Como o empréstimo familiar de R$ 7 mil fez Bruna Vasconi construir a rede de brechós que fatura R$ 250 milhões

Uma image de notas de 20 reais
Bruna Vasconi, hoje presidente do conselho da empresa: ecossistema de economia circular
(Divulgação)
  • Peça Rara soma 130 lojas em 23 estados e prepara expansão para 300 unidades até 2030, apoiada em franquias e profissionalização do setor
  • Atualmente, 12% do guarda-roupa dos brasileiros já é composto por peças de segunda mão, com expectativa de chegar a 20% nos próximos anos
Por Letícia Cassiano

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Em 2026, a rede de franquias Peça Rara completa 20 anos com números expressivos. São 130 unidades entre próprias e franqueadas e faturamento de R$ 250 milhões em 2025, 25% superior ao registrado em 2024. O plano é chegar a 300 lojas em 2030. À frente do negócio está Bruna Vasconi. Para explicar como ela se tornou referência no Brasil em moda circular, é preciso voltar no tempo – e ao berço do empreendedorismo: a necessidade.

Há duas décadas, com dois filhos pequenos, ela enxergou uma oportunidade de gerar renda com produtos usados. Ainda estava na faculdade quando, ao lado de uma amiga, pegou R$ 7 mil emprestados da avó e iniciou a empreitada que, anos depois, ajudaria a abrir caminho para a profissionalização da economia circular, mercado ainda em consolidação no Brasil. “Com muita modéstia, acredito que o Peça Rara contribuiu para o [atual] tamanho do mercado”, disse Bruna à AGÊNCIA DC NEWS.

Na última década, a moda circular deixou de ser nicho e se tornou um hábito mais comum no Brasil. Atualmente, 12% do guarda-roupa dos brasileiros já é composto por peças de segunda mão, segundo estudo do Boston Consulting Group (BCG). A expectativa é que esse mercado alcance 20% nos próximos anos.

EDUCANDO – Esse processo, no entanto, não é simples. É preciso que o consumidor se dispa de conceitos ultrapassados sobre a compra de roupas usadas. “Passamos a maior parte do tempo convencendo e educando as pessoas sobre moda circular”, disse a executiva.

No caso da Peça Rara, a obtenção de estoque difere dos modelos tradicionais de mercados de pulgas, em que as peças são mais fruto do acaso do que de estratégia empresarial. Na rede, os itens desapegados são recebidos em regime de consignação e, após a venda, o valor é dividido igualmente entre a empresa e o antigo dono da peça.

Também na toada da economia circular, a franquia trabalha com créditos para consumo nas lojas da rede. Entre o desapego e a venda, a peça passa por várias etapas, como triagem, avaliação e cadastro – processo custoso e demorado que, por muitos anos, foi realizado de forma manual.

Quando a empresa começou a ganhar escala, o sistema deu sinais de ineficiência. Ao todo, foram cinco sistemas de gestão até Bruna criar o próprio, uma solução que integra tecnologia, agilidade e o olhar de curadoria.

A ferramenta deve começar a ser implementada na rede ainda neste ano e servirá para dar sustentação à expansão em número de lojas planejada para os próximos anos. “Vai facilitar nosso trabalho, nosso atendimento e, consequentemente, aumentar a satisfação dos nossos fornecedores”, afirmou. Segundo a empresa, uma franquia tem faturamento mensal médio de R$ 190 mil e o investimento tem retorno a partir de três anos.

A busca por otimizar a operação também levou, no ano passado, o diretor financeiro da empresa, Matheus Andrade, a assumir o cargo de CEO, enquanto Bruna passou a presidir o Conselho. A mudança deu mais celeridade aos planos de expansão da marca.

GRUPO SMZTO – Há cinco anos, o Peça Rara integra o portfólio do Grupo SMZTO, de José Carlos Semenzato. Nesse período, a média de abertura tem sido de 30 unidades por ano, com presença em 23 estados e no Distrito Federal. Ainda no primeiro trimestre deste ano, a empresa ganhará mais um contorno regional, com a abertura da primeira operação no Amapá.

Se a diversificação geográfica é grande, a variedade de produtos também precisa acompanhar. Em cada unidade é possível encontrar itens básicos, vintage ou de grife, escolhidos e disponibilizados a critério do franqueado, de acordo com as características de cada região.

Esse modelo garante giro constante de mercadorias e sustenta o funcionamento das franquias. Antes da inauguração de uma nova loja, o franqueado deve montar um acervo inicial com, no mínimo, 4 mil peças. Bruna diz que “esses itens não estão na indústria, não estão nas lojas, estão na vida das pessoas”.

Depois de uma imersão na rede, na qual recebem apoio para estruturar a operação, os novos franqueados descobrem algo que Bruna já havia percebido em 2007: as pessoas desejam soluções para as peças encalhadas no guarda-roupa. Por essa razão, o fluxo de itens recebidos costuma ser superior ao de vendas.

EU SOU PEÇA RARA – Esse excedente deu origem ao Instituto Eu Sou Peça Rara, braço de responsabilidade social da rede, criado para dar destinação estruturada às peças que não são vendidas nas lojas ou que não passam pelos critérios de comercialização.

O instituto promove bazares beneficentes com valores simbólicos, destinando toda a renda obtida nesses eventos a projetos sociais apoiados pela entidade. Além do impacto social da circularidade, há também o impacto ambiental de escolher roupas que já existem em vez de aumentar a demanda da indústria por novas peças.

A ideia do instituto surgiu logo no início da operação, ainda em Brasília, quando o volume de peças recebidas e a necessidade de renovar as araras resultaram em um acervo suficiente para duas lojas. Na época, a empresária entrou em contato com as donas das peças encalhadas e perguntou se tinham interesse em doá-las – e recebeu apenas respostas afirmativas.

“Fui com um caminhão de doações até a creche de uma senhora que ajudava 80 crianças. Achava que estava arrasando”, disse Bruna à reportagem. Na prática, porém, a creche não tinha como aproveitar as roupas, nem espaço para realizar um bazar. Foi então que Bruna decidiu transformar aquelas peças em dinheiro e recursos para a creche. “Eu não posso achar que estou promovendo ação social apenas tirando das minhas costas uma montanha de roupas.”

Ao olhar para o passado, Bruna Vasconi afirma que a necessidade foi o catalisador do negócio. “Eu precisava muito que desse certo”, disse. “Cada pessoa que entrava na loja era tratada com todo cuidado. Isso fez toda a diferença. Vale para qualquer negócio.”

Assim, uma ideia que surgiu para ajudar a equilibrar as contas de casa deu origem a uma das maiores redes de brechós do Brasil, que emprega, sobretudo, mulheres como ela. Diante do império que construiu, Bruna parece cada vez mais próxima de descobrir que, se a Peça Rara existe e resiste, é porque ela sempre foi a peça-chave.

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