CRÔNICA, por André Naves: 'São Paulo, a Locomotiva da Criatividade'

Uma image de notas de 20 reais
Operários, obra de 1933, de Tarsila do Amaral (1886-1937)
(Reprodução/Acervo Palácio dos Bandeirantes)
  • "[A diversidade paulistana], que em qualquer lugar do mundo significaria segregação, aqui tem um propósito comum: a disposição para o fazer"
  • "Somente onde o trabalho encontra a pausa e onde o diferente encontra o semelhante floresce a verdadeira vocação da cidade: a Criatividade"
Por André Naves | colunista

Sempre que a rotina me leva a descer as rampas da estação Santa Cecília, ali na Linha Vermelha, sou convidado a uma pausa involuntária. Antes de ser engolido na corrida subterrânea, meus olhos sempre descansam nos versos de Cassiano Ricardo (1895-1974) estampados na parede.

É a poesia Café Expresso.

É ali que o poeta, joseense como eu, enxergou, com a sensibilidade da alma caipira, a essência sanguínea de São Paulo. Ele fala dessa injeção de ânimo, desse ouro negro que é a alma da nossa cidade e nos faz, dia após dia, trabalhadores corajosos e disciplinados.

Cassiano mostra como aqui, nesse território de concreto e garoa, construiu-se uma ética popular: a disciplina do trabalho e da diversão.

Nas mesmas rampas, a gente ainda pode ver O Violeiro, de Almeida Júnior (1850-1899), e Operários, da Tarsila do Amaral (1886-1973). Homogeneidade de uma massa operária? Pelo contrário! É um milagre sociológico só possível na diversidade de São Paulo!

Já pensou em quem tá naquele corre? Quem passa por ali? O executivo da Avenida Paulista, a estudante da periferia, o migrante nordestino, o imigrante boliviano, o refugiado sírio, o judeu, o herdeiro de quatrocentões, o filho de operários…

Origens sociais, regionais, étnicas e raciais que, em qualquer outro lugar do mundo, significariam segregação, mas que aqui se unem num propósito comum: a disposição para o fazer.

Mas a gente não pode pensar só no trabalho! Claro que ele é importante! Mas o que faz desta cidade uma potência de Inovação não é o suor, é a mistura.

Adoro pensar na etimologia das palavras… É com ela que a gente enxerga a alma das letras. Sabia que tem uma raiz que une Diversidade e Diversão? As duas carregam essa ideia de viração, de mudar de direção, de encontrar novos caminhos.

A viração é aquele jeito tão brasileiro – e tão paulistano – de se adaptar, de sobreviver, de inventar saídas onde só parecia haver muros.

Essa é a verdadeira riqueza de São Paulo!

A Criatividade – tão valiosa para o empreendedorismo e para a inovação social – não nasce da uniformidade. Ela brota do atrito, do encontro, da multiplicidade. É na pluralidade de ideias, no choque entre a sabedoria caipira e a tecnologia de ponta, entre o rap da quebrada e a orquestra sinfônica, que a Inovação acontece.

Mas para criar não basta ser diverso; é preciso também ‘di-verter’. É preciso o tempo da pausa, o tempo do café não como estimulante para produzir mais, mas como momento de reflexão.

É a diversão – o desvio da rota obrigatória – que permite à mente respirar e conectar pontos distantes. Sem esse ‘tempo de viração’, sem essa ludicidade, seríamos apenas engrenagens. Com ela, somos criadores.

Portanto, neste 25 de janeiro, gostaria de parabenizar São Paulo com a síntese das rampas de Santa Cecília!

Que continuemos sendo a terra da Disciplina e do Trabalho, sim, pois isso forjou nosso caráter pioneiro, pujante e resiliente. Mas que sejamos, acima de tudo, a Terra da Diversidade e da Diversão. Porque somente onde o trabalho encontra a pausa e onde o diferente encontra o semelhante que floresce a verdadeira vocação desta cidade: a Criatividade.

Parabéns, São Paulo!

Que sua beleza continue sendo a capacidade de enxergar no caos a semente do novo!

ANDRÉ NAVES
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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