trabalho aquecido ainda estimula o consumo e impacta a inflação de serviços, de outro os juros altos dificultam reajustes de produtos com valor maior, como os eletrodomésticos, diz Bentes.

“O varejo é obrigado a reter preços e sacrificar margens [de lucro], mesmo em um momento de maior demanda sazonal”, afirma o economista.

“Ao consumir um serviço como transporte por aplicativo ou alimentação fora do lar, a gente não depende tanto do crédito, por mais que se pague a conta no cartão”, acrescenta.

O IPCA é o índice oficial de inflação do Brasil. É composto por 377 subitens –termo do IBGE para definir os bens e serviços.

A Folha selecionou 40 que podem ter procura aquecida no verão, em viagens ou em casa, além dos itens carnes, frutas e pescados, que reúnem mais de um subitem cada.

Se a lista da estação formasse um índice de inflação, a alta acumulada pelos preços seria de 4,51% nos 12 meses de 2025, de acordo com cálculos de André Valério, economista sênior do banco Inter. A taxa é inferior à verificada em 2024 (7,18%).

Para Valério, a inflação do verão mostra um comportamento similar ao registrado pelo IPCA de modo geral, que fechou o ano passado em 4,26%, conforme o IBGE.

O economista chama a atenção para a pressão de serviços, enquanto bens industriais e alimentos consumidos em casa subiram menos. As carnes, por exemplo, fecharam 2025 com alta de 1,22%. Nas frutas, a variação foi de 0,18%.

“A inflação de serviços é muito pegajosa. Primeiro, a política monetária [de juros altos] tem que desacelerar o crédito e a atividade [econômica] para impactar o mercado de trabalho e depois bater na inflação de serviços”, afirma Valério.

Já o alívio dos bens industriais, na visão do economista, é explicado sobretudo pela ampliação da oferta de produtos chineses no mercado internacional. Esse fator, segundo ele, foi mais relevante do que a queda do dólar para baixar os preços no ano passado.

“Com o tarifaço, a China teve que encontrar novos mercados. É uma força deflacionária”, diz.

Mesmo com o avanço dos preços de serviços, o setor de turismo deve bater novo recorde de faturamento no verão no Brasil, conforme projeção da CNC.

A entidade empresarial espera movimentação de R$ 218,77 bilhões na alta temporada, que vai de dezembro até o Carnaval, celebrado em fevereiro em 2026. Um impulso vem do maior desembarque de estrangeiros, diz a confederação.

O valor cobrado por serviços em barracas e quiosques de praia virou foco de discussão em cidades como o Rio de Janeiro.

Em postagem nas redes sociais, o prefeito Eduardo Paes (PSD) reclamou neste mês do que chamou de “enorme abuso nos preços exorbitantes praticados por alguns desses comerciantes”.

Paes publicou uma foto que seria de um tabelamento de preços em uma praia de Tel Aviv (Israel) e disse que determinaria estudos para avaliar a viabilidade de uma ação semelhante no Rio.

O prefeito declarou que, “em geral”, prefere deixar o “livre mercado” em funcionamento, mas afirmou que “alguma ação terá que ser tomada”.

Voltar ao topo